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Arte & Cultura
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25/06/2006
ARTE & EDUCAÇÃO
Entrevista – Ana Mae Barbosa
Ana Mae Barbosa é a principal referência no Brasil para o
ensino da arte nas escolas. Professora aposentada da USP, acredita que a arte
estimula a construção e a cognição das crianças e adolescentes, ajudando a
desenvolver outras áreas de conhecimento. Em entrevista exclusiva à Carta
Maior, Ana Mae Barbosa falou sobre a importância do
ensino da arte nas escolas e sobre as dificuldades de implantar essas idéias.
Carlos Gustavo Yoda e Eduardo
Carvalho – Carta Maior
Data: 22/06/2006
“Estou cansada dessa conversa de que Arte na escola custa caro”.
Ana Mae Barbosa é a principal referência no Brasil
para o ensino da arte nas escolas. Professora aposentada da Universidade de São
Paulo, acredita que a arte estimula a construção e a cognição das crianças e
adolescentes, ajudando a desenvolver outras áreas de conhecimento.
Filha de uma família tradicional, Ana nasceu no Rio de Janeiro, mas foi criada
com os avós em Pernambuco. Sonhava em estudar Medicina, mas isso era um absurdo
para toda a família. “Como uma mocinha vai ficar com um monte de homens vendo
corpos nus?”, questionava a avó.
Acabou caindo na “vala comum” da época e foi estudar Direito. Para pagar os
estudos, teve que partir para o ensino. “As únicas profissões aceitáveis eram
ser professora ou casar”, disse. Odiava aquilo. Odiava o ambiente repressor das
salas de aula. Por ironia, foi em um cursinho para concurso de professora
primária que conheceu Paulo Freire. Na primeira aula, o tema da redação era
“por que eu quero ser professora?”. Ana Mae escreveu
o que sentia, que odiava educação. No entanto, apenas quatro horas de conversa
com o mestre foram suficientes para destruir todos os seus preconceitos. “Só
então compreendi que educação não era aquilo que eu tive. Eu passei por um
processo de abafamento e moldagem. Mas ele me ensinou que a Educação poderia
ser libertadora”.
E Ana Mae transferiu aquele sentimento o para a
arte-educação, na Escolinha de Artes de Recife. Mudou-se para São Paulo para
fugir da ditadura militar. Foi para os Estados Unidos, fazer mestrado e voltou
como a primeira doutora brasileira em arte-educação e comandou as pesquisas
sobre o tema na Escola de Comunicações e Artes da USP.
Criadora da teoria da “abordagem triangular”, a arte-educadora entende a
necessidade da existência de educadores atualizados, artistas e acesso aos
trabalhos contemporâneos para que os estudantes consigam atingir o máximo do
desenvolvimento do conhecimento. Em entrevista exclusiva à Carta Maior, Ana Mae Barbosa falou sobre a importância do ensino da arte nas
escolas e sobre as dificuldades de implantar essas idéias.
CARTA MAIOR – Existe um debate hoje sobre a obrigatoriedade da
existência de artistas práticos especialistas nas escolas. Esse seria um grande
passo para a Arte-Educação?
ANA MAE BARBOSA- O artista não necessariamente
é um bom professor. Existe um estudo que defende ter ao lado de um artista um arte-educador trabalhando
junto. Um profissional que conheça as fases de desenvolvimento da criança. Um arte-educador tem o preparo,
conhece as fases de desenvolvimento e construção plástica da criança. É
necessário que entenda as fases de recepção da obra de arte; entenda como
articula o desenvolvimento social e cognitivo da criança. Por isso, eu defendo
a presença dos dois profissionais ao lado das crianças. Os melhores projetos de
arte-educação do mundo atuam dessa forma. Teve um projeto fantástico na Bahia,
chamado Quietude da Terra. Uma curadora canadense veio ao Brasil e convidou
vários artistas internacionais importantes. Eles trabalharam juntos com arte-educadores juntamente com crianças de rua de Salvador
e atingiram um resultado excelente.
CM - Mas isso é factível para a realidade estrutural da educação?
AMB - Eu estou cansada dessa conversa
de que custa caro. Custa caro colocar os menores na Febem. Um país que gasta
mais dinheiro com prisão do que com educação tem que mudar. É factível.
Acontece que, em países como a Inglaterra, Portugal e Canadá eles estão atentos
a isso e defendem a Arte na Educação. Eles fazem o trabalho em conjunto do
professor com o artista. É preciso aliar esse trabalho. O contato do artista é
importante para provocar e trazer os debates contemporâneos para as salas de
aula, abrindo os olhos para diferentes codificações.
Eu organizei recentemente um livro (“Arte-Educação Contemporânea” – Editora
Cortês) que tem um artigo que trata de um colégio no Canadá com artistas e arte-educadores. Já temos os arte-educadores
nas escolas, agora é preciso criar projetos para que coloquemos artistas, das
diversas áreas, nas instituições de ensino. O grande problema é que no Canadá
eles têm um grande respeito à multiculturalidade.
Eles fazem questão de mostrar os diversos códigos, como o dos africanos, o
indígena. Isso é magnífico. No livro, eles colocaram também umas fotos que
mostram a variedade de expressões.
CM - Mas a falta de investimentos no Brasil reflete-se apenas na
ausência dos artistas dentro das escolas ou estende-se também à questão da
capacitação?
AMB - Não é capacitação, o problema é a
atualização. Qualquer professor precisa estar atualizado. Eu não concebo um
professor que não procure, em um ano inteiro, um curso, uma conferência, ao
menos para trocar idéias. A atualização deve, então, ser permanente e não algo
esporádico como esta tal capacitação!
Há uma coisa meio perversa nos que chamam isso de capacitação. O professor é
capaz. Atualização significa que o professor é capaz, está formado, e se ele
não se atualiza constantemente será apenas um repetidor de formas e apostilas
que nenhuma capacitação vai resolver. Eu acho que o investimento primeiro deve
ser destinado à atualização constante. Uma coisa perversa que a Secretaria de
Educação do Estado (de São Paulo) fez foi achar que o que eles chamam de
capacitação fosse feito apenas nas escolas. Eles pensam que os professores que
saem para cursos tendem a voltar decepcionados para a
escola, por não conseguirem depois programar aquilo que aprenderam. Então os
professores ficariam desmotivados. Essa não é a minha experiência. Em todos os
casos que conheço, os professores vão e voltam com um
empenho tremendo.
Fizemos uma pesquisa recente do Centro Cultural Banco do Brasil que ilustra o
que estou dizendo. Em 2004, eles me chamaram e disseram que queriam fazer uma
pesquisa para saber como o professor usa, em sala de aula, o material que eles
preparavam para acompanharem as exposições, com slides, fotos e um livreto com
os conceitos de arte-educação. Eles contrataram uma empresa para fazer a
pesquisa. Rejane Coutinho (doutora em Artes pela ECA-USP) e eu para dialogar, desenhando a pesquisa e depois
para avaliá-la. Foram quatro exposições em um ano: “África”; “Nuno Ramos, um
artista homem, brasileiro e contemporâneo”; “Rosana Palazyan,
uma artista mulher, brasileira e contemporânea”; e “Antoni
Tàpies, da galeria de Paris”. Cada professor recebia
um kit. Primeiro, queríamos fazer um CD, mas depois descobrimos que nem todos
têm acesso a computador. Então, fizemos transparências.
Desenhamos a pesquisa em quatro grupos. Os professores comprometiam-se a
comparecer a um encontro mensal de relato e experiência, com uma professora de
português que trabalha com essa questão de memória e relato. Eles mandavam um
relato depois de cada aula e, a cada 15 dias, recebiam visitas de um agente de
campo, só para observar. No grupo um, tinha ônibus, lanche e horário reservado
para as exposições. O outro não tinha nada, eles que tinham que dar um jeito. O
primeiro trabalhou muito melhor. O segundo começou a se sentir preterido. No
primeiro, todos foram até o final. No segundo, três desistiram no meio do
caminho. Para os outros grupos só mandávamos o material. Percebemos que apenas
o material é insuficiente. Faltava o diálogo. Muitos iam ver a exposição antes,
mas não tinha aquela discussão. Não só acho que o contato com a instituição de
arte seja importante, como o contato com o artista. O museu é uma espécie de
laboratório.
CM - E um trabalho como esse, supre a necessidade da presença do artista
na escola?
AMB - Não. Para mim, o ideal é ter os
três: o arte-educador
atualizado, o artista e o trabalho com as instituições. “Estuda, vê, conversa”.
É o que chamamos de teoria da abordagem triangular. O que percebemos foi que
muitos professores utilizaram o material que preparamos para o currículo do ano
inteiro. E foram excepcionais. Por exemplo, a reprodução da capa do livro
“Artes Visuais – da exposição à sala de aula”, que traz o resultado da
pesquisa, veio do CEU Butantã, onde há muitas
crianças com problemas de comportamento. E a professora conseguiu um resultado
magnífico.
Tem uma outra professora, a Elza, que, se fosse para eu identificar uma
heroína, eu a escolheria. Ela já tem sessenta anos, dá aula em três turnos na
Cidade Tiradentes, um lugar onde não tem nenhum espaço cultural, cinema, nada.
Há, sim, classes de cinqüenta crianças em uma escola paupérrima. A escola em
que ela trabalhou na pesquisa tinha apenas cinco turmas. Ela conseguiu dinheiro
para levar todos os alunos. Ela era uma professora correta, mas
"careta", que deu um salto enorme em seu trabalho. Neste trabalho,
escolhemos a quinta série, pois ela é a exemplar fase na qual a criança deixa o
professor generalista e passa para o especialista. É quando ela terá que fazer
a junção das diferentes disciplinas.
CM – Então, explique para nós e para o leitor: por que é importante ter
isso tudo na escola?
AMB - Para trabalhar construção e
cognição. Na construção da Arte utilizamos todos os processos mentais
envolvidos na cognição. Existem pesquisas que apontam que a Arte desenvolve a
capacidade cognitiva da criança e do adolescente de maneira que ele possa ser
melhor aluno em outras disciplinas. A música desenvolve diversos processos
cognitivos, comparando, organizando, selecionando. Em Arte, opera-se com todos
os processos da atividade de conhecer. Não só com os níveis racionais, mas com
os afetivos e emocionais. As outras áreas também não afastam isso, mas a Arte
salienta ou dá mais espaço. Para desenvolver a criatividade em ciência, a
criança tem que ter certo QI racional. Para
desenvolver através da Arte, a necessidade de QI é
muito menor. Significa que ele procura outros caminhos cognitivos. Eu acho que,
em primeiro lugar, a função da Arte na Educação é essa, desenvolver as
diferentes inteligências.
Isso fica patente com o exemplo dos Estados Unidos, onde existe um teste
equivalente ao Enem - aliás, o Enem
é cópia do deles. Eles pesquisaram quais os currículos dos alunos que mais se
destacaram no teste, nos anos 90. Todos eles haviam tido no mínimo dois cursos
de artes. Lembre-se de que, lá, eles escolhem o currículo. Só aqui que
currículo é igual à receita médica. Mas isso não era suficiente. Além disso, é
preciso desenvolver o país culturalmente. Arte é uma fatia enorme da produção
humana. E com uma vantagem imensa de rever cada época. Diferente do fato, o
objeto arte permanece para ser revisto, relido ou reconcebido.
Isso é essencial: operar no mundo com conhecimento.
CM - E quais são as políticas públicas que existem para garantir isso?
AMB - Não há políticas públicas. Uma
das minhas grandes decepções com o atual Ministério da Educação é o silêncio
absoluto sobre Arte-Educação, sobre a função da Arte. E, no ministério
anterior, só se pensou em normatizar, parâmetros
mínimos. O que é a mesma coisa. Não serve para nada, não funciona.
CM - Por que não funciona?
AMB
- Se formos analisar o que aconteceu em outros países, percebe-se
que eles voltaram para trás. Não deu certo na Espanha, e eles importaram um
espanhol para desenhar o currículo que temos hoje. No lado que conhecemos e que
chamamos de Ocidente, o melhor exemplo é o do Canadá. Eles se recusaram
completamente a ter um currículo nacional. É puro desejo de controle das
instituições. O interessante é que, quando surgiu essa reforma,
eu me posicionei contra, fizemos todo um movimento. Aí eu fui até a
Argentina e lá tinha um movimento imenso. Pois lá também estava acontecendo a mesma coisa. E o espanhol que elaborou o currículo nada
mais fez do que oferecer desenho para colorir: ele tinha o contorno de tudo e
chamava as universidades hegemônicas para colorir em cada país. Aqui eles
escolheram a Universidade de São Paulo. No Chile, foi a Católica. Na Argentina,
foi a de Buenos Aires. Mas lá tinha um grande problema. A Universidade de
Buenos Aires não tinha cursos de Educação. Estava um movimento muito forte. Foi
até bom. Eu gritava contra e eles aplaudiam. Criei alguns inimigos. Mas, no
fim, aconteceu o que prevíamos, não deu certo. Depois sobrou um vácuo...