Entrevista sobre Assédio Moral com Tassos Lycurgo

19/11/07

O problema do assédio moral não é de agora. Há séculos que as pessoas são agredidas psicologicamente nos mais diversos locais – trabalho, família, escola etc. A diferença é que antigamente uns mandavam, outros obedeciam. Antes, pensava-se que isso era natural. Hoje as pessoas têm consciência de seus direitos. E a consciência tem sido o primeiro passo para a mudança.

O SINTEST acordou para o problema, já há algum tempo, tendo lançado uma ampla campanha contra o assédio moral e uma cartilha elucidativa do tema. Com objetivo de continuar dando visibilidade à gravidade dessa prática, procuramos um estudioso sobre o assunto para nos conceder entrevista. Não coincidentemente escolhemos o Professor da UFRN Tassos Lycurgo, que já havia participado de debate com o SINTEST, no programa Grandes Temas, da TVU. Tassos Lycurgo é um estudioso tendo passado por várias áreas de conhecimento, chegando ao Pós – doutorado em Sociologia.


Como você aplica esses conhecimentos hoje em dia? Você promove algum trabalho preventivo ou informativo sobre o assunto?

Faço sim. Já dei Mini - cursos na UFRN sobre assédio moral no trabalho, faço palestras, publico materiais nessa área. Muita coisa pode ser encontrada no meu site www.lycurgo.org. Eu acho interessante porque é um assunto novo e tem desdobramentos em todas as áreas. Na área da saúde, social, jurídica etc. Na saúde, por exemplo, hoje existem várias síndromes decorrentes da prática do assédio moral.

O SINTEST tem enfatizado o assédio moral no trabalho, apesar de saber de todas as suas vertentes. O assunto é novo, mas sempre existiu. Como era antigamente? As pessoas sabiam que existia o processo, tinham consciência ou a questão passava despercebida?

Antigamente o processo existia só que era identificado como fraqueza da vítima, que nem era considerada vítima. “Fulano” é uma pessoa depressiva, uma pessoa problemática, como diz no popular “tem a cabeça fraca”. Só que ela era vítima de um processo terrível que não tinha nome científico e nem estudos específicos. Depois se viu, com o tempo, que na verdade ela era vítima de uma agressão, que eu prefiro chamar de terror psicológico.

Como as pessoas se deram conta, de forma concreta, de que quem sofria isso não tinha culpa, e que o comportamento dela pouco tinha a ver com o terror que ela sofria? Como surgiu a visão de que essa prática era realmente um terror psicológico?

Foi com o avanço da relação das doenças chamadas psicossomáticas e da consciência de que aspectos psicológicos tinham efeitos no corpo. Começou a se estudar que essas doenças não eram uma fragilidade física e sim tinham aspectos extracorpóreos. As pessoas perdendo auto-estima, autoconfiança, capacidade, mesmo sendo excelentes profissionais. Todo o dia ouvir que se é um profissional ruim, depois de um tempo você se acha ninguém. No ambiente de trabalho as coisas são piores, porque o empregado tem que se importar com a opinião do empregador. E mais grave ainda é que esse terror não é anunciado. É sutil, uma coisa que a pessoa nem sente. Uma repetição ou outra de atitudes várias. Sabe como você pode assediar uma pessoa? Silenciosamente. O chefe pode deixar de falar com a pessoa, ir aos poucos tirando o trabalho dela, entre outros. Se isso acontecer uma vez, isoladamente não significa nada, mas quando começa acontecer muito, o trabalhador passa a achar que não tem capacidade.

Normalmente as vítimas são as pessoas muito capacitadas. O que leva o agressor a praticar o assédio? Existe alguma relação com medo de perder sua posição hierárquica? Seja no trabalho, socialmente, culturalmente?

No ambiente de trabalho há três tipos de assédio. Pode ser do empregado para com o chefe, o que chamamos de assédio moral vertical ascendente; pode ser também do chefe para o empregado, que é o assédio moral vertical descendente; e o assédio moral entre colegas de trabalho com a mesma posição, que o horizontal. Vamos investigar qual o interesse de cada um desses. No horizontal, o agressor assedia ou por inveja ou por não querer que o colega prospere. O descendente é quando o agressor quer que a pessoa peça demissão, sendo às vezes por uma questão pessoal - questões psicológicas profundas (preconceitos, por exemplo). Já o ascendente visa à sabotagem. O agressor começa a não passar informações, por exemplo, porque não gosta de um chefe novo que chegou.

Na essência, será que a gente pode encontrar alguma causa comum, para esse tipo de atitude, como um fator psicológico existente em todos os agressores?

A dificuldade de se encontrar uma causa comum é exatamente por ser o assédio moral decorrente das mais diversas áreas. Pode ser um aspecto unicamente psicológico. No entanto existe também o assédio organizacional, que é baseado exclusivamente em uma estratégia terrível da empresa, para poder excluir aquelas pessoas que eles não querem. O assédio moral, inclusive, pode ser pré-contratual, ou pós - contratual.

Sobre a questão jurídica? Não existe uma lei específica sobre assédio moral. Existem muitas leis municipais, estaduais, mas nada nacional. O que há são projetos de leis tramitando no congresso e que ainda não estão finalizados. Você acha que isso vai demorar muito para ser regularizado? Existe uma pressão da classe jurídica? Quando a vítima vai poder reagir tendo esta cobertura?

Geralmente as pessoas dizem isso, que não tem lei. Eu combato veementemente essa posição. O que não existe é uma lei própria, mas sobre todas as leis está a constituição federal que dá a garantia da dignidade da pessoa humana, da saúde e do valor social do trabalho. Essa previsão da constituição da república é mais do que suficiente para não deixar nenhuma lacuna no ordenamento jurídico para combater o assédio. Inclusive, dizer isso, que há uma lacuna jurídica que não permite
combater o assédio legalmente é dar abertura que favorece a prática. Não há lei específica, mas há a proteção suficiente para combater o assédio moral, porque o assedio é atentória contra a dignidade, saúde e valor social do trabalho.


Sendo assim, o que a vítima deve fazer para cessar o assédio moral? Já que existe essa cobertura na lei, o que a pessoa precisa? De testemunhas, provas?

A dificuldade probatória existe, principalmente porque são atos sutis, camuflados, ou seja, o agressor não se mostra abertamente. Isso não quer dizer que a pessoa não possa provar o assédio. Dependendo do caso, o agressor quem deve provar que não assedia, que é quando o juiz dá a inversão do ônus da prova. A vítima deve procurar um advogado, se o assédio acontecer só com ela. Se o assédio for uma prática de empresa, deve ser denunciado ao Ministério Público do Trabalho. Os sindicatos também têm que assumir o seu papel nesse processo. Os sindicatos têm que ajuizar ações civis públicas, contra as instituições que praticam o assédio moral. Porque essa ação sai do âmbito administrativo e vai para o judicial. É preciso que se imponham multas e condutas. A vantagem dos sindicatos é que eles
significam a despersonalização do trabalhador, daqueles que tem medo de mostrar a cara.


Você acha que o assédio tem ligação com a questão da educação, do ponto de vista social?

Existe, com certeza. Desde as pequenas palavras que nós falamos como, por exemplo, “esse menino é muito danado!”. Sabe o que significa danado? Você é um amaldiçoado. Dizer isso sempre para a criança prejudica. Frases como “deixe de ser burro”, “você não sabe de nada”. A educação não respeitosa cria potenciais agressores. Assim como isso acontece também nos relacionamentos de namoro, casamento etc. Em resumo, o assédio moral é algo inerente a todas as relações
interpessoais. Não só no trabalho, mas começa na família, na escola, o que traz conseqüências terríveis, pois você tem um ser adulto que se sente incapaz.


Por fim, qualquer manifestação de preconceito influencia no processo do assédio. O assédio moral é incutir, colocar dentro do outro, o sentimento de inferioridade, incapacidade, ausência de autodefesa. O assédio moral se dá quando não se reconhece a beleza que é a diversidade de idéias e as diferenças das pessoas.