IV Simpósio Internacional Principia

A Filosofia de Donald Davidson

2005


RESUMOS

ABSTRACTS


Paulo Abrantes
Maria Luiza Gastal
UnB
A hipótese da inteligência social em teorias da evolução da cognição humana

Teria a biologia alguma contribuição a dar para compreendermos a ontogenia e a filogenia da cognição humana sabendo, ao mesmo tempo, lidar com suas particularidades, relativamente à evolução de outros tipos de sistemas cognitivos?

Pretendemos dar uma resposta afirmativa a essa questão apontando, ao mesmo tempo, para intensas polêmicas que se travam atualmente em torno da mesma, envolvendo filósofos, biólogos, psicólogos etc.

Sistemas intencionais são aqueles capazes de sustentar estados mentais de tipo crença, cujo conteúdo não está rigidamente associado a um único padrão comportamental, mas que pode ser explorado no controle de uma grande variedade de comportamentos. Como evoluíram tais sistemas?

Uma das conjecturas a respeito de rotas evolutivas possíveis para a emergência de tais representações dissociadas é a chamada ‘hipótese da inteligência social’ que pode ser resumida nos seguintes termos: a complexidade do meio ambiente social teria exercido uma pressão seletiva no sentido do desenvolvimento (ou da evolução) da capacidade para ler mentes e também de habilidades interpretativas, talvez ancoradas numa versão rudimentar da folk psychology. Agentes capazes de meta-representação consegueriam prever com mais sucesso o comportamento de outros agentes, adquirindo uma clara vantagem seletiva num meio ambiente complexo e ‘translúcido’ como o social. Essa capacidade estaria na base da aquisição e uso da linguagem, do desenvolvimento social, da cooperação, do caráter cumulativo e vertical da cultura, da capacidade de obter informação sobre o mundo através de outros agentes, de compreender processos causais e, mesmo, da consciência.

Um subtópico importante, e que suscita muita polêmica, refere-se à evolução (ou não) da folk psychology e, associado a isso, à hipótese de haver um módulo mental para a mesma. A importância da cooperação na linhagem hominídea enfraquece, contudo, hipóteses de que existam módulos associados à inteligência social.

Vem ganhando terreno uma explicação alternativa das nossas habilidades interpretativas, que estariam ancoradas na construção de nichos, em especial, na ‘engenharia epistêmica’. Segundo essa explicação, a folk psychology é considerada uma habilidade social, adquirida a partir de um processo de aprendizagem guiado e apoiado em algum tipo de ‘andaime’ epistêmico cumulativo. Se aceitarmos essa explicação, a aquisição eventual de uma teoria da mente (como a folk psychology), não pressuporia qualquer mudança especial na arquitetura da mente humana (como colocam os defensores de uma modularidade em grande escala para a mesma). Em vez disso, a folk psychology seria adquirida pelos indivíduos através de uma aprendizagem social facilitada pela construção de nichos e pela engenharia epistêmica.

Este cenário apóia-se na plasticidade do desenvolvimento humano que, esta sim, seria uma adaptação, além da acima mencionada capacidade de conceber os outros como agentes intencionais. Em vez de haver coevolução da nossa arquitetura mental e das nossas capacidades interpretativas devemos esperar, nessa hipótese, algum tipo de seleção de grupo que favoreça a construção de nichos epistêmicos.


Fred Adams
Delaware
Does believing require the concept of belief?

Donald Davidson famously argues that one cannot have beliefs without having the concept of belief. I will look closely at Davidson’s arguments for this thesis. I will show that there is support for this claim not only in Davidson but in other philosophers who think that language is necessary for having beliefs consciously (self-reflectively). After presenting these reasons, I will look at literature on animal cognition to test Davidson’s thesis. There will we find strong reasons to support that many primates and possibly dolphins and corvids have beliefs, but clearly lack natural language. This empirical evidence may not discredit the view that language is necessary for sefl-reflective belief; but it does strain credulity that to have any beliefs at all one needs language or the concept of belief.


Sara Albieri
USP
Explicação, Crença e Conhecimento

O interesse de uma teoria da crença para a epistemologia consiste em investigar as circunstâncias em que uma alegação de crença pode pretender valor epistêmico. Sendo a crença antes de tudo um estado subjetivo de convicção, o modo de aferi-la poderá recorrer à descrição dos processos e circunstâncias objetivas de sua formação. Uma explicação considerada satisfatória poderá consistir num critério de confiabilidade adequado a tal avaliação.

O modelo consagrado da boa explicação é o da covering-law, que estabelece uma certa relação lógica entre o que fornece a explicação (explanans) e aquilo que está sendo explicado (explanandum). Idealmente o explanans tem a forma de lei, por isso o modelo é dito nomológico-dedutivo, mas pode ser aplicado de forma indutivo-estatística a casos em que algo é apontado como provável segundo uma lei estatística.

Tal modelo tem sofrido objeções, sobretudo quanto ao conhecimento e explicitação de leis ser necessário ou mesmo suficiente para produzir uma explicação considerada satisfatória. Discussões recentes têm destacado a importância dos elementos contextuais na situação típica de selecionar a melhor dentre explicações alternativas, tomando a explicação não como uma noção sintática, mas pragmática. Estas contribuições podem ajudar a elucidar a questão da explicação como critério de legitimação de crenças.

Em geral as explicações de porque um evento ocorreu são consideradas as únicas adequadas ao modelo covering-law, e são contrastadas com aquelas que descrevem como ocorreu. Estas consistem em descrições informativas dos processos que levaram à ocorrência do evento, em geral processos causais. Assim, explicar o processo formador de uma crença seria tipicamente uma explicação tipo como, não legitimada pelo modelo tradicional.

Mas a discussão recente destaca a diversidade de tipos como uma característica flagrante da família das explicações. Em muitas circunstâncias epistemicamente relevantes, as explicações parecem oferecer respostas a perguntas como: O que? Como? Quem? Qual?, Onde ou Quando?, por isso parece muito possível que, para cada tipo de explicação, se exija uma espécie diferente de justificação. A decisão acerca da legitimidade é pragmática: há séries de afirmações que, num contexto, se considerariam explicações perfeitas, noutro, meras descrições, e em outro ainda, respostas inapropriadas a um pedido de explicação.

É possível então argumentar a favor da relevância epistêmica de crenças a partir de explicações de processos de formação que atendam critérios pragmáticos de confiabilidade.


Cláudio de Almeida
PUC-RS
Coherence, Charity and Rational Belief Ascription

At this point in time, anyone approaching the issue of rational belief ascription in contexts of verbal communication faces the very real possibility of getting bogged down in a seemingly inextricable tangle of issues lying at the core of the philosophy of language of the last five decades: the conceptual tangle given unparalleled popular expression in the towering works of Wittgenstein, Quine, Grice and Davidson, but refined and extended in the more technical works of numerous influential philosophers – namely, the tangle constituted by the dispute between semantic holism and compositionality, at the highest level of abstraction, and, closer to the ground and directly negotiating with common sense, also by the prospect of accounting for the interplay between meaning, convention and intentionality in the form of theories of speaker meaning.

In this paper, I take what may fairly be deemed “a barbarian’s approach” to my topic, and I’m determined to persuade you that the task can be carried out to good effect. My most potentially offensive move is refusing to place my problem within the conceptual framework of any grand philosophical plan – be it some Davidsonian program of “radical interpretation”, a Gricean project for a general theory of “non-natural meaning”, or Sperber and Wilson’s attempt at producing a general theory of verbal communication. While what I propose to do here will have obvious implications for those three projects and for the works of some of their critics, and while we may want to pursue such implications at the more theory-laden elevations of the philosophical terrain, I submit that it is much to our advantage to approach the problem of rational belief ascription from as fresh and commonsensical a stand as we can responsibly take at this stage of the game. A relevant commonsensical assumption has it that speaker meaning is routinely underdetermined by linguistic meaning. Another seemingly sensible assumption: We have a firm enough grasp of the concepts of assertion and belief, and we also have a firm enough intuitive grasp of what counts as rational belief ascription in response to an act of assertion (that is, what makes a belief about an assertor’s belief reasonable) when we are apprised of the relevant circumstances. Accordingly, I propose that we see my problem as follows: On what priciples can we plausibly claim that a hearer rationally bases his interpretation of an act of assertion by a given speaker, resulting in the attribution, by the hearer, of a belief to the speaker? And the barbarian’s approach to this question will be: To begin with, some of the most intriguing principles of belief ascription put forward in recent memory will be discussed with a view to assessing their tenability. In barbaric fashion, the principles will simply be lifted from the literature, with little concern for the architecture of their conceptual homes, as if they all had roughly the same theoretical aim. Such principles will, for the most part, be found unsatisfactory. A new principle will then be proposed and defended. My conclusion will be that this new principle deserves a place at the core of any plausible theory of rational belief ascription.

References include Wayne Davis, Jane Heal, Anita Avramides, David Lewis, Peter Klein, Jonathan Kvanvig, Ernest Sosa, Keith Lehrer, Stephen Schiffer.


Marco Antônio Sousa Alves
Promove, MG
Habermas crítico de Davidson: Hermenêutica x objetivismo

A presente comunicação tem três objetivos principais: (a) apresentar a leitura que Jürgen Habermas fez do pensamento de Donald Davidson; (b) detalhar as críticas que o filósofo alemão dirigiu ao pensador americano; e (c) avaliar criticamente a leitura e as críticas habermasianas.

Quanto ao primeiro ponto, pretendo mostrar como Habermas interpreta as idéias de Davidson e de que maneira as insere no quadro da tradição analítica. Segundo Habermas, partindo da crítica de Frege ao psicologismo, um vasto campo se abriu para a filosofia da linguagem. Enquanto uma via pretendeu reconstruir a normatividade da prática do entendimento mútuo (um grupo de inspiração wittgensteiniana, que conta com Dummett e Brandom e se caracteriza por ressaltar o aspecto intersubjetivo), outro grupo se dedicou ao estudo da normatividade característica da linguagem sob premissas empíricas, com referência aos sujeitos capazes de linguagem e ação em relação ao mundo (aqui estão Russell, Carnap, Quine e também Davidson, nomeado por Habermas de “ramo empirista da tradição fregeana”). Para Habermas, Davidson desenvolveu uma análise empírica da linguagem, assimilando o ato de compreensão de um interlocutor à interpretação teórica de um observador, o que não concede o devido valor ao universo social do sentido corporificado na linguagem e intersubjetivamente partilhado.

Quanto ao segundo ponto, relativo às críticas dirigidas contra Davidson, Habermas parte de uma distinção entre o ponto de vista do participante (da racionalidade performativa ou de primeira pessoa) e o ponto de vista do observador (da racionalidade observacional ou de terceira pessoa). À primeira perspectiva está associada a hermenêutica, como estudo do sentido a partir de dentro, e à segunda está associado o objetivismo, que olha de fora. Habermas sustenta que a interpretação radical, calcada no princípio de caridade, não basta para tornar compreensível como o próprio intérprete aprendeu a falar, o que também não é resolvido na suposição modelar de uma situação de aprendizagem triangular, na qual dois organismos igualmente reagem ao mundo e entre si. Para Habermas, a triangulação davidsoniana é demasiadamente objetivista, pois a avaliação de que se tratam de reações semelhantes diante do mesmo é verificada não pelos próprios participantes, mas por um observador não participante. Para Habermas, cabe aos próprios participantes observar internamente essa semelhança de reação referente ao mesmo impulso ou objeto (como diz Wittgenstein, poder seguir uma regra). A opção de Davidson por um princípio objetivista significaria a opção por um solipsismo metódico. Em posição contrária ao objetivismo, Habermas coloca a hermenêutica filosófica, sustentada por Gadamer e partilhada, nesse ponto, por ele. Habermas joga Gadamer contra Davidson em um ponto: a suposição de racionalidade efetuada performativamente pelo intérprete de Gadamer é diferente da imputação da racionalidade objetivante que o intérprete de Davidson imputa ao estrangeiro, a partir da perspectiva de um observador externo.

Quanto ao terceiro ponto, relativo à avaliação da leitura e crítica habermasianas, acredito que o filósofo alemão exagera no aspecto objetivista de Davidson para poder, mais facilmente, criticá-lo a partir da hermenêutica de Gadamer. Ainda que confira importância ao pólo objetivo, Davidson não negligencia o aspecto intersubjetivo na triangulação. Penso que o caso do intérprete radical diante de outras culturas levou Habermas a exacerbar o olhar estrangeiro presente no observador davidsoniano, que em nenhum momento ignora o aspecto hermenêutico. Apesar da parcialidade da leitura habermasiana e da injustiça de sua crítica, pretendo concluir mostrando que há uma diferença importante entre aqueles que procuram dar lugar ao mundo (ao pólo objetivo) e aqueles que negam seu espaço e centram-se apenas no domínio social e intersubjetivo.


Susana de Castro Amaral
UFRJ
Paradoxos da irracionalidade: como Davidson resgata a interpretação freudiana da ação acrática, a divisão da mente e o sistema mental causal

Pretendo nesta comunicação abordar os elementos principais da defesa que Davidson faz da teoria psicanalítica freudiana no artigo “Paradoxos da Irracionalidade” publicado no Philosophical Essays on Freud (R. Wollheim e R. Hopkins (org.), 1982). Neste artigo Davidson sai em defesa de Freud contra alguns filósofos que, por um lado, criticariam a idéia de que a mente poderia ser dividida (p. ex. Sartre), e que, por outro lado, criticariam a submissão psicanalítica de fenômenos psicológicos a leis causais (Toulmim, Flew, McIntyre e Peters).

Segundo Sartre se admitíssemos a teoria da divisão da mente, então, seria impossível atribuir a uma pessoa a culpa por seus atos, pois sempre seria possível recorrer a tese de que se trataria de uma parte desconhecida da pessoa a responsável por determinada ação ignóbil e que, por isso, estaríamos isentos de punição. Desdobra-se dessa tese da divisão da mente a conseqüência de que os fenômenos ditos racionais (mentais) passam a ser em maior número, pois aqui estarão presentes também motivos, desejos e intenções que antes não eram reconhecidos como presentes na execução de determinadas ações: teríamos razões para nossos esquecimentos, atos falhos e medos exagerados.

A fim de tornar a psicanálise uma ciência segura Freud deu à sua teoria fundamentos causais que permitem-lhe exercer controle sobre os dados coletados dos pacientes, infringindo-os determinados diagnósticos e tratamentos. Freud tomou de empréstimo das outras ciências causais como a hidráulica, a neurologia, o eletromagnetismo e a mecânica1 termos com os quais pretende explicar de que modo é possível estabelecer um padrão causal entre os fenômenos psicológicos (Trieb, Besetzung, Dynamik etc.). Segundo alguns filósofos, porém, os fenômenos psicológicos são são do mesmo tipo dos fenômenos naturais ou físicos.

Davidson conclui dessas duas críticas que elas mostrariam que há duas partes irreconciliáveis na teoria de Freud, a saber, sua ampliação do racional e, portanto, proposicional, por um lado, e, por outro, a inclusão do racional na esfera do causal, não proposicional.

A fim de avaliar as críticas dos filósofos citados à teoria psicanalítica e sair em sua defesa Davidson opta por analisar, primeiro, os elementos da ação intencional normal e, depois, à chamada ação intencional irracional. A estrutura intencional de ambas é o que caracterizaria o seu aspecto racional, sinalizando o chamado paradoxo da irracionalidade.

A ação normal possui ao menos dois elementos importante a meta e a crença-desejo. A meta do exercício diário na academia de ginástica é a criação de músculo, diria o atleta, e essa meta está baseada na crença de que os músculos ajudarão na melhoria da sua performance atlética. Essa crença é a razão pela qual ele se submete a tortura diária dos aparelhos de musculação. A ação irracional, por outro lado, é aquela segundo a qual o agente após ter avaliado os prós e contras de duas ações opostas (atitude proposicional) acaba não optando pela melhor opção. O princípio de escolha pela melhor opção é o que norteia a ação correta, racional (phronética). Quando agimos contra esse princípio somos ‘incontinente’ e temos uma vontade fraca, diria Aristóteles. Neste ponto de seu trabalho Davidson faz uma análise importante daquilo que ele chama de ‘Princípio de Platão’ (princípio segundo o qual só agimos de forma incontinente por ignorância) e de Princípio de Medéia (agimos de modo incontinente por razão de uma força exterior). No ‘Princípio de Medéia’ a intencionalidade e a racionalidade não estariam presentes já que a causa da ação do agente vem de fora. Mas ele serve de modelo para a solução de Davidson: o padrão motivador da ação irracional deve vir de ‘fora’, isto é, não de algo exterior ao agente, mas de outra parte da razão do agente. A única forma de mantermos o princípio de Platão (que representaria a doutrina da racionalidade pura) e ao mesmo tempo fornecer uma explicação racional para os chamados atos irracionais, quando agimos contra o princípio da melhor escolha, seria, diz Davidson, admitirmos com Freud de que há uma divisão da mente.

[1] Davidson esqueceu de fazer referência à biologia.


Anice Lima de Araújo
UFMG
Os Milagres e a Caridade

Segundo Davidson, para se entender o comportamento das pessoas, deve-se interpretar boa parte dos relatos como supostamente verdadeiros acerca de suas crenças, e só deste modo podemos entender como realmente as pessoas agem. Ele vai dizer; “Since charity is not a option, but a condition of having a workable theory, it is meaningless to suggest that we might fall into massive error by endorsing it (…) Charity is forced on us; whether we like it or not, is we want understand others, we must them right in most matters” (grifo nosso) (Davidson, On the very idea of conceptual scheme, pg. 197). Neste texto buscaremos entender em que consiste o princípio de caridade – princípio esse que fornece ao intérprete uma grande capacidade de compreensão da ação dos agentes, e como um intérprete imbuído deste princípio poderia interpretar relatos religiosos, místicos e milagrosos.

A hipótese que discutiremos é até onde vai o princípio de caridade, onde a crença no testemunho humano excede o razoável (como em relatos religiosos), e se excede como o intérprete poderia identificar tal excesso. Para contrapor o argumento de Davidson tomaremos como elementos de discussão a abordagem de David Hume acerca do mesmo tema, a saber: a formação da crença em milagres com base em testemunhos em sua seção sobre os Milagres. Em Hume, o testemunho humano mostra-se como um raciocínio útil e necessário à vida humana e se funda sobre a experiência passada, portanto, varia com a experiência e assim, deve ser analisado o grau de evidência atribuído a um testemunho a favor de uma crença para verificar o grau de legitimidade ou justificação que está crença possui.

O objetivo aqui será o de mostrar que entre a abordagem de Davidson e Hume, há uma razoável proximidade e algumas diferenças, sendo que a análise de Davidson complementa em parte a posição de Hume no que tange ao testemunho.

Examinaremos principalmente os textos: “The Method of Truth in Metaphysics”, “Thought and Talk” e “On Very Idea of Conceptual Scheme” ambos de Davidson e “Enquiry Concerning Human Understanding” de Hume.


Inês Lacerda Araújo
PUCPR
Davidsons’s “Radical Interpretation”: Advantages and Restrictions

Davidson main theses on the role of language in communication, namely the radical interpretation, the charity assumption and the very idea that meaning depends upon a theory of truth for natural languages that is not independent of desires and beliefs, are revolutionary in what concerns semantics. He uses the concept of truth for closed sentences with support both on formal features of language and on the knowledge of an interpreter of the conditions of true that are held by a speaker. This is the most consistent way of providing evidence and satisfaction for a sentence so that the sentence has a meaning, that is, it can be understood, interpreted. Davidson rejects the correspondence theory of truth because this theory does not take language into consideration. Only sentences can be true or false, but this is not a property of sentences, there is no direct connection with the empirical facts. There “is a relation between sentences, speakers, and dates”, stresses Davidson. This conception of meaning has many advantages: semantics must take into consideration the use of sentences by speakers in a certain occasion; each sentence has to be interpreted in an occasion of use, in a specific situation and meaning is provided through truth conditions that are relative to the situation; language is not a closed structure; language does not depend on facts for it does not represent reality; meanings are not mental entities; there is a connection between language, events and beliefs; reference is possible without reality and at the same time sentences are given a prepositional content that satisfies truth conditions so that the relations between names or predicates and objects is satisfied indirectly.

These theses represent a considerable progress in philosophy of language, but they are restricted to the semantic ground. Even when Davidson is concerned with the speaker and the interpreter, the point in focus is the sentence and its prepositional content. Though these semantic features are indispensable, they alone do not provide the conditions for success in communication. If an interpreter has to know the truth conditions held by the speaker, their agreement depends on suppositions about beliefs and desires of the speaker. But, how the interpreter knows what true conditions exactly are those required to provide evidence? Observation of the behavior, holism and the charitable assumption provide no answers to solve this difficulty. Evidence and satisfaction must be completed by the acceptance of the prepositional content that will give an actual role of this sentence in a dialogue. The comprehension level requires a further step in the direction of pragmatic conditions to show how, why, what are the reasons that produce the acceptance of a speech act and not just its comprehension. The prepositional content is questioned, rejected, denied, etc. by speakers. In real situations of speech, there is not just the utterance of a sentence, but a linguistic action, where the semantic devices operate through pragmatic features.


Rômulo Bertoldo de Araújo
UFRN
Considerações acerca do suposto caráter “negativo” e epifenomenalista do monismo anômalo – Kim versus Davidson

A idéia segundo a qual eventos mentais desempenham papel causal no mundo físico sem que sejam aprisionados pela rede nomológica de uma teoria física é parte integrante da teoria filosófica de Donald Davidson acerca do mental. Contudo, se considerarmos que uma das principais características do domínio físico é a apresentação de um determinismo causal de tal forma que tudo que entra numa relação de causalidade neste domínio pode ser a principio explicado por leis físicas deterministas, então uma questão se impõe: como reconciliar a função causal dos eventos mentais dentro do mundo físico? Segundo Davidson, um corolário desta questão que se tornou bastante comum na filosofia é vinculá-la ao debate sobre “liberdade e determinismo causal”, e isto acontece porque geralmente pressupõe-se desde o inicio que determinismo causal implica aprisionamento nomológico dos eventos mentais e que a liberdade, ao contrário, requer escapar de tal aprisionamento. No entanto, para Davidson esta não é uma abordagem satisfatória, visto que perpetua a “aparente dificuldade” da questão em esquemas fixos e pouco esclarecedores do tipo “liberdade versus determinismo”. Em “Mental Events” Davidson propõe uma análise que não seja tão esquemática e que não crie conflito entre ação livre e determinismo. Com efeito, tal análise passa por uma reconsideração do papel do aspecto mental e sobretudo pela idéia de liberdade. Assim, para levar a cabo sua proposta, Davidson considera a liberdade sob dois aspectos: autonomia, cujas questões podem ou não entrar em conflito com a idéia de determinismo; e anomalia (não cair sob uma lei) que pode ensejar um outro encaminhamento da questão e conseqüentemente resolvê-la. Com efeito, Davidson reformula a questão substituindo a idéia de liberdade pela idéia de anomalia e tratando as ações humanas no âmbito dos eventos mentais, isto faz com que o objetivo de Davidson seja dar uma resposta plausível a esta “aparente contradição” relativa aos eventos mentais, isto é, como podem os eventos mentais desempenhar função causal e serem anômalos? A proposta de Davidson é que eventos mentais são idênticos a eventos físicos, porém não existem leis estritas que liguem tais eventos. Desse modo, Davidson propõe um materialismo não-reducionista, onde o mental apresenta-se como anômalo, isto é, não é regido por leis estritas. A teoria filosófica de Donald Davidson acerca da relação mente-corpo é conhecida como monismo anômalo. Monismo porque Davidson acredita que eventos mentais são idênticos a eventos físicos, daí subscrever uma ontologia materialista. Anômalo porque o mental não é regido por leis estritas. O monismo anômalo segue a partir dos seguintes três princípios:1º Principio da Interação Causal; eventos mentais são causalmente relacionados a eventos físicos, 2º O Princípio do Caráter Nomológico da Causalidade; se dois eventos são relacionados como causa e efeito, há uma lei estrita sob a qual eles podem ser subsumidos, 3º Não há leis psicofísicas estritas; anomalismo do mental. A primeira vista os princípios parecem contraditórios, mas segundo Davidson basta interpretá-los corretamente para que esta aparente contradição seja dirimida. Não obstante, uma crítica influente a teoria de Davidson é a acusação de Jaegwon Kim de que o monismo anômalo implica epifenomenalismo além do que se configura como uma tese “negativa”, pois, não diz como o mental se relaciona com o físico, mas sim como o mental não se relaciona com o físico. O objetivo deste trabalho consiste primeiro em apresentar um breve esboço do monismo anômalo, segundo, em examinar a acusação de epifenomenalimo e o suposto caráter “negativo” e finalmente, em indicar uma possível resposta a tal acusação. Para tanto, assinala-se que o monismo anômalo deve ser compreendido levando-se em consideração a especificidade da ontologia de eventos postulada por Davidson, bem como o seu projeto filosófico.


Gerson Albuquerque de Araújo Neto
UFPI
Pontos em comum entre a Filosofia e a Matemática

O objetivo deste trabalho é estudar alguns pontos em comum entre a filosofia e a matemática. O termo “matemática” e o termo “filosofia” foram criados pelo mesmo pensador, Pitágoras. Este liderava uma escola, na cidade de Samos, a chamada escola Pitagórica. Havia dois grupos de alunos: os mathematikoi que eram alunos regulares e internos na escola. E havia o segundo grupo, os akoumastikoi, que eram apenas alunos ouvintes e não matriculados. Já o termo “filosofia”, Pitágoras cunhou quando por causa de seus conhecimentos foi chamado de sophos, que quer dizer sábio em grego. No entanto, Pitágoras refutou que não era um sophos, mas philo sophos, que em grego quer dizer um amante do saber ou da sabedoria. Os livros de história da filosofia apresentam Tales de Mileto como o primeiro filósofo da história. Este, também, era astrônomo e matemático. É dele a descoberta dos eclipses. Tales tem, ainda, contribuições na geometria. Platão, que junto com Aristóteles são os dois principais filósofos da Antigüidade, é também um estudioso em matemática. No pórtico de entrada de sua academia mandou escrever “Não entre aqui quem não souber geometria”. Portanto para Platão só poderia estudar filosofia quem soubesse geometria. Aristóteles foi o criador ou sistematizador da lógica. Isto por si só já mostra a importância da filosofia de Aristóteles para a matemática. Os historiadores da filosofia afirmam que a Filosofia Moderna inicia com René Descartes. Ele revolucionou a filosofia modificando o eixo da discussão filosófica do ser para o conhecer. Descartes é considerado o pai da geometria analítica. E a principal obra de Descartes intitulada “Discurso do Método” tratava-se de um prefácio para um livro de geometria. Contemporâneo de Descartes, Pascal, também deu contribuições para a matemática e para a filosofia. Galileu Galilei é outro filósofo que trabalhou nos dois campos. Galileu contribuiu para o nascimento da ciência moderna. Em suas reflexões escreveu que a “natureza é escrita em caracteres matemáticos”. Para ele só possível estudar e entender a natureza com o auxílio da matemática. Gottlob Frege é outro pensador que apresentou contribuições para a matemática e a filosofia. Ele é considerado o precursor da filosofia analítica e o primeiro responsável pela reviravolta lingüística na filosofia. Bertrand Russell, outro dos grandes expoentes da filosofia analítica, é também um dos grandes estudiosos da matemática. Na atualidade, nos estudos de lógica não há fronteiras bem definidas entre filosofia e matemática. A lógica ficou quase intacta de Aristóteles até o final do século XIX, quando Frege com o seu projeto de fundamentar a aritmética na lógica, inicia uma nova fase de estudo para a lógica. Os trinta primeiros anos do século XX foram anos de muitas contribuições na lógica e na matemática. Três grupos se destacam nesta época. A escola Logicista com Frege e Russell. A escola Formalista com David Hilbert e a escola Intuicionista com Brower. Outra contribuição foi a de Kurt Gödel com seu teorema da incompletude. A lógica brasileira tem também sua contribuição com os trabalhos do professor Newton da Costa que criou a lógica Paraconsistente. Vale lembrar que o professor Newton da Costa, mesmo matemático e engenheiro, lecionou por muito tempo no departamento de filosofia da USP. Hoje, este campo continua bastante fértil. Muitos matemáticos trabalham conjuntamente com filósofos mostrando com isso que filosofia e matemática ainda têm muitos pontos em comum.


José Maria Arruda
UFC
A Refutação davidsoniana do Ceticismo: um argumento transcendental?

Davidson defende, em vários escritos, a tese de que não podemos estar massivamente errados acerca do mundo. Segundo ele, a demonstração da impossibilidade de um ceticismo global tem seu fundamento na estrutura do projeto da interpretação radical e especificamente na reflexão acerca da necessidade de empregar amplamente o princípio de caridade.

Na interpretação radical, a única evidência disponível para o intérprete é o comportamento verbal do falante e as circunstâncias do mundo no momento em que ele profere suas sentenças. Por isso, o intérprete tem que assumir aprioristicamente que os proferimentos do falante são expressão de suas crenças. Dado o holismo do mental e do caráter inferencial das crenças, qualquer crença pertence a um conjunto estruturado e antes mesmo de poder julgar a verdade de uma crença específica é necessário já ter aceitado a verdade de muitas outras crenças. Isso significa que o interpretante não pode assumir que o falante erre massivamente. Pressupor que o falante erra constantemente é, em termos davidsonianos, “pragmaticamente contraditório”, pois implica em negar e afirmar ao mesmo tempo a possibilidade de uma interpretação radical. Assim, decorre da natureza da interpretação que se possa postular um padrão intersubjetivo de consistência e um tipo de “correspondência” objetiva a um mundo comumente partilhado entre falante e intérprete.

O princípio de caridade funciona como um princípio transcendental da interpretação. Ao interpretar, o intérprete não pode supor grandes desvios de seus próprios padrões de racionalidade sem destruir os fundamentos da inteligibilidade sobre os quais repousa toda interpretação. Caso contrário, teríamos que considerar a linguagem do outro como uma linguagem completamente incompreensível, uma linguagem privada, ou que seu comportamento não é de forma alguma lingüístico. Dessa forma, Davidson pretende oferecer uma refutação consistente do ceticismo global e do relativismo, postulando ao mesmo tempo uma teoria causal do significado e um conceito de objetividade compatível com uma epistemologia externalista.

O postulado de objetividade do mundo externo resulta da interação social entre duas pessoas em situação de triangulação. Da correlação que cada um faz da reação do outro às circunstâncias externas surge o conceito de objetividade. Não teríamos acesso às atitudes proposicionais dos outros sem interpretar seu comportamento lingüístico e não interpretamos sua linguagem sem efetuar a correlação com a configuração do mundo no momento do proferimento. O que vincula linguagem e mundo de modo necessário é que, em última instância, as condições que nos levam a sustentar nossas crenças e proferimentos constituem ao mesmo tempo as condições de verdade e significado dessas sentenças. Assim, o mundo é tanto mediador entre as mentes, quanto a comunidade de mentes é a base de toda idéia de mundo objetivo: “Intersubjectivity is the root of objectivity, not because what people agree on is necessarily true, but because intersubjectivity depends on interaction with the world”.

Pretendo investigar criticamente a estrutura do argumento davidsoniano de refutação do ceticismo e de prova da objetividade e avaliar sua consistência e alcance sistemáticos, levando em conta as críticas elaboradas recentemente por Colin Magin, B. Stroud e M. Williams.


Jonas Becker
Décio Krause
UFSC
Lógicas e semânticas não clássicas

O século XX assistiu ao surgimento e emancipação das lógicas não-clássicas, caracterizando um fenômeno semelhante ao surgimento das geometrias não-euclidianas, quando estas deixaram de ser apenas uma curiosidade e passaram a ter o mesmo status da geometria de Euclides. No entanto, há um aspecto relativo às lógicas que diferem da clássica que ainda não aderiu completamente à atual pluralidade de sistemas lógicos: trata-se da sua contraparte semântica. Usualmente, a semântica de uma lógica não-clássica L é feita em uma teoria “usual” de conjuntos, fundamentada na lógica clássica, em geral ZF, ou é feita via teoria de valorações. Mesmo a semântica de Kripke para as lógicas modais usuais baseia-se na matemática padrão. Porém, N. C. A. da Costa tem insistido que é adequado procurarmos desenvolver uma semântica para uma lógica não-clássica L que seja condizente com os seus pressupostos básicos, significando que tal semântica deveria ser baseada em uma matemática fundada em L. Assim, por exemplo, sugere ele que para uma lógica paraconsistente, seria adequado fundarmos uma semântica em uma teoria paraconsistente de conjuntos [3]. Como é fácil perceber, uma tal postura exige justificativa filosófica adequada, pois aparentemente, pode-se pensar que, ao se pedir que uma lógica L tenha uma semântica fundada em uma matemática (que em particular pode ser uma teoria de conjuntos) que tenha a própria lógica L como base, estaríamos incorrendo em uma petitio principii. Neste trabalho justificaremos este procedimento e argumentaremos que não há petitio. Na verdade, deve-se perceber que este é justamente o procedimento padrão na lógica clássica: sua semântica é estabelecida em uma teoria de conjuntos fundamentada na lógica clássica. Como motivação para este procedimento referente às lógicas não-clássicas em geral, apresentaremos um exemplo de uma lógica de Schrödinger de 1ª ordem, proposta pelo próprio da Costa [1], e depois generalizada [2], e levantaremos a discussão a partir deste caso particular. Esta lógica é baseada em alguns pontos dos trabalhos de E. Schrödinger a respeito da individualidade de partículas elementares em mecânica quântica. Para ele, o conceito de identidade carece de sentido quando aplicado a essas entidades [2]. Como construir uma semântica para a lógica de Schrödinger na teoria usual de conjuntos se esta pressupõe a identidade usual? Neste sentido, este trabalho dará um primeiro passo na busca para se esclarecer esta questão, e deverá justificar filosoficamente a importância de uma semântica de valorações para a lógica de Schrödinger, e buscará alternativamente uma semântica erigida em uma matemática adequada para se tratar de objetos que gozam das características das partículas elementares [2].

Referências
[1] da Costa, N. C. A., Ensaio sobre os fundamentos da lógica, Hucitec-EdUSP, 1980.
[2] da Costa, N. C. A. and Krause, D., ‘Schrödinger logics’, Studia Lógica 53 (4), 1994, 533-550.
[3] da Costa, N. C. A., Béziau, J. –Y. and Bueno, O., Elementos de teoria paraconsistente de conjuntos, Coleção CLE 23, Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência, Unicamp, 1998.


Sven Bernecker
Manchester
Second-Order Knowledge and Swampman

This paper argues that, given the representational theory of mind, the KK thesis (i.e., the thesis that knowing entails knowing that one knows) is either false or futile. Four readings of the KK thesis are distinguished. In one of them, knowing p entails knowing a priori that one possesses knowledge-states and thus isn’t a propositional zombie or swampman. From an epistemological point of view, this is the most interesting version of the KK thesis, for it figures prominently in the Cartesian argument for external-world skepticism. Since the representational theory of mind denies the possibility of knowing a priori that one isn’t a mindless swampman, it blocks the Cartesian argument for external-world skepticism and renders the KK thesis futile.


Jean-Yves Béziau
Swiss National Science Foundation
The Formal Character of Logic

Logic can be considered as formal in many ways. According to historians, the expression "formal logic" is due to Kant. However logic is formal since Aristotle in the sense that a typical feature of the syllogistic is that the validity of an argument depends on its form and not on its matter or content. And modern logic is still formal in this sense although the characterization of what is the form of reasoning has changed.

In this talk I will discuss the evolution of this notion of logical form, from Aristotle, Kant, Boole, Frege up to the exact mathematical characterization given by J. Los and R. Suszko in the 1950s through the concept of structural consequence operator. I will also discuss some trends challenging the formal character of logic: the quasi-formal logic of Destouches-Février and logics taking in account the notion of meaning like relevant logic.

References
J.-L. Destouches, Cours de logique et philosophie générale, Centre de documentation universitaire, Paris, 1948.
J. Los and R. Suszko, "Remarks on sentential logic", Indagationes Mathematicae, 20 (1958), pp.177-183.
H. Scholz, Abriss der Geschichte der Logik, Karl Alber, Freiburg-München, 1931.


Renato Nunes Bittencourt
UFRJ
A natureza da linguagem na filosofia de Nietzsche e as suas convergências com o nominalismo

Platão pode ser considerado como um dos primeiros filósofos a refletir acerca da natureza da linguagem. Na sua concepção, existiria um vínculo intrínseco entre o objeto existente e o nome pelo qual se intitularia o mesmo, de modo que a linguagem teria a capacidade de representar a essência das coisas. Muito posteriormente, ao longo da Idade Média, ocorreria a célebre “querela dos universais”, embate teórico entre os defensores de diversas perspectivas acerca da natureza das idéias (conceitos) e, por conseguinte, das palavras: realistas (platônicos e aristotélicos), conceitualistas (representados sobretudo por Abelardo, segundo o qual os conceitos ou universais somente existiriam, como idéias, em nosso espírito, não possuindo nada que lhes corresponda na realidade, sendo, portanto, apenas instrumentos utilizados pelo intelecto humano) e nominalistas (representados principalmente por Roscelino e Guilherme de Ockham, de modo que os partidários consideravam que os conceitos seriam meras entidades lingüísticas, termos gerais sem nenhuma realidade correspondente). Esse polêmico conflito de idéias, que não obteve vencedores, de certo modo influenciou as reflexões sobre a linguagem de um dos maiores filósofos do período moderno, Nietzsche. Ao se propor a contestar os grandes temas metafísicos da teoria platônica, tais como a divisão entre o mundo sensível e o mundo inteligível, Nietzsche, obviamente, não deixará de se opor aos fundamentos da perspectiva platônica acerca da linguagem. A crítica de Nietzsche a esta referida concepção consiste na hipótese de que as palavras que constituem o vocabulário cotidiano e a própria estrutura da linguagem não expressa uma essência interna, que subsista por si mesma, independente do próprio ser humano. Pretendendo destruir os alicerces teóricos daquilo que denomina como a “metafísica da gramática”, Nietzsche considera que a linguagem é uma mera convenção humana, desenvolvida para facilitar o domínio do homem gregário sobre a natureza, e que as palavras são apenas títulos, denominações concedidas aos objetos para que se evite a desordem dos discursos, tendência essa que aproxima o filósofo da teoria nominalista da linguagem, conforme visto acima. A perspectiva de Nietzsche, inclusive, será comparada com os textos dos filósofos nominalistas, para que se evidencie essas semelhanças. Nietzsche considera que, se as palavras e todo o aparato da linguagem não expressam de modo algum a essências das coisas, não se poderia conceder à verdade um caráter atemporal, absoluto, mas sim, um estatuto condicionado pelas necessidades humanas e circunstanciais, relativas ao conjunto de valores e idéias que constituem a visão de mundo do grupo dominante que estabelece os códigos lingüísticos. Como superação da teoria do realismo da linguagem na acepção da metafísica platônica, Nietzsche propõe uma espécie de perspectivismo nominalista da linguagem, considerando que, pelo fato dos códigos lingüísticos serem convencionais, não poderia existir discursos ou verdades absolutas, mas somente interpretações. Esta pesquisa, portanto, pretende elucidar as reflexões empreendidas por Nietzsche acerca da natureza da linguagem, demonstrando sua posicionamento crítico perante esta questão e a proposta do perspectivismo como possibilidade de superação do dogmatismo na filosofia.


Juan A. Bonaccini
UFRN
El problema de la identidad personal em el § 16 de la Crítica de la Razón Pura

Es célebre la idea de que la Deducción Trascendental de las Categorías (DTC) ha sido pensada y desarrollada en respuesta a Hume, específicamente para solucionar el problema de la causalidad.1 Sin embargo, casi nadie ha considerado que ella o parte de ella también sea una respuesta a otro problema gravísimo destacado por el escepticismo de Hume, que es el de la identidad personal. Patricia Kitcher (1995, pp.97ss, 108) ha sido una de las pocas personas que sostuvieron que no se entiende bien el énfasis de Kant en los conceptos de síntesis y unidad de la autoconciencia en la Crítica de la razón pura si no se los considera en el marco de una respuesta al capítulo sexto de la sección cuarta del primer libro del Tratado de la naturaleza humana. Más allá de la discusión histórica acerca de si Kant leyó o no el Tratado, parece al menos bastante interesante leer e interpretar algunos pasajes de la Deducción como si estuvieran destinados a la refutación del escepticismo de Hume en lo que respecta a la identidad personal del sujeto. No obstante, una lectura como ésta debería explicar en qué medida ello sería posible, considerando que Kant es un crítico severo de toda pretensión al conocimiento de un sujeto sustancial y personal. Al principio no se entiende como Kant podría defender la identidad del sujeto contra la crítica avasalladora de Hume, ya que él también es un crítico de la identidad personal. Y no solamente en la discusión de los paralogismos de la psicología racional, sino también en el ámbito de la propia DTC (§§ 24-5). Pero esta dificultad puede ser resuelta si se sostiene que estos dos autores no aplican el concepto de identidad del sujeto en el mismo sentido. Y si esta hipótesis es válida, parece que precisar el sentido en que Hume entiende la identidad personal del sujeto es condición para compararlo con el sentido de identidad empleado por Kant en la DTC, así como para determinar si Kant argumenta contra él en el §16. Y para esto, a su vez, parece que no sería inútil definir con claridad hacia quién va dirigido el ataque humeano. En una palabra, si podemos saber lo que Hume critica tenemos cómo decidir si Kant puede aceptarlo o no; y si ciertos pasajes de Kant van dirigidos contra Hume o son más bien a su favor.

En primer lugar hay que recordar que Hume ataca la presunta identidad personal del yo mostrando la imposibilidad de experimentar un yo numéricamente idéntico. Su estrategia, por tanto, parte de la constatación tácita de que la identidad personal presupone la identidad numérica como su condición necesaria. Atacando esta última, entonces, pretende afectar la primera. Y es justamente aquí donde la tesis de Kant puede prosperar. Puesto que si por un lado un término como “identidad personal” parece involucrar algo así como un predicado sustancial, referente a la identidad del yo noumenal (es decir, aquello que define la esencia del sujeto considerado en sí mismo), cuyo conocimiento para Kant nos estaría vedado, por otro lado aún está por verse si la crítica humeana de la identidad numérica es consistente. Al fin de cuentas, preguntaría Kant: ¿será posible negar la identidad numérica del yo sin ya haberla supuesto? Mejor dicho: ¿será que el mero hecho de que su concepto no pueda remitirse directamente a una percepción es suficiente para considerarlo ficticio? Si se puede decir, entonces, que para Hume no hay identidad personal porque la identidad de un sujeto que permanece el mismo a través del tiempo es una ficción, y si se puede decir, además, que no se podría hablar de ninguna identidad personal si la persona no fuera siempre la misma, quizá se pueda decir también que la defensa de un principio trascendental como fundamento de la identidad de la autoconciencia en el §16 sirve a la vez para mostrar que el análisis de Hume es inconsistente (como él mismo parecía reconocer amargamente en el Apéndice al Tratado) y para desvincular por completo el concepto de la identidad numérica del yo de un cierto concepto metafísico de identidad personal de origen cartesiano.

[1] Véanse por ejemplo los trabajos L. W. Beck (1996, pp. 465ss), J. Bennet (1966, pp.100ss, 126ss), R. P. Wolff (1973, pp.24ss, 48-56, 88ss, 154-161), B. Longuenesse (1993, 31ss, pp.412ss), T. Sales Lima (2003, pp.18ss, 102ss, 184ss). Cf. H. Holzhey (1970, pp. 107ss., 121, 144-158), quien relativiza parcialmente la influencia de Hume sobre el pensamiento de Kant mediante una profunda investigación de sus fuentes.


Alcino Bonella
UFU
Fatos, Lógica e Moralidade

Hare defendeu um tipo de formalismo (um tipo de lógica dos conceitos morais) que se pretende, por um lado, totalmente imune a princípios substantivos (como, por exemplo, quaisquer princípios morais de ação para situações humanas precisas), e, por outro, exatamente por causa da mesma imunidade (que para ele é uma neutralidade necessária para a racionalidade ser posta em ação entre pessoas que discordam), dependente, para sua justificação, dos fatos não-morais, que são as propriedades descritivas presentes nas ações humanas em questão. Ou seja, seu formalismo não exclui uma necessária referência aos elementos empíricos contingentes presentes nas ações. O raciocínio moral ordinário expressaria este tipo de lógica, e nela, a “regra de ouro”, bem compreendida e formulada, nos faz pensar de uma maneira utilitarista e kantiana, já que para deliberar assim precisamos levar em conta os interesses de cada ser afetado pela ação a ser tomada, e adotar aquela ação que pode ser querida como universal, ou seja, independentemente do papel que ocupemos como agentes particulares no contexto. Brandt, a despeito de ter defendido também um tipo de utilização direta da lógica e do apelo aos fatos, dois requisitos para a crítica racional do fenômeno moral, e que tornariam possível um tipo de psicologia cognitivista, discorda de Hare quanto ao alcance da fundamentação lingüística e da proposta prescritivista, retornando a um tipo de realismo ético, que encontra em Hume, e não em Kant, seu alicerce principal. Neste trabalho desenvolvo, ainda tentativamente, alguns aspectos essenciais deste confronto entre duas formas utilitaristas contemporâneas de ética.


Maria de Lourdes Borges
UFSC
Sobre desejar e querer

Neste artigo eu pretendo abordar a distinção entre querer e desejar. Tentarei mostrar que existem dois sentidos de desejar. Num primeiro, não há distinção entre desejar e querer, pois desejos são compreendidos num sentido amplo daquilo que leva o agente à ação. Num segundo sentido, há uma distinção entre desejar e querer. Poderíamos desejar algo e após refletir, decidir que não queremos o que desejamos, por considerações morais ou prudenciais. Mostrarei que esses dois sentidos dão origem a duas diferentes teorias causais da ação, uma para a qual causas de ações são desejos e crenças e outra para a qual a causa de ação é uma razão de ação. Por fim, investigarei como essas duas teorias resolvem o problema da fraqueza da vontade.


Rodrigo Martins Borges
PUC-RS
O argumento do regresso da justificação epistêmica e a disputa “internalismo vs. externalismo”

O presente pretende entrelaçar sistematicamente os dois principais sentidos em que justificação epistêmica é exaustivamente trabalhada contemporaneamente pela reflexão filosófica. Por vezes sinônimo de evidência ou de razão, justificação configura-se como um importante desiderato epistêmico na medida em que analisamos filosoficamente de que forma se gera essa propriedade de crenças e de que forma crenças com essa propriedade (a de ser justificada) se relacionam inferencialmente uma com as outras.

Da análise das teorias que oferecem definições diferentes da natureza da geração da crença justificada (e.g. o confiabilismo de Alvin Goldman e o evidencialismo de Richard Feldman e Earl Conne) e das teorias que oferecem definições diferentes da natureza da estruturação da crença justificada (e.g. o coerentismo de Keith Lehrer, o fundacionismo de Roderick Chisholm e o infinitismo de Peter Klein) deve ser possível a elaboração de um critério defensável capaz de sustentar a proposta de uma teoria epistemológica consistente na sua defesa de uma tese que diga respeito à geração da crença justificada e de uma tese que diga respeito à estruturação da mesma.

O critério proposto é o de que o problema do regresso inferencial em um corpo de crenças (quando qualificadamente entendido) seja capaz de decidir por uma correta tese sobre a estruturação da crença justificada e de que isso implica em uma limitação no campo das alternativas possíveis relacionadas à geração da crença justificada.

A forma qualificada de se compreender o problema do regresso apresenta-se através da constatação de que existem pelo menos duas formas de se conceber o problema e de que somente uma destas formas apresenta o problema de forma adequada. Mostrar-se-á que a forma estrutural do problema é a forma adequada de concebê-lo e de que a forma dialética limita erroneamente a possibilidade de escolha entre as diferentes concepções da estrutura de um corpo de crenças justificadas (fundacionismo, coerentismo e infinitismo).

Feito isso, deve-se poder sustentar coerentemente a defesa de uma postura (grosso modo) externalista quanto a geração de crenças justificadas em detrimento de uma postura internalista. Esquematicamente, as premissas que devem sustentar tal conclusão são as seguintes:

O problema do regresso (PR) inferencial em um corpo de crença é epistemologicamente anterior ao problema da geração da justificação (a disputa internalismo vs. externalismo).

Se (PR) é epistemologicamente anterior ao problema da geração da justificação, então solucionar (PR) implicará em uma “tomada de partido”, necessariamente, na disputa internalismo vs. externalismo.

Se, por (1) e (2), uma resposta a (PR) define, ao menos em boa parte, a disputa internalismo vs. externalismo, então a forma com que se elabora (PR) enquanto problema epistemologicamente relevante é capaz de decidir em favor de internalismo ou externalismo.

Existem pelo menos duas formas de se colocar (PR) – a forma estrutural e a forma dialética do problema – e apenas uma delas – a forma estrutural – apresenta (PR) de forma a não favorecer uma das teses estruturais em específico.

Se a forma estrutural é aquela que melhor apresenta (PR), então a teoria que melhor responde a questão da geração da justificação epistêmica é uma teoria externalista.

Para que se obtenha o assentimento às premissas (1), (2), (3), (4) e (5), conceitos como os de anterioridade epistemológica, forma estrutural e forma dialética de (PR) serão definidos ao longo da comunicação. Além disso, considerações mais precisas serão feitas sobre as teorias que disputam as noções de geração e de estruturação da justificação.


Cristina Borgoni
UnB
Dogmas e Externalismo

Um dos momentos cruciais de convergência entre as filosofias de Davidson e Quine, seguramente, ocorre quando ambos renunciam ao que o último chama de “os dois dogmas do empirismo”. Essa concordância, no entanto, parece cessar na medida em que Davidson não pára aí, mas renuncia, ainda, a um possível terceiro dogma.

É nesse contexto, portanto, que apresento o intuito desse ensaio, como o esforço de compreender o que separa rejeitar-se apenas os dois primeiros dogmas de rejeitar-se os três, isso visando, por sua vez, compreender como esses movimentos poderiam ter conseqüências para suas respectivas posições em epistemologia. Podemos perceber que, ainda que relativamente próximos, esses dois filósofos divergem em sentidos bastante significativos quando pensam acerca de conhecimento: se ambos poderiam estar sob a etiqueta do “externalismo” quanto à epistemologia, Quine apresenta nuanças naturalistas que Davidson teria cautela em aceitar. Se, em um primeiro momento, portanto, pretendo estabelecer relações entre esses dois movimentos nesses autores, intenciono obter como resultado final algo que responda à questão acerca da compatibilidade entre um externalismo epistemológico stricto sensu e uma não aderência ao naturalismo em epistemologia.

Uma posição naturalista em epistemologia é a posição que mais normalmente se conhece como a forma de ser externalista, isto é, a forma mais comum de sustentar a tese de que “alguém que conhece, pode não saber que sabe”. Quine indica que um bom motivo para sermos naturalistas epistemológicos viria justamente da denúncia dos mencionados dogmas. Se a rejeição da distinção entre enunciados analíticos e sintéticos pode implicar na tese do holismo confirmacional, parece que temos aí um forte enfraquecimento do antigo empreendimento da epistemologia em detectar um nível de crenças mais básico, que fosse capaz de garantir uma ligação segura entre mente e mundo. Essa parece ser a idéia de que, uma vez constatada nossa impossibilidade de separarmos dados de convenções, teríamos que mudar drasticamente nossas agendas de investigação sobre conhecimento. Algumas dessas mudanças, se nos mantivermos com Quine, poderiam ser as seguintes: I. questões epistemológicas tradicionais deveriam dar lugar à questão de como “de impulsos tão magros – nossos estímulos sensoriais – temos outputs tão caudalosos”; e II. o conhecimento é uma temática, portanto, a ser considerada desde um ponto de vista externalista, e não mais internalista, como também parece vigorar na mentalidade tradicional. Em Quine, (II) parece seguir de (I).

Davidson, no entanto, quando rejeita a distinção entre esquema conceptual e conteúdo mental, parece radicalizar as conseqüências do chamado holismo confirmacional (como explicitado por Quine), no sentido de que não falamos apenas na impossibilidade de separarmos entre dados e convenções, mas falamos na ininteligibilidade de que aqueles mesmos dados possam atuar na esfera conceptual. Davidson (com a adição de alguns outros elementos de sua filosofia) parece indicar que não apenas é possível abrir mão de um empirismo mínimo, como o que Quine ainda gostaria de sustentar, como ainda não precisaríamos afirmar algo como o naturalismo, à medida que quisermos manter um contato entre mente e mundo e quisermos fazê-lo prescindindo de dogmas. Dessa forma, algumas questões da agenda tradicional não são simplesmente deixadas de lado, mas parecem ser dissolvidas, como é o caso do ceticismo. Por outro lado, Davidson defende, sim, um externalismo epistemológico. Porém, parece não fazer por motivos naturalistas. Um certo desconforto, no entanto, pode surgir, quando percebemos que, apesar de Davidson ser capaz de corroborar com a tese de que ”alguém poder saber, sem saber que sabe”, ele parece exigir que pelo menos alguém deva ser capaz de fazê-lo. Isso é claramente uma dose de internalismo, que talvez descaracterize o que alguém externalista stricto senso gostaria de vingar.

É dessa forma que a intenção inicial de compreender o que separava os movimentos de rejeição dos dogmas pode ser reeditada como a intenção de se compreender se o naturalismo e o externalismo têm uma relação tão intrínseca que comprometeria Davidson em se identificar, enquanto um naturalista, ou de abrir mão do seu externalismo em epistemologia.


Celso R. Braida
UFSC
Crítica da semântica inferencial

O objetivo é fazer uma análise das teses centrais das teorias semânticas inferencialistas. A proposta fundante dessas teorias é que o conteúdo semântico, enquanto aquilo que é expresso pelo proferimento de uma sentença, seja compreendido como um elo numa cadeia comunicacional-inferencial. Tal conteúdo seria inteiramente explicitado pelas premissas ou condições e pelas conseqüências de asserção, e a explanação dessas condições e conseqüências esgotaria o conteúdo de uma sentença. As semânticas inferencialistas defendem que uma expressão é significativa enquanto exerce um papel no interior de uma cadeia comunicacional-inferencial e que, por conseguinte, não é necessário recorrer a remissões referenciais. As alegações acerca da ordem de explanação semântica que justificam esta posição podem ser assim agrupadas: (1) prioridade lógico-semântica da proposição sobre os termos, e das sentenças em relação às partes subsentenciais; (2) prioridade da noção de verdade de uma proposição sobre as demais noções semânticas; (3) prioridade das conexões anafórico-substitucionais em relação às referenciais; (4) interpretação substitucional dos quantificadores; e, por conseguinte, (5) dispensabilidade dos modelos ou domínios de referência para a definição das noções lógico-semânticas. A proposta inferencialista cumpre de modo exemplar as exigências metodológicas propostas por E. Tugendhat para uma teoria da linguagem não orientada para objetos. E, além disso, constitui uma forte alternativa justificadora da neutralidade ontológica advogada por A. Tarski para a semântica formal. Pois, nela, a função semântica das expressões referenciais é explanada em termos intralingüísticos sem a pressuposição de algum tipo de remissão a objetos, liberando assim a semântica de comprometimentos ontológicos. Todavia, para realizar isso a explanação inferencialista tem que ser capaz de resolver as propriedades referenciais inteiramente em termos de relações intralingüísticas. O meu objetivo é o de tornar evidente a parcialidade da proposta inferencialista. Para isso vou defender que ela não é capaz, por um lado, de explicitar o inteiro conteúdo semântico de todas as expressões significativas e, por outro, que a proposta inferencialista confunde as noções de objeto dito e objeto real, e também as noção de objeto e entidade real, sendo, portanto, cativa da versão lingüística do princípio da imanência, segundo o qual objetos apenas podem nos ser dados via descrição ou, genericamente, via a intermediação da linguagem.


Adriano Naves de Brito
UNISINOS
Vontade e juízo

Do ponto de vista prático, à universalidade almejada por juízos corresponde a sua validade como obrigação. Se juízos morais – juízos do tipo “x tem de fazer p” – não puderem ser universalizáveis, então obrigações morais serão injustificáveis. Não se poderá dizer com objetividade porque x tem de fazer p. O relativismo moral parte da dúvida sobre a verdade do antecedente e aceita, mesmo que por falta de elementos para decidir o contrário, a sua afirmação. Tem, pois, de se submeter à conclusão do conseqüente, o que, a meu ver, não corresponde ao que se pode observar quanto ao fenômeno moral. Meu ponto neste texto é tratar a questão da validade dos juízos morais desde a constatação de que juízos morais são universalizados e valem como obrigação. O que cabe perguntar não é se, mas como valem eles como tal. Em outros termos, considerando que há de fato juízos morais, que eles levantam uma pretensão não meramente subjetiva de validade e que essa pretensão encontra eco nas ações dos envolvidos no jogo social (e moral) das exigências mútuas, o que se comprova pelo fato de que há, em qualquer grupamento humano, um sistema de normas e regras a constranger as ações dos envolvidos, como explicar a validade dos juízos práticos? O argumento que desenvolvo percorre o seguinte itinerário: primeiro, explicito a afirmação de que juízos morais valem de fato como obrigações e o faço a partir da noção de valor (reconhecer um valor implica em reconhecer, num sentido amplo, uma obrigação); em seguida, mostro que a explicação da validade objetiva de juízos morais não depende de uma cadeia consistentes de juízos de justificação, mas da vontade. Não, contudo, da vontade como preferência. Por fim, mas não menos importante para as pretensões do texto, tento mostrar que esse mesmo elemento volitivo é igualmente relevante para a validade de juízos teóricos, na medida em que afirmar um juízo é fundamental para lhe conferir um valor de verdade. Retomo então algumas intuições de Frege e Russell. Neste ponto, meu objetivo é apontar um eixo comum para a legitimação da pretensão de validade para juízos morais e teóricos. A proposta que faço é que esse eixo é o ato de julgar.


Otávio Bueno
S. Carolina
Davidson and Skepticism: How not to Respond to the Skeptic

In his provocative defense of a coherence theory of truth and knowledge, Donald Davidson insists that (i) we must take the objects of a belief to be the causes of that belief, and hence (ii) most of our beliefs turn out to be veridical. By reflecting on what a belief is, Davidson notes, it becomes clear to an agent that “most of his beliefs are true, and among his beliefs, those most securely held and that cohere with the main body of his beliefs are the most apt to be true” (Davidson [1989], p. 153). Moreover, the agent interprets “sentences held true (which is not to be distinguished from attributing beliefs) according to the events and objects in the outside world that cause the sentence to be held true” (Davidson [1989], p. 150).

As an added bonus, a defiant response to skepticism is then provided. If most of our beliefs turn out to be true, any global skeptical challenge against them is ultimately incoherent. As Davidson points out:

What stands in the way of global skepticism of the senses is, in my view, the fact that we must, in the plainest and methodologically most basic cases, take the objects of a belief to be the causes of that belief. […] Communication begins where causes converge: your utterances means what mine does if belief in its truth is systematically caused by the same events and objects. (Davidson [1989], p. 151)

As a result, if beliefs are tied to the objects that cause them, the skeptic cannot share the same beliefs about the world with the non-skeptic, but insist that such beliefs are mostly false. The idea that most of our beliefs about the world could turn out to be false, despite being caused by corresponding objects and events in the world, is incoherent.

In this paper, I argue that, despite the many attractions that a coherence theory has for epistemology, a response to skepticism is not among them. After distinguishing different forms of skepticism, I indicate that none of them turn out to be affected by Davidson’s strategy. Either the strategy begs the question against a contentious type of knowledge about the world (namely, causal knowledge), or it leaves the door still wide open for those who are not committed to the truth of underlying processes to be skeptical about such processes. After all, even if immediate causal claims regarding sense experience were true, that would still leave the truth-value of many other claims¾say, regarding unobservable processes and events¾undecided. In the end, we may have mostly coherent beliefs, but this is still compatible with skepticism.

References
Davidson, D. [1989]: “A Coherence Theory of Truth and Knowledge”, in Lepore (ed.) [1989], pp. 307-319. (Reprinted, with afterthoughts, in Davidson [2001], pp. 137-157.)
Davidson, D. [2001]: Subjective, Intersubjective, Objective. Oxford: Clarendon Press.
Lepore, E. (ed.) [1989]: Truth and Interpretation: Perspectives on the Philosophy of Donald Davidson. New York: Blackwell.


Júlio César Burdzinski
UNIJUÍ
Inferência e justificação: uma abordagem coerentista

Dentre os problemas centrais postos para a Teoria do Conhecimento contemporânea, destaca-se o da justificabilidade de crenças. Esse problema pode ser situado desde a assim chamada “definição tripartite” do termo “conhecimento proposicional”. De acordo com essa definição, portanto, uma análise do conhecimento nos apresenta o seguinte conjunto de condições necessárias e (supostamente) suficientes: 1) a verdade da proposição que é conhecida; 2) a crença nessa proposição; 3) o fato de que o agente doxástico esteja justificado ao crer na proposição. A caracterização de cada uma dessas condições propõe-nos problemas específicos. O que nos propomos a fazer ao longo deste trabalho é abordar algumas das questões ligadas à terceira das condições acima elencadas: a exigência de justificação epistêmica.

Um dos problemas clássicos que cercam a justificação como condição do conhecimento é encontrado no tradicionalmente chamado “argumento do regresso infinito” ou “argumento do regresso epistêmico”, o qual pode ser assim formulado: dada uma crença x qualquer, a condição para que essa crença possa ser dita justificada é a existência de uma segunda crença, y, desde a qual a primeira possa ser justificada. Se, porém, descartarmos a hipótese de que uma crença não-justificada esteja apta para justificar qualquer outra crença, devemos exigir que essa segunda crença, a crença y, encontre por sua vez justificação numa terceira crença, z. Assim desenhado o quadro da justificação, nos encontramos com três possibilidades lógicas de compreender a sua configuração mais ampla: 1) a cadeia da justificação prossegue infinitamente; 2) a cadeia da justificação se detém numa crença de natureza especial, uma “crença básica”; 3) a cadeia da justificação revela-se circular.

O coerentismo é a teoria da justificação epistêmica que sustenta que a cadeia da justificação pode terminar por revelar-se circular; ou seja, pode ocorrer que, ao regredirmos ao longo da série de inferências, encontremos que uma dada crença, digamos z, que justifica y, a qual então justifica x, seja ela própria justificada por x. O presente trabalho é dirigido à apresentação de um dos problemas básicos com que se depara e ao qual deve responder a posição coerentista na medida em que ela pretenda sustentar-se enquanto uma alternativa epistemologicamente viável: o problema da natureza da justificação.

Queremos aqui trazer à luz do debate uma idéia que o problema do regresso assume como suposto indisputável: trata-se da idéia de que toda justificação estrutura-se, ao fim e ao cabo, de forma linear. Tal como é original e tradicionalmente apresentado, o problema do regresso epistêmico destaca a natureza linear da estrutura da justificação. Em contraposição a essa idéia, apresento a noção de “justificação sistêmica” e tento mostrar em que medida essa concepção da justificação pode ser defendida e qual é a importância dela para a sustentação de uma teoria da justificação epistêmica coerentista.


Gustavo Caponi
UFSC
Uma filosofia da ciência de agenda ampla

A filosofia da ciência pode ser inicialmente entendida como uma tentativa de explicitar os critérios, os princípios, os conceitos e os procedimentos de prova e de obtenção de informação que, a cada momento do desenvolvimento de uma disciplina científica, sem estar eles momentaneamente sujeitos a discussão, possibilitam, orientam, sustentam e, inevitavelmente, limitam, esse desenvolvimento. Contudo, por exigência desse mesmo objetivo, esta disciplina filosófica deve assumir também como objeto de estudo não só a constituição e a evolução conceptual da ciência mas também aspectos que têm que ver com a própria inserção do conhecimento no mundo social e inclusive natural.


Herman Cappelen
Oslo
Metarepresentations: Dual Use and Mention

The paper discusses various theories of how to understand language that is simultaneously used and mentioned (so-called ‘mixed quotation’). I criticize the views presented by Donald Davidson, John Searle, Francois Recanati and others for failing to adequately explain the behaviour of indexicals in mixed quotation. I present a theory that seems to do a better job of explaining these phenomena.


Fernando da Costa Cardoso
UFMG
A noção de superveniência moral em G. E. Moore e em R. M. Hare

A argumentação em torno da superveniência teve vida longa na explicação das relações entre reinos onde é certo que exista interação mas onde não é possível, ou viável ou desejável um tratamento reducionista. Nessa comunicação explorarei o tema da superveniência moral em duas de suas versões: na sua primeira versão, que é a dos filósofos morais não-naturalistas, em especial, G. E. Moore e na versão desenvolvida como base para o prescritivismo de R. M. Hare.

Na proposta de Moore acerca da fundamentação da ética, ou pelo menos na primeira versão presente em Principia Ethica, o campo da moral é radicalmente distinto do campo das coisas (daí a não-naturalidade da ética e toda a questão em torno da falácia naturalista) possuindo, entretanto, com relação a este, uma dependência ontológica fundamental: a existência das propriedades morais não é autônoma no tempo dependendo de um substrato natural, afinal, “as coisas é que são boas”. A tensão derivada dessa noção de uma dependência associada a problemas na própria definição de não-naturalidade encaminham Moore a uma reformulação de sua proposta acerca do relacionamento entre esses âmbitos e à temática da superveniência. Na versão mooreana, a superveniência diz respeito ao valor intrínseco das coisas (“...it is not possible that of two exactly things one should possess it and the other not, or that one should possess it in one degree and the other in a different one”) sendo usada para sustentar uma posição que encontra sua equivalência contemporânea no debate em torno do realismo moral feito por autores como Brink e McDowell.

Em contraponto a essa instauração da superveniência como sustentáculo de algo como um realismo moral, encontramos a teorização de Hare. Em Hare, a argumentação da superveniência é utilizada justamente como refutação da existência de fatos morais através de uma critica aos problemas da versão mooreana do relacionamento entre as propriedades éticas e as naturais. A proposta de Hare é alcançada com uma dupla constatação: (1) de que há uma validade na argumentação mooreana acerca da não-naturalidade da ética e (2) de que essa não-naturalidade não se funda no plano ontológico (não há algo como entidades especiais que respondam pela ética) mas num funcionamento diverso da lógica da moral (os termos morais não são descritivos mas prescritivos, a lógica que os rege deve-se adaptar a essa diferença).

O percurso entre essas duas versões, que levam a visões da fundamentação da ética certamente paradoxais, nos ajudara a delinear uma conclusão sobre os problemas da aplicação desse conceito no campo da moral (inclusive se há mesmo um ou vários conceitos envolvidos sob a alcunha de “superveniência”).


Helder Buenos Aires de Carvalho
UFPI
A Racionalidade Hermenêutica das tradições morais em Alastair MacIntyre

A comunicação visa mostrar a relação teórica entre Alasdair MacIntyre e Hans-Georg Gadamer na forma da tese de que a filosofia moral madura de Alasdair MacIntyre recebeu a influência teórica da hermenêutica filosófica de Hans-Georg Gadamer, mais precisamente, que essa influência se dá na formulação por Mac-Intyre de sua concepção da racionalidade das tradições morais de pesquisa racional. Uma das fontes essenciais para a teoria da racionalidade das tradições de MacIntyre é a hermenêutica filosófica de Gadamer e sua defesa da tradição como locus da racionalidade e da historicidade do homem, suas ações e sua compreensão. A apropriação que MacIntyre faz de Aristóteles e Tomás de Aquino, a ponto de ele se autodeclarar porta-voz de uma tradição aristotélico-tomista, tem uma mediação hermenêutica significativa em Gadamer, sem a qual sua teoria moral perderia boa parte de sua atualidade, de sua inserção histórico-efeitual e de sua capacidade teórica de responder às questões do seu tempo. Essa matriz hermenêutica no interior do corpus filosófico de MacIntyre incorpora elementos teóricos da hermenêutica de Gadamer, mesmo que não transpostos integralmente, como os conceitos de tradição como horizonte da compreensão, história efetual e efetiva (Wirkungsgeschichte), a estrutura dialogal da cognição humana, a dominância das coisas sobre o diálogo e os dialogantes, a noção do círculo hermenêutico, a ontologia da finitude, a dialética da pergunta e da resposta, a fusão de horizontes e a tematização da aplicação. A rigor, MacIntyre não somente se apropria de elementos conceituais da hermenêutica de Gadamer, mas seu próprio procedimento metodológico é hermenêutico, isto é, sua conceituação é sempre permeada pelo enraízamento histórico dos conceitos, pela recuperação dos efeitos da história sobre a compreensão e a formulação dos conceitos morais. A análise filosófica que realiza é sempre um trabalho magistral de não esquecimento da historicidade e da finitude da compreensão humana, de como nossos conceitos estão mediados pela pré-compreensão, cristalizada na(s) tradição(ões) e suas práticas constitutivas nas quais nos situamos e que são nossos necessários pontos de partida. A pesquisa histórico-filosófica é realizada a partir das perguntas do presente, como experiência viva e não como uma ação externa, objetivada; a investigação moral se faz sempre a partir do horizonte de uma tradição, nunca como uma relação do tipo meramente epistemológico, entre um sujeito e um objeto dele separado, como se fosse um experimento. After Virtue é um exemplo desse procedimento hermenêutico de recuperar a história dos conceitos morais, para ver como eles sofreram seus efeitos, as transformações que aconteceram, como as mudanças históricas se articularam com essas transformações. Nessa obra o conceito de virtude é investigado, não como um objeto externo, atemporal, mas articulado à pretensão de compreender nossa própria atualidade histórica. O destino histórico do conceito de virtude na vida moral do Ocidente é também o destino de nossa própria experiência de compreensão da moralidade contemporânea.


Maria Cecília M. de Carvalho
ANPOF
O que pode ainda contar em favor do não-cognitivismo moral?

O presente trabalho é uma tentativa de um ajuste de contas com o não-cognitivismo moral. Uma vez que o não-cognitivismo só pareceria defensável apelando-se para um argumento do tipo inferência para a melhor explicação, buscar-se-á examinar a alegação do não-cognitivismo, segundo a qual esta posição estaria em situação privilegiada e única para dar conta do caráter prático da moralidade. Tal pretensão tem como supostos: a) a idéia, de acordo com a qual considerações morais são intrinsecamente motivantes; b) a idéia humeana de que a crença sozinha, desacompanhada de desejos apropriados, é incapaz de motivar um agente e por conseguinte explicar uma ação intencional; c) a convicção de que se os juízos morais fossem estados mentais puramente cognitivos ou representacionais e expressassem simples crenças acerca de supostos fatos morais, eles não poderiam guiar a conduta, tornando necessário, pois, o recurso a desejos – todavia, nesse caso, não seria possível ir ao encontro da autoridade que comumente associamos às exigências morais, dado que a existência de desejos é um fato contingente. Em suma, o não-cognitivismo procura extrair do pretenso caráter intrinsecamente motivante dos juízos morais e do suposto de que estados representacionais são inertes um argumento para reivindicar que somente uma posição não-cognitivista, que interpreta os juízos morais não como crenças, mas como atitudes não-cognitivas, mais próximas de desejos, aprovações, desaprovações, estaria em condições de explicitar adequadamente a natureza da moralidade. Todavia, tanto o internalismo motivacional como a tese de que crenças morais seriam estados essencialmente inertes, requerem uma análise mais acurada e não se acham ao abrigo de objeções. Neste trabalho pretendo examinar, em caráter tentativo, se o internalismo é inafastável e se a natureza prática da moralidade acarreta a rejeição do realismo.


Oswaldo Chateaubriand
PUC-RJ
Truth and Correspondence


Karla Chediak
UERJ
Evolução do conhecer – análise de alguns argumentos favoráveis à existência de crenças em animais

O nosso objetivo é analisar alguns argumentos a favor da tese que defende a existência de crenças em animais não humanos. O principal ponto envolvido na discussão diz respeito à relação entre crença e linguagem. Alguns filósofos, entre eles Donald Davidson, sustentam que a linguagem proposicional capaz de produzir juízos é condição para haver crenças. Se essa linguagem existe apenas na espécie humana, então, não seria possível atribuir crenças a outras espécies animais.

No entanto, um grande número de estudiosos da evolução acreditam ser improvável que o aparecimento da atividade cognitiva tenha ocorrido de forma única e complexa apenas na evolução da espécie humana. Propõem-se, assim, a separação entre crença e linguagem proposicional, abrindo a possibilidade de se conceber a existência de crenças em outras espécies animais. Nesse caso, crenças seriam entendidas como representações “conceituais”, pois seriam desvinculadas de casos particulares, podendo ser utilizada para distintas e novas experiências. Por isso, não poderiam ser abordadas de forma satisfatória por descrições fisiológicas ou por mecanismos comportamentais, exigindo a introdução de termos utilizados até então para descrever a atividade de pensamento própria da espécie humana.

Propomo-nos a discutir a compreensão do conceito de crença quando dissociado da linguagem proposicional e analisar a pertinência dos critérios, apresentados por Colin Allen, para se atribuir a um animal a posse de certo conceito X. São eles: 1) que o animal tenha a capacidade de discriminar X de não X; 2) que possa captar os erros cometidos no processo de discriminação e 3) que consiga aprender, a partir do exercício dessa capacidade, a realizar melhor sua atividade.


Silvio S. Chibeni
UNICAMP
Locke on the epistemological status of scientific laws

This article seeks to defend Locke against Quine’s charge, made in his famous “two dogmas” paper, that Locke’s theory of knowledge is badly flawed not only for assuming the dogmas, but also for adopting an “intolerably restrictive” version of one of them, the dogma of reductionism. According to Quine, Locke maintained that the empirical reduction of propositions should proceed on a “term-by-term” (or idea-by-idea) basis. Quine deems such a reduction “impossible”, of course, and claims that later empiricists have managed to do without it. Quine recounts the historical process of evolution of empiricism, whereby the vehicle of meaning and empirical contents was first displaced from the term to the proposition, and then from the proposition to whole scientific theories, or even to the whole of science. It is shown here that in his analysis of the epistemological status of scientific laws Locke went far beyond the narrow idea-empiricism with which he began his epistemological theory in the Essay. This was done in three stages. First, in order to escape idealism, he introduced the notion of “sensitive knowledge of particular Existence... of finite beings without us”, which, whatever its exact nature, certainly does not reduce to the “perception of the Agreement or Disagreement of two Ideas” – Locke’s initial definition of knowledge, compatible with Quine’s interpretation. Secondly, after showing in great detail that we can have virtually no a priori knowledge – that is, knowledge resulting from the perception of the agreement or disagreement of ideas – of universal, instructive truths about substances, Locke extended the notion of “sensitive knowledge” to cover particular propositions of “coexistence” in substances. Locke proposes, then, that when such propositions are generalized they must be downgraded to the epistemic category of “probability”. This case covers the important class of scientific propositions now called phenomenological laws. Finally, acknowledging the essential presence of hypothetical, non-phenomenological laws in science, Locke sought to analyse their epistemic credentials. In an original, if brief, analysis of the subject, Locke anticipated much of the contemporary views on the role and nature of scientific hypotheses, including, remarkably, a mild version of the epistemological holism championed by Quine.


Newton da Costa
USP
On Tarski’s Definition of Truth


Otávio Barduzzi Rodrigues da Costa
UNESP – Marília
Auto-consciência e filosofia da linguagem implicações epistemológicas

Considera-se a espécie humana como a única caracterizada pela auto-consciência, ou seja, a consciência de ser consciente. Que fatores evolutivos teriam gerado tal fenômeno? Nesse artigo, discutimos alguns dados e conjecturas da neuro-antropologia cognitiva, que sugerem uma configuração de fatores, deflagrados pela adoção do bipedalismo, desenvolvimento da técnica e emergência da linguagem, na origem do fenômeno da auto-consciência. A filosofia de Donald Davidson e sua forma triangular de conhecimento do ser no mundo, têm profundas implicações epistemológicas para tal fenômeno bem como suas considerações sobre linguagem.

A neuro-antropologia cognitiva é uma ciência que estuda as relações entre alterações corporais e cerebrais, no processo de evolução biológica, tendo como objetivo explicar os processos que engendram aquilo que é considerado (p. ex., por Hegel em sua Filosofia do Espírito) como propriamente humano: a auto-consciência., entendida como a consciência de ser consciente. Um dos tópicos mais interessantes da neuro-antropologia é o estudo da evolução da linguagem humana e suas relações com as atividades corporais e o desenvolvimento cerebral, uma vez que se acredita que a linguagem tenha papel central na emergência da auto-consciência. Além disso, é preciso levar em conta fatores biológicos, como o aparelho neuro-palatal e as aquisições neurais provindas da neotenia; assim como fatores comportamentais, como a adoção do bipedalismo; as relações de socialização então vigentes; o uso da técnica; a destreza na caça e outros.


Alberto Cupani
UFSC
A Ciência como Prática

Em seus livros Conhecimento e Poder (Knowledge and Power, 1987) e Engaging Science (1996), o filósofo norte-americano contemporâneo Joseph Rouse faz objeto da sua reflexão o fenômeno, aparentemente óbvio, da aplicação em grande escala da ciência, da transformação social daí derivada e do entusiasmo com que ela foi aceita. Os filósofos da ciência – argumenta Rouse – não têm percebido que aquele fenômeno induz a revisar a concepção tradicional da ciência como essencialmente teórica, como uma representação do real, e sugere a conveniência de concebê-la antes como uma prática específica. Ao mesmo tempo, a aplicação bem sucedida e crescente da ciência obriga a reconsiderar a noção de poder vinculada ao conhecimento. Com efeito, o poder tem sido visto sempre como um fator extrínseco ao conhecimento, no sentido de que, embora o conhecimento permita o poder ou permita que dele nos libertemos, e o poder possa impedir o distorcer o conhecimento, o poder não pode por si mesmo justificar o conhecimento. Rouse acredita que o poder, enquanto capacidade de domínio, é mais inerente à aquisição do saber científico do que a concepção tradicional supõe.

Esta nova visão da atividade científica exige, naturalmente, uma reconsideração da relação entre teoria e experimento. Apoiando-se em idéias de Kuhn e de Hacking, Rouse frisa que os experimentos criam “fenômenos” (no sentido de regularidades manifestas), que são discerníveis e repetíveis em circunstâncias apropriadas, mediante determinadas tecnologias. Os experimentos são destarte claros (em contraste com a complexidade e confusão da experiência comum) e confiáveis. A experimentação (vale dizer, a tecnologia que a possibilita) permite-nos introduzir uma ordem manifesta cada vez maior no mundo. Vale notar que os experimentos amiúde tomam um rumo próprio, explorando áreas ainda não teoricamente articuladas, o que indica que o experimentador tem sua própria maneira de captar as possibilidades das suas técnicas e aparelhos.

Na concepção de Rouse, a atividade científica é uma forma de develamento prático do mundo. Uma forma específica caracterizada pela intenção de domínio, e que tem sua contrapartida na visão da natureza como objeto inerte, não comunicativo, submetido aos nossos fins. Além do mais, a ciência é política, no sentido de que a sua prática transforma nosso campo de possível ação. Sendo o “mundo” sempre um “campo de atividades”, a ciência muda o mundo. Não apenas o mundo material, considerando que influencia nossos modos de pensar e agir, particularmente definindo o que é “normal”. E a sua influência se faz sentir na configuração das práticas dentro das quais ocorre a política sensu stricto.

Nesta comunicação, que se insere em nosso projeto de pesquisa “Ciência e Controle da Natureza”, apresentaremos e discutiremos os méritos desta concepção da ciência.


Darlei Dall’Agnol
UFSC
Seguir Regras

Inspirado nas observações de Wittgenstein sobre seguir regras (cf. Investigações Filosóficas § 185-242), o presente trabalho pretende apresentar uma análise, no sentido estrito desse termo, das condições sob as quais se pode dizer que um agente segue uma determinada regra. Seguir regras é um comportamento humano de interesse central para a Filosofia Prática (Ética, Filosofia do Direito etc.). De um modo geral, pode-se dizer que A segue uma regra r se e somente se:

i) A compreende r;

ii) r prescreve x;

iii) A faz x.

A partir desse modelo analítico, é possível, em primeiro lugar, estabelecer claramente sob que condições A segue corretamente uma regra ou age contra ela. Por exemplo, se A faz y ao invés de x, então ele agiu contra a regra r. Além disso, se A faz x, mas não compreende r, então ele apenas agiu de acordo com a regra r, mas não a seguiu. Em segundo lugar, esse modelo analítico permite esclarecer algumas questões relacionadas com a interpretação de regras tais como: se é possível seguir uma regra privadamente; se regras são a princípio indeterminadas por permitirem múltiplas interpretações etc., ambas possibilidades aparentemente coibidas pela segunda condição acima apresentada. Esses pontos serão discutidos em detalhe no decorrer do trabalho a partir do modelo analítico aqui defendido.


Ivan Domingues
UFMG
Lévi-Strauss, o estruturalismo e as ciências humanas

LS nunca escondeu sua ambição de refundar a antropologia (ou, antes, a etnologia) nos quadros do estruturalismo, tomando como paradigma a lingüística e como modelo a fonologia. Na minha comunicação pretendo trabalhar alguns parâmetros epistemológicos com vistas a avaliar a visão de ciência do antropólogo francês, tal como encontra-se concretizada em suas obras consagradas ao mito. Entre outros parâmetros assinalam-se a questão dos paradigmas e dos modelos; o tripé da descrição, da explicação e da interpretação; o problema da objetividade e do método nas ciências humanas e na antropologia; o papel das díades, tríades e mediações nos esquemas mentais do autor. Para contornar a dificuldade de trabalhar uma obra sabidamente vasta no plano da análise do mito, onde, além dos quatro volumes das Mitológicas, o estudioso deverá levar em conta a Antropologia estrutural I e II, bem como A oleira ciumenta, outras obras e dezenas de artigos, privilegiarei algumas análises do antropólogo que podem ser consideradas emblemáticas, como o mito de Édipo, a gesta d’Asdiwal e o triângulo culinário, restringindo-lhes porém o foco e diminuindo a abrangência do campo de estudos. O objetivo é elucidar as estratégias seguidas pelo autor, ao propor a abordagem estrutural, em seu esforço de evidenciar o vínculo entre estrutura, sentido e acontecimento nas narrativas míticas, quando o estudioso é convidado a abandonar o plano da narrativa e da função fabuladora em favor do plano do pensamento e da função simbólica, em que o mito aparece como modo do pensamento e se define como fenômeno antes de tudo mental, não propriamente lingüístico, cujo segredo deverá ser decifrado pelas estruturas do córtex e suas bases físicas e químicas.


Cláudia P. Drucker
UFSC
Dostoiévski, ideologia e necessidade

Dostoiévski identificou uma forma de argumentar pseudocientífica que pode ser chamada ideológica. No discurso liberal, socialista, jurídico e psicológico do séc. XIX até hoje existe uma tendência marcante a misturar verdades racionais legítimas (p. ex.: 2 + 2 = 4) com as teses de que se deseja convencer o ouvinte e que são apresentadas como se fossem necessárias (p. ex.: a democracia liberal é o melhor que a humanidade poderá atingir). O cientista dirá, talvez, que não precisa de um literato para lhe contar o que já sabe, e que até hoje têm sido os cientistas quem melhor combateu o uso político ilegítimo da ciência. Mas o escritor percebeu também uma transformação no modo como se define a verdade. Desde o séc. XVIII, a necessidade deixa de ser uma modalidade referida à verdade e passa a ser um conceito deôntico. Verdadeiro é o discurso que expressa o que tem que ser. O que existe em comum à ciência e à ideologia é que ambas falam, com graus de autoridade diferentes, do que não pode se passar de outra forma. O fato de o ideólogo enunciar teses que o cientista não pode considerar aceitáveis não o impede de ter percebido uma situação real. O traço da ciência moderna que a torna sujeita à inveja e à imitação é que ela enfraquece antigas distinções entre conhecer e implementar. O conhecimento já oferece um padrão de normalidade e já nos dá uma norma da ação.

Mais importante, talvez, é que a distinção entre ser e dever ser também perde a nitidez. Esta transformação ainda não foi suficientemente compreendida, como poderia ser mostrado por contraste com uma corrente bastante atual. Para o pragmatismo normativo, a verdade é uma categoria prescritiva porque toda asserção carrega consigo umas tantas outras que deveriam ser verdadeiras, se ela é verdadeira. Quem faz uma asserção se compromete com todas as outras que ela implica diretamente, e se compromete a justificar a fato de ter empregado certos conceitos de acordo com certas regras. Esta visão “inferencial e prescritiva” da verdade, no entanto, não explica como o próprio mundo pode aparecer sob o aspecto da necessidade. O pragmatismo normativo recorre à distinção entre filosofia e psicologismo, ou entre uma abordagem lógica e uma causal, deixando na sombra o fato de o mundo aparecer sob o aspecto do que não poderia ser diferente ou então, como frisa Dostoiévski, sob o aspecto do inadequado e do retificável.


Delamar Dutra
UFSC
O Controle de constitucionalidade como tutor do processo democrático na filosofia do Direito de Habermas

O controle de constitucionalidade, visto concernir primariamente a princípios, se torna um ponto central para a análise da relação problemática entre judiciário e legislativo, pois se oferece, na dicção de Habermas, “como um ponto de referência metódico institucionalmente palpável”, onde “se acumula e se agudiza a problemática da ‘indeterminação do direito’”. Frente a esse panorama, analisa-se como deve ser o controle judicial de constitucionalidade para que não haja infringência à separação de poderes e, conseqüentemente, à democracia. No tratamento de tal problema, Habermas recepciona a crítica de Ely ao paternalismo do CC, bem como a sua defesa de que o CC, para ser consistente com a democracia, deva ter como tarefa a proteção do processo democrático. Imputando a Ely um excessivo ceticismo com relação ao papel desempenhado pelos princípios no direito e a ausência de uma teoria explícita da democracia, Habermas apresenta a formulação discursiva desta como forma de torná-la compatível com o CC. Assim, ele distingue entre um CC que assume o papel de um regente, o qual entra no lugar de um sucessor menor de idade, do papel de um tutor. O texto objetiva exatamente determinar em que consiste esse papel de tutoria do CC que o torna compatível com a democracia.


Luiz Henrique Dutra
UFSC
How Serious is Our Ontological Commitment to Events as Individuals?

This paper aims to discuss and criticize two topics connected with Davidson’s philosophy of psychology, namely the individuation of actions as particular events, and the idea that psychology explains particular actions. As to the first issue, Davidson argues that we are ontologically committed to the existence of events (in addition to physical bodies, for instance) if our talk of certain events such as human actions is literally taken. In this connection, Davidson acquiesces in Quine’s criterion of ontological commitment. Now both Davidson’s and Quine’s views are based on a certain holistic doctrine according to which our talk of something is to be construed in connection with the totality of our beliefs and language use. It will be argued that from a holistic viewpoint a term must not necessarily be interpreted as referring to an entity. In ordinary speech, for instance, we use a number of general terms just to provide rough descriptions of parts of the world. Thus, our talk about actions does not necessarily lead us to be committed to the existence of events as individuals. On the other hand, ontological commitment may be unavoidable against the background furnished by a detailed worked-out (scientific) theory. For instance, it is the existence of a psychological theory dealing with human action that provides the conceptual conditions under which our talk of actions could lead us to be committed to the existence of the related entities, namely human actions. However, in this case, just like in physics, the scientific description of an entity by the theory is the description of a type, not of individuals. Consequently, and contrary to what is argued for by Davidson, psychology deals with general events. It has been repeatedly maintained by many philosophers of psychology that such a detailed worked-out psychological theory is not still available. For the time being, however, philosophical theories and certain institutionalized talks of human action (for instance, in politics and law) may be taken as suitable frameworks for describing human action in general terms provided that human action is described in connection with institutions and social contexts belonging to a certain social system.


Jaqueline Engelmann
PUC-RJ
Elementos de uma teoria da definição

Há um elemento essencial da atividade filosófica que não é de importância menor à prática matemática: a definição dos termos relativos a cada um destes ramos do conhecimento. Definir adequadamente é uma atitude necessária e, além disto, primordial tanto para o progresso da matemática quanto para o avanço da discussão filosófica.

Há quem pensava ser isto impossível. Kant, por exemplo, na Crítica da Razão Pura, declarou que os conceitos filosóficos jamais poderiam ser definidos. Em relação a eles é possível esperar apenas uma explicação ou declaração. Pode-se falar, ainda, de uma exposição – obtida analiticamente – de conceitos filosóficos. Apenas a matemática é capaz de definir seus conceitos, segundo Kant. Isto porque a matemática opera por síntese arbitrária e, assim, seus conceitos são construídos.

Já podem ser destacadas, até aqui, pelo menos duas noções fundamentais: a análise e a síntese enquanto procedimentos de formação conceitual.

Não menos importante será discutir as regras que devem ser obedecidas para que genuínas definições possam ser estabelecidas. Aristóteles, por exemplo, instaurou quatro normas. A primeira delas é que as definições devem fornecer a essência daquilo que se quer definir. Depois, definições não podem ser circulares. Além disto, não devem ser negativas quando podem ser positivas e, por fim, não devem ser apresentadas em linguagem obscura ou metafórica.

Frege, por sua vez, estabeleceu dois princípios aos quais toda definição deve obedecer: o princípio de completude e o princípio de simplicidade. Talvez Aristóteles não negasse nenhum deles. Mas a pergunta fundamental aqui é: “a contrapartida pode ser considerada válida, ou seja, os preceitos aristotélicos seriam, todos, aceitos por Frege?”. Uma questão a ser considerada é se, contemporaneamente, se pode falar de essências. A definição de Frege do número 0 (zero), por exemplo, “número que convém ao conceito ‘diferente de si próprio’” expressaria, de algum modo, a essência do objeto matemático “0”?

Outra questão a ser debatida – que é enfatizada tanto por Aristóteles quanto por Frege – é o papel que as definições desempenham no processo demonstrativo. As definições são vistas como princípios da demonstração, portanto, ao matemático não está aberta a possibilidade de obter demonstrações caso ele não se detenha, antes de tudo, na obtenção de adequadas definições. Aliás, este é um dos propósitos centrais dos Fundamentos da Aritmética de Frege.

A relação entre definição e demonstração é largamente discutida nos Segundos Analíticos de Aristóteles. E esta parte do Organon aristotélico servirá como guia principal desta exposição.

Deste modo, esta exposição dividir-se-á em três seções: na primeira enseja-se debater as normas que toda definição deve seguir para poder ser estabelecida seja na matemática seja nas ciências naturais ou ainda, para aqueles que acreditam ser isto possível, na filosofia. Na segunda seção pretende-se destacar a relação entre definição e demonstração. A terceira seção apresentará um exame das noções de analiticidade e sinteticidade contrapondo, principalmente, o ponto de vista de Frege ao de Kant. A partir de um exame de tais noções busca-se alcançar uma clarificação em relação ao próprio ato de definir.


Hércules de Araujo Feitosa
UNESP-Baurui
Maria Claudia Cabrini Grácio
UNESP-Marília
Uma versão algébrico-proposicional para a lógica do plausível

A lógica do plausível é uma extensão da lógica de primeira ordem L, obtida pela inclusão de um quantificador generalizado z, a qual é denotada por L(P).

Os axiomas de L(P) são todos os axiomas de L, acrescidos dos axiomas da identidade, e dos seguintes axiomas para o quantificador do plausível:

(Ax1) (zxj(x) Ù zxy(x)) ® zx(j(x) Ù y(x))

(Ax2) (zxj(x) Ù zxy(x)) ® zx(j(x) Ú y(x))

(Ax3) "xj(x) ® zxj(x)

(Ax4) zxj(x) ® $xj(x)

(Ax5) ("x)(j(x) « y(x)) ® (zxj(x) « zxy(x))

(Ax6) zxj(x) ® zyj(y) , quando y é livre para x em j(x).

Informalmente, sejam A o universo e j uma fórmula. A sentença zxj(x) tem a intenção de formalizar a seguinte expressão “uma ‘boa’ parte dos indivíduos de A admitem a propriedade j

As regras de dedução do sistema L(P) são as seguintes:

Como estamos interessados na formalização de proposições indutivas do tipo “para uma ‘boa’ parte de x, j(x)” e que, sob muitos aspectos, os conceitos de espaços topológicos e conjunto de proposições plausíveis se assemelham, propomos trabalhar com a noção de pseudo-topologia, uma versão modificada da definição de topologia.

Um espaço pseudo-topológico (E, W) é um par em que E é um conjunto não vazio e W é uma família de subconjuntos do conjunto E, denominados p-abertos de W, que satisfazem as seguintes condições:

(i) a interseção de dois p-abertos é um p-aberto

(ii) a união de dois p-abertos é um p-aberto

(iii) E é um p-aberto

(iv) Æ não é um p-aberto.

Um subconjunto de E é um p-fechado se o seu complementar é um p-aberto.

A semântica associada às fórmulas em L(P) é definida do seguinte modo. Seja A uma estrutura clássica de primeira ordem com domínio A. Uma estrutura pseudo-topológica AW para L(P) consiste da estrutura usual A acrescida de uma pseudo-topologia (A, W).

A interpretação dos símbolos relacionais, funcionais e de constantes individuais é a mesma de L em A.

A satisfação das fórmulas de L(P), numa estrutura AW, é definida, recursivamente, de modo usual, acrescentando a cláusula seguinte: sejam j uma fórmula cujo conjunto de variáveis livres esteja contido em {x} È {y1,..., yn} e ā uma seqüência ā = (a1,..., an) em A. Assim:

AW (zx)j[x, ā] Û {b Î A / AWj [b, ā] Î W.

A lógica do plausível foi originalmente introduzida numa versão de lógica estendida, para a qual mostrou-se que as estruturas pseudo-topológicas são modelos adequados.

Este trabalho tem por objetivo apresentar uma versão proposicional da lógica do plausível, mantendo-se a estrutura matemática das pseudo-topologias. A adequação desta versão é justificada por meio de semânticas algébricas.


Charles Feldhaus
UFSC
O debate entre Habermas e Dworkin acerca da eugenia liberal

O presente trabalho pretende apresentar e confrontar as posições de Jürgen Habermas e Ronald Dworkin acerca da moralidade ou imoralidade do uso do diagnóstico genético de pré-implantação (DGPI) e da terapia gênica. Ambos concordam que as disponibilidades destas técnicas afetam a fronteira entre acaso e decisão, ou seja, aquilo que era naturalmente indisponível torna-se agora disponível a intervenção humana. A espécie humana está diante da possibilidade, ao menos em hipótese ou no imaginário, de controlar sua própria evolução genética. Ambos os filósofos também concordam que a modificação desse limite afeta a estrutura geral de nossa experiência moral, e, esta coloca em xeque as suposições básicas sobre valores que orientam nossa moralidade convencional. Porém, para Dworkin isso não parece apresentar-se como um problema grave, pois apenas denunciaria que as nossas suposições valorativas convencionais precisam ser modificadas, pois mudanças nestas suposições teriam acontecido já anteriormente. Dworkin discute a questão da biotecnociência a luz de sua teoria liberal baseada em ideais éticos humanistas centrado principalmente em dois princípios: primeiro, que qualquer vida humana depois de iniciada seja bem sucedida e não falhe; segundo, o direito individual de tomar decisões acerca do que consiste uma vida bem sucedida, conseqüentemente, o governo deve deixar estas decisões aos indivíduos. Habermas, por sua vez, critica a posição liberal e a eugenia positiva que parece acarretar. Habermas defende que a biotecnologia moderna ou biotecnociência pode trazer conseqüências desastrosas a autocompreensão ética da espécie, inclusive tornar impossível à pessoa geneticamente programada entender-se como uma pessoa autônoma e nascida sobre as mesmas condições. Dworkin também pensa que estas intervenções afetam a compreensão da responsabilidade tal como entendida hoje, porém não tira as mesmas conclusões que o filósofo de Frankfurt. Habermas chega a defender que o design genético introduzido no genoma do indivíduo pode afetar significativamente o projeto de vida dessa pessoa potencial de modo irreversível. Enfim, Dworkin parece não encontrar razões muito fortes que possam limitar a pesquisa na área da biotecnologia moderna de continuar, e, até mesmo, considera um desrespeito à liberdade de livre decisão, o Estado intrometer-se em questões acerca do que seria uma vida bem sucedida, portanto, cabe aos pais decidir acerca do design genético de seu filho. Habermas, por outro, lado entende a atitude dos pais diante do filho potencial geneticamente programa como um tipo de instrumentalização e auto-otimização da vida humana. Por isso, o presente estudo pretende comparar as suposições normativas das duas posições buscando um melhor entendimento da questão em discussão.


Sonia T. Felipe
UFSC
Implicações da atribuição de direitos morais e constitucionais a não-iguais

Pretendo analisar as teses dos filósofos morais Tom Regan, Peter Singer, Steven M. Wise e Gary Francione, indicadoras do requisito para se ter direitos, os conceitos de igualdade, autonomia, interesses, as questões dos sujeitos não-paradigmáticos e, principalmente, do critério delineador da comunidade moral, além das implicações, para os sujeitos morais, relativas a direitos e deveres, tanto em relação aos iguais, quanto aos não-iguais. Ao tratar dessa última questão, analiso os limites do contratualismo e o alcance do utilitarismo preferencial, no atendimento de expectativas morais.


Rodrigo P. Fernandes
UFSC
Sete regras de inferência para as quatro causas aristotélicas

As famosas quatro causas de Aristóteles1 têm sido contemporaneamente utilizadas como instrumentos para a análise de fenômenos lingüísticos, próprios do caráter pragmático das linguagens naturais: como a indeterminação semântica, a metonímia e a ana/catáfora. Além de servirem como elemento principal na estruturação do chamado Léxico Gerativo (Pustejovsky: 1995), no âmbito de um léxico estruturado. Ou seja, um léxico que não seja apenas uma relação ou lista de itens, mas que seja incrementado com uma certa composicionalidade entre seus elementos. Ainda cabe frisar a intensa utilização do citado aparato conceitual aristotélico, como o coração dos esquemas explicativos (Moravcsik: 1990) para fins de sugestão acerca do entendimento das habilidades cognoscentes humanas. Se já não bastassem estas pesquisas para a configuração da meteórica renascença destes conceitos da metafísica do estagirita, estes também têm sido implementados na tecnologia do processamento automático das linguagens naturais. Aparecem, mais ou menos explicitamente, como relações entre os conjuntos de sinônimos de bancos de dados lexicais como o WordNet de Princenton, o Word-Net de Portugal (Marrafa: 2000) e outros. Cabe também citar que a Universal Networking Language (UNL), desenvolvida pela Universidade das Nações Unidas, utiliza-se, entre outras relações, daquelas quatro previstas por Aristóteles (da Luz: 2002) Este trabalho apresenta sete regras de inferência subjacentes às quatro causas Aristotélicas, que não foram totalmente percebidas nem pelo filósofo grego, nem têm sido mais do que apenas delineadas pela literatura contemporânea (Copestake: 1996), (Mendes: 2001), com a qual até agora tenhamos entrado em contato. Estas regras sintetizam o nexo entre as quatro causas aristotélicas de um conceito a, e as quatro causas aristotélicas de outro conceito, b, se e somente se a e b estão, por sua vez, relacionados mediata ou imediatamente por uma destas causas. Estas regras têm por fundamento principal o isomorfismo entre os hiperônimos, ou, para usar o termo aristotélico, o isomorfismo na cadeia formal. Tal que a possui pelo menos as mesmas características da causa formal de a, mas não apenas estas. Assim, se todo ser vivo, como um protozoário, por exemplo, é composto, entre outras partes, por água. Então a intuição de sujeitos cognoscentes e o modelo aristotélico nos leva a concluir que, se um outro ser vivo, mais especificado como o vertebrado, digamos, homem, está numa relação entre o primeiro grupo tal que aquele é a causa formal deste, então este será composto, entre outras coisas (ossos, pele, etc), também por água. O interessante é que a herança de características que um conceito recebe de seu conceito formal, não se restringe à causa material ou constitutiva, mas se aplica às demais causas ao redor do eixo formal: as causas eficiente e final. Este pensamento nos leva às três primeiras regras abaixo:

(R1) A causa material da causa formal de a é causa formal da causa material de a.

(R2) A causa eficiente da causa formal de a é causa formal da causa eficiente de a.

(R3) A causa final da causa formal de a é causa formal da causa final de a.

As demais regras são:

(R4) Parte da causa material da causa final de a é causa material de a.

(R5) Parte da causa eficiente da causa final de a é causa eficiente de a.

(R6) Parte da causa final da causa material de a é a.

(R7) Parte da causa final da causa eficiente de a é a.

Todas estas regras são acessíveis à intuição do falante das linguagens naturais, assim como também é acessível à intuição o princípio do terceiro excluído, salvo inevitáveis controvérsias.

Referências Bibliográficas

COPESTAKE, A. e T. Briscoe (1996). Semy-productive polysemy and sense extension, in Lexical Semantics: the Problem of Polysemy (ed. Pustejovsky e B. Bogouraev). Claredon Press, Oxford.
da LUZ, Rodolfo Pinto (2003). Sistema UNL: uma solução para tradução automática e sistemas de conheciemnto. SENAI/CTAI, Florianópolis.
MARRAFA, P. (2001). WordNet do Português: uma base de dados de conhecimento lingüístico, Instituto Camões. [sl].
MENDES, S. and R. Chaves (2001). Enriching WordNet with Qualia Information, Proc. Of WordNet and other Lexical Resources: Applications, Extensions and Customizations, NAACL 2001 Workshop, Pittsburg.
MORAVCSIK, J. M. (1990). Thought and Language, Routledge, London.
PUSTEJOVSKY, J. (1995). The Generative Lexicon. Cambridge. MIT Press.

[1] Há diversas traduções de Aristóteles, inclusive para o português. Para o presente trabalho foram utilizados livros constantes da Metafísica, do Órganon e da Física.


Dagfinn Føllesdal
Oslo
Davidson and Quine on Perception and Meaning


José Sergio Duarte da Fonseca
UFRJ
Macintyre, bilogia, metafísica e o conceito de pessoa

Em Animais racionais dependentes, MacIntyre considera que sua abordagem do problema das virtudes em Após a virtude comete o erro de não levar em conta, através do que ele chama de “biologia metafísica”, do problema de como descrever nosso desenvolvimento, desde nossa condição inicial de animais até a condição propriamente humana de seres racionais independentes. MacIntyre passa a reconhecer, no período que compreende os dois textos, a necessidade de produzir uma teoria satisfatória (empírica ou metafísica) da constituição da pessoalidade e dos critérios de identidade pessoal derivados desse processo de constituição. Em outras palavras, para dar conta da introdução de novos indivíduos na comunidade, é necessário que se introduza uma teoria da constituição e de terceira pessoa na abordagem “hermenêutica” e de primeira pessoa, tal como é encontrada em Após a virtude. Apesar de o narrativismo ser uma teoria holista ou hermenêutica da identidade pessoal, ele, no entanto, para ser uma descrição completa do self, não pode dispensar uma teoria da constituição, nos moldes metafísicos que são característicos, p. ex., do modelo neo-lockeano da identidade pessoal. (É claro que as relações de constituição não são, como no neo-lockeanismo, apenas relações psicológicas, mas também relações sociais, expressas em narrativas comunitariamente compartilhadas.)

A contribuição dada pela discussão sobre o processo de florescimento humano em Animais racionais dependentes para o esclarecimento do problema da construção de uma teoria não-lockeana da constituição do self não vai além, em relação àquela dada em Após a virtude, do que a tentativa de explicitação das condições iniciais necessárias para a pessoalidade. Essas condições iniciais são, na fase pré-linguística de nosso desenvolvimento, aquilo que MacIntyre chamou de condições animais iniciais, juntamente com as disposições para a ação, e, na fase lingüística, a capacidade auto-reflexiva, representada pelo aspecto psicológico da identidade humana.

Pretendo mostrar que isso não pode ser uma teoria satisfatória da constituição da identidade pessoal, a qual podemos definir, do ponto de vista formal, como a conjunção dessas condições iniciais, que consistiriam nos requisitos da presença de um corpo humano dotado da capacidade auto-reflexiva (possível apenas na fase lingüística de seu desenvolvimento) e de um self narrativo, tal como ele é descrito em Após a Virtude, que seria constituído a partir de uma modificação dessa capacidade reflexiva, gerando assim a capacidade narrativa, a partir da qual um autor narra a sua própria vida através da constituição de um personagem real. Minha crítica é a de que esta teoria não é capaz de descrever adequadamente a modificação da capacidade reflexiva, devido ao fato de que o modelo de MacIntyre pressupõe uma interdependência estrita entre pensamentos auto-conscientes e auto-referência lingüística, interdependência essa que mostrarei, na esteira de autores como Manfred Frank e José Bermúdez, ser problemática.


Marco Antônio Franciotti
UFSC
A Pulsão de Morte e a Metafísica

Ao introduzir a idéia de uma pulsão de morte em oposição à pulsão sexual (de vida), Freud procurou inicialmente acomodar em sua metapsicologia a descoberta clínica de uma compulsão à repetição de eventos traumáticos, que parece conflitar com a pulsão da busca pelo princípio do prazer. Procurarei mostrar que, apesar das resistências que ela originou dentro mesmo do círculo psicanalítico em geral, essa inovação conceitual de Freud permite-nos explicar a tendência do ser humano de elaborar sistemas metafísicos. A busca pela eliminação da tensão entre as forças da mente através do retorno a um estado de quietude remete-nos a um mundo independente da consciência e ipso facto opaco à representação, que em muito se assemelha ao mundo numênico kantiano.


Renan Springer de Freitas
UFMG
Hermenêutica em Ação: O caso da auto-denominada ‘Antropologia Interpretativa’

Em seu consagrado livro A Interpretação das Culturas, Clifford Geertz propõe que as culturas devem ser interpretadas como se fossem textos. Esta proposta resulta de sua desilusão com a ciência tal como usualmente a concebemos, isto é, como um esforço no sentido de explicar fenômenos subordinando-os a leis gerais. Para Geertz, leis gerais nos ajudam a entender o movimento dos planetas, ou a queda dos corpos, mas nada nos dizem sobre culturas. Elas não nos ajudam a entender, por exemplo, por que os balineses queimam viúvas e os Ilongot caçam cabeças, ou, ainda, por que os Zande acreditam em bruxaria. De acordo com Geertz, cultura é a “teia de significados que o homem teceu”, e esta “teia” tem uma “superfície enigmática” à qual devemos ter algum acesso. Nessa perspectiva, fenômenos como a queima de viúvas ou a caça de cabeças constituem uma parte da “superfície enigmática” das “teias de significados” que os balineses e os Ilongot “teceram”. Devemos, então, nos empenhar em tornar tais fenômenos menos enigmáticos ou menos bizarros aos olhos de um ocidental. Para tanto, devemos associá-los a experiências que nos são familiares. Para mostrar a que vem seu projeto hermenêutico, Geertz debruça-se sobre dois “enigmas”, a prisão de Cohen, uma inocente vítima de um roubo em Marrocos, e a enorme popularidade da briga de galos em Bali. Geertz oferece como solução para o primeiro “enigma” a tese da “farsa social” e, para o segundo, a tese da “educação sentimental”. Argumenta-se que não há nada de especial em relação a essas teses que justifique a necessidade de uma “ciência interpretativa”; que ambas podem perfeitamente ser postuladas à margem do projeto hermenêutico defendido por Geertz.


Michel Ghins
Louvain
Laws, theories and models: realism without representation

According to most defenders of the model-theoretic approach of scientific theories (Giere, van Fraassen), models are possible partial representations of some portions of external reality. However, it can be shown that this view is an oversimplification. If a representation must have something in common with the reality it may represent, laws and theories can hardly be called representations. Yet, I want to argue, laws and theories are an essential part of scientific models. Models typically include laws, which are schemes for constructing propositions; and propositions, although they may correspond to some reality, do not represent. This is not to deny that some models may have representational ingredients (for example, the harmonic oscillator or the double-helix model of DNA).

This paper is devoted to an analysis of the various components of a scientific model (laws, theories and representational ingredients) in order to determine which of those components can genuinely represent and in what sense.


Evandro Carlos Godoy
UFRGS
Tarski e a generalidade da lógica

Pelo menos desde Kant, o caráter geral – entendido como aplicabilidade normativa sobre todos os domínios do pensamento – tem marcado presença fundamental na delimitação da lógica. Uma possível exceção seria a proposta de Tarski para caracterização das noções lógicas, apresentada na conferência: What are logical notions?, que adota o critério de invariância sob permutação. Nosso propósito será o de considerar a possibilidade de que a adoção deste critério pressupõe a generalidade da lógica. Para tanto pretendemos, primeiro, mostrar a caracterização da lógica na visão de Kant e de Frege, autores que defenderam a generalidade; segundo, reconstruir brevemente a proposta de Tarski e mostrar como a generalidade aparece pressuposta nela.

1. Para Kant a característica essencial da lógica é a vigência normativa sobre todos os domínios do pensamento. Na CRP ele divide as leis para o uso do entendimento em geral, em necessárias e contingentes, e atribui à lógica a tarefa de tratar das primeiras. As necessárias são aquelas leis das quais o pensamento não pode prescindir, as contingentes são as que regulam os diversos usos conceituais particulares, característicos das diversas ciências.

Na concepção de Frege a generalidade também aparece centralmente na caracterização da lógica. Nos Fundamentos, ele assume explicitamente que considera a lógica como geral, ao advogar em defesa do caráter lógico da aritmética, argumentando que estas verdades governam o domínio do enumerável e que tudo o que pode ser pensado pode ser enumerado. Nas Leis básicas (1893) e mais tarde em O pensamento (1918), Frege precisa a generalidade da lógica, chamando atenção para a ambigüidade da palavra “lei”, que pode ter tanto um sentido descritivo como um sentido normativo. Para ele, somente neste último sentido as leis lógicas podem ser chamadas de leis do pensamento. As leis lógicas descrevam o reino atemporal dos pensamentos e assumem um caráter prescritivo para nossa atividade de pensar. A elas cabe o mesmo status que às leis da física: são descritivas, mas prescrevem que devemos pensar de acordo com elas; as leis lógicas são apenas mais gerais.

2. Tarski, por sua vez, começa pela apreciação do método de Felix Klein para caracterizar as noções pertencentes às diversas geometrias e argumenta em favor da ampliação deste método para a caracterização das noções lógicas. Ele mostra como é possível distinguir as diferentes geometrias por meio deste critério: as noções que pertencem à geometria euclidiana são aquelas que são invariantes sob o grupo de todas as possíveis transformações de semelhança; ampliando a classe de transformações permitidas, obtemos as noções que caracterizam a geometria afim; e as noções invariantes sob a classe de transformações mais ampla, as transformações contínuas, caracterizam a topologia. Por fim, Tarski propõe que as noções que são invariantes sob todas as transformações possíveis do mundo sobre si mesmo são as noções lógicas. Como a passagem do domínio dos pontos no plano (essencialmente geométrico) para o mundo (a totalidade dos objetos existentes) é possível, não fica claro na conferência. Nossa sugestão é que a extensão deste método para a lógica pressupõe que ela seja geral.


Nélson G. Gomes
UnB
O Diálogo Deôntico Clássico

Ao longo das últimas décadas, a tese de que as normas são constituídas por meio do diálogo vem sendo formulada de diversas maneiras. No contexto desse tipo de tendência, a lógica dialógica torna-se particularmente atraente, sobretudo na sua versão dos anos 1960, quando a Escola de Erlangen pretendia mostrar que a lógica seria um momento da atividade lingüístico-dialogal. Se as normas e a lógica constituem-se dialogicamente, parece que a lógica dialógica seria o sistema mais adequado para discursos normativos como a ética e o direito.

Propostas de sistemas dialógicos deônticos não-clássicos já existem, mas elas estão sujeitas a uma série de dificuldades. No trabalho aqui delineado, serão apresentados rudimentos de um sistema lógico-dialógico clássico. Em seguida, será discutida a eventual adequação desse tipo de sistema em termos das noções de obrigação, permissão e proibição. A questão central é a seguinte: até que ponto um sistema clássico tem condições de capturar noções intuitivas que nós relacionamos àquelas noções? Num tal sistema, deve valer o Princípio do Terceiro Excluído. Ora, este é criticado pelos intuicionistas por pressupor a existência de um mundo dado, completo, frente ao qual um enunciado será verdadeiro ou falso. Porém, se o universo das normas está em contínuo processo de construção, será razoável aplicar-lhe o mencionado princípio?

Um cálculo lógico pode ter propriedades que apresentem interesse formal, mas isso não implica relevância filosófica. No caso específico de discursos normativos, um sistema que se candidate a servir de instrumento de argumentação deve estar em condições de mostrar que captura as respectivas noções intuitivas básicas, provando teses que contenham princípios elementares típicos da área. O sistema a ser analisado no texto ora resumido cinge-se a desenvolvimentos clássicos simples, mas já é suficiente para possibilitar uma primeira discussão sobre viabilidade e relevância do seu eventual uso como instrumento de discursos normativos. Isso poderá ajudar a esclarecer o pressuposto de que lógicas dialógicas seriam particularmente adequadas para a formulação de raciocínios éticos e jurídicos.


Dirk Greimann
UFSM
Davidson and Quine on Semantic Empiricism

Quine famously argued that reductive empiricism, which is the view that all theoretical sentences may be translated into observational ones, must be abandoned. Nevertheless, he accepted a kind of “enlightened” empiricism which consists mainly of two doctrines: One is the epistemological doctrine that whatever evidence there is for science is sensory evidence. The other is the semantic doctrine that all inculcation of meanings of words must rest ultimately on sensory evidence. The point of the latter doctrine, which may be called semantic empiricism, is that meaning is completely determined by sensory impressions or some similar form of subjective evidence.

In his article “Meaning, Truth and Evidence” (in: R. B. Barrett and R. F. Gibson (eds.), Perspectives on Quine, Oxford, Blackwell, 1990, p. 68-79), Davidson tried to show that semantic empiricism is untenable because it allows for a radical kind of skepticism. The argument is that if meaning were determined completely by sensory impressions, the linguist could correctly interpret the sentences of a speaker and at the same time attribute massive error to him. In over to overcome this difficulty, Davidson proposes to exchange Quine’s “proximal view” of meaning by his own “distal view”. According to the proximal view, the facts of semantics are limited to the correlation of sentences with sensory impressions, while, on the distal view, these facts involve also the correlation of objective objects and situations with sentences.

The purpose of this paper is to show, first, that Davidson’s criticism is not sound because semantic empiricism does not imply skepticism, and, second, that nonetheless semantic empiricism is untenable and must be substituted by Davidson’s distal view because it leads to an unacceptable loss of expressive power. If meaning would be constituted completely by the correlation of sentences with sensory impressions, it would not be possible to formulate any non-trivial scientific theory.

The paper consists of three parts. The first is dedicated to the task of explaining Quine’s brand of semantic empiricism. This brand is characterized by Quine’s behaviorist approach according to which linguistic meaning is a property of linguistic behavior. In part 2, Davidson’s criticism of semantic empiricism is discussed. It is argued that, given the empiricist conception of meaning, even in the brain-in-a-vat-scenario the truth-conditions of the sentences affirmed by normal speakers are satisfied. Finally, in part 3, semantic empiricism is criticized on the ground that it leads to a dramatic loss of expressive power. The basis of this criticism is a “principle of semantic commitment” saying that an overall theory of the world is committed to accept those semantic structures which must be presupposed in order to formulate the theory. If, for instance, an overall theory wants to speak about objective objects, it is committed to accept the existence of semantic structures correlating sentences with objective objects. Since semantic empiricism limits the facts of semantics to the correlation of sentences with sensory impressions, it rules out the possibility to speaking about such objects.


Nicholas Griffin
McMaster
Rethinking Item Theory

While there is no doubt that item theory has much to commend it, it remains entangled in very serious difficulties. The chief of these arise from the clash between the two central Meinongian principles of (absolutely unrestricted) freedom of assumption and (absolutely unrestricted) characterization. Roughly speaking, the former allows us to think of absolutely anything, and the latter ascribes to what we think of watever properties we think of it as having. Clearly, this won’t do. Most of the standard objections to item theory, from Russell onwards, have been special cases of this. In the course of the development of the theory, various piecemeal responses have been made to particular forms of the problem. These, I argue, leave much to be desired. The fact that the problems arise from the two central principles of the theory suggests that a more radical restructuring of the theory is required. In the final section, I sketch the beginnings of an alternative which looks promising and which, while remaining clearly in the item theoretic tradition, involves substantial changes to forms of item theory so far presented.


Humberto Guido
UFU
A definição de linguagem na Scienza nuova de G. Vico: a primazia das ciências sociais

A idéia moderna de linguagem contempla apenas as coisas que podem ser representadas com clareza e distinção, evitando que o entendimento se engane e caia no erro. Obviamente a concepção moderna de linguagem teve duas conseqüências: a refutação do velho paradigma da similitude e retomada do ideal clássico da linguagem matemática como expressão pura da inteligência. A diferença entre o cultivo antigo e a aplicação moderna da matemática consiste na nova convicção de que esta linguagem não é apenas o instrumento de expressão da verdade, a matemática coincide com a estrutura reflexiva da mente humana, de modo que somente a inteligência educada na matemática está apta para apreender a verdade das coisas. Aquilo que merece ser conhecido deve ter as mesmas qualidades da matemática, ou seja, o objeto do conhecimento científico é somente aquilo que possui grandeza e que pode ser reduzido à ordem e à medida, tal objeto é inconfundível graças às duas propriedades que lhe dão realidade: a matéria e o movimento. O objetivo da ciência é o conhecimento das coisas naturais, pois somente elas são dotadas de realidade inteligível. A filosofia do século XVII excluiu do horizonte científico tudo aquilo que não pode ser expresso em linguagem matemática, paradoxalmente, este contexto favoreceu o surgimento de uma filosofia social que almeja introduzir na nova ciência os domínios da vida espiritual que se concretizam no mundo da cultura. A obra mestra de Giambattista Vico, a Scienza nuova, enuncia o projeto racionalista para a emancipação das disciplinas humanistas com a finalidade de incluí-las do espectro da ciência moderna. Tal projeto só é possível com a reabilitação da linguagem comum, que não se opõe à linguagem universal da ciência mecânica, porém, é dotada de lógica própria, bem distinta das cadeias de razão da via matemática que pretende reencontrar as verdades apodícticas. Vico sustenta o seu projeto na distinção entre o mundo natural e o mundo social, o que implica na admissão da impossibilidade da validade da linguagem matemática para a investigação e expressão do conhecimento das coisas humanas, tão indispensáveis quanto o conhecimento do mundo natural para a emancipação social. A elucidação da filosofia tópica e a definição da linguagem comum são os objetivos a serem desenvolvidos nesta comunicação.


Luis Augusto Sarmento Cavalcanti de Gusmão
UnB
Imagens do conhecimento social

O problema central abordado na comunicação é o da identidade epistemológica da moderna teoria social. Será apresentado e discutido um conjunto de idéias acerca dessa identidade, idéias estas que podem ser agrupadas, em linhas gerais, em três posições fundamentais, a saber:

1) O conhecimento social, na medida em que reivindica o status de um conhecimento objetivo, confiável, pertence por inteiro ao campo da investigação científica, devendo, em decorrência disso, ser pensado à luz de um modelo unificado de ciência, cuja expressão mais acabada pode ser encontrada nas ciências naturais. Esta a posição tacitamente sustentada por autores clássicos da moderna teoria social, tais como, Karl Marx, Émile Durkheim, Radcliffe-Brown, Evans-Pritchard e Malinowski. Mas é no âmbito da filosofia da ciência que vamos encontrar a sua formulação explícita mais acabada. Dentre os filósofos que vão sustentá-la destacam-se as figuras de C.G. Hempel, Ernest Nagel, Karl Popper e Richard Rudner. Podemos denominá-la de monismo metodológico.

2) O conhecimento social constitui uma "descrição compreensiva" do mundo dos homens, descrição esta que pode, com indiscutível legitimidade, reivindicar o status de um conhecimento empírico confiável acerca desse mundo. Contudo, não cabe falar aqui em ciência, numa acepção estritamente técnica, não honorífica, desse termo, pois não encontramos no conhecimento social um conjunto de traços que, de um ponto de vista rigorosamente descritivo, vai caracterizar a atividade científica. Isto não implica, porém, colocar sob suspeição o valor cognitivo desse conhecimento: ao contrário do que sugerem os monistas, a ciência empírica moderna não constitui todo o conhecimento confiável. Esta a posição de Isaiah Berlin e Paul Veyne. Vamos chamá-la de separatismo I;

3) A moderna teoria social implica uma ruptura efetiva com o chamado conhecimento do senso comum, com o saber da vida cotidiana, se colocando, em decorrência disso, no âmbito do "sistema das ciências". Contudo, não cabe avaliar a relevância cognitiva dessa teoria com base num modelo unificado de ciência inspirado na experiência das ciências naturais, modelo este, de resto, já desacreditado junto à filosofia da ciência pós-positivista. Esta a posição de autores como Habermas, Apel, Taylor, Geertz e Bourdieu, entre outros. Vamos chamá-la de separatismo II. Este representa hoje, em larga medida, a auto-imagem dominante das disciplinas da sociologia e da antropologia. Seus defensores gozam, junto aos antropólogos e sociólogos, de enorme prestígio e são sempre consultados quando se trata de discutir a identidade epistemológica da moderna investigação social. Constituem uma espécie de consultoria epistemológica para sociólogos e antropólogos às voltas com problemas de identidade.

Com isso, não pretendemos, naturalmente, apresentar um enquadramento exaustivo das idéias acerca da identidade epistemológica da moderna teoria social, mas, tão somente, oferecer um eixo plausível com base no qual essas idéias podem ser examinadas. Sustentaremos, contrariando a posição dominante junto aos sociólogos e antropólogos, com base num conceito estritamente descritivo de ciência, a maior plausibilidade do que estamos chamando de separatismo I, endossando, assim, as idéias sustentadas por Isaiah Berlin e Paul Veyne.


Susan Haack
Miami
The Unity of Truth and the Plurality of Truths

There is one truth, but any truths; i.e., one unambiguous, non-relative truth-concept, but many and various propositions that are true. One truth-concept: to say that a proposition is true is to say (not that anyone, or everyone, believes it, but) that things are as it says; but many truths: particular empirical claims, scientific theories, historical propositions, mathematical theorems, logical principles, textual interpretations, statements about what a person wants or believes or intends, about grammatical and legal rules, etc., etc. Put this way, my thesis sounds almost embarrassingly simple, even naive. But, as Frank Ramsey once said, “there is no platitude so obvious that eminent philosophers have not denied it”: and as soon as you ask why anyone would deny that there is one truth-concept, or that there are many true propositions, it becomes apparent that my initial, simple formula disguises many complexities.


Guido Imaguire
UFC
Identidade Naturalizada

O naturalismo filosófico é um programa metodológico que caracteriza muitos autores analíticos contemporâneos e que se desdobra em diferentes disciplinas como teoria do conhecimento, filosofia da linguagem, filosofia da matemática, filosofia da mente, lógica e ética. Traço comum das diferentes manifestações teóricas do naturalismo é a rejeição de categorias ou estruturas supostamente transcendentais e necessárias, não derivadas, portanto, de um processo contingente natural e/ou social de aquisição. Um paradigma clássico deste programa é a tentativa de Searle (Atos de Fala, cap. 9) de demonstrar a derivação de um enunciado normativo da ética a partir de um enunciado puramente descitivo por meio da análise semântico-pragmática. O objetivo principal do meu texto é discutir a possibilidade de uma demonstração análoga em relação a um dos conceitos centrais dessa tradição transcendentalista, a saber, o conceito de identidade. Para isso, analisa-se as concepções de identidade de Quine e do segundo Wittgenstein que, apesar da grande diferença em suas perspectivas filosóficas gerais, convergem na tentativa de explanar nossos conceitos a partir de uma estratégia semântica behaviorista. No naturalismo empirista de Quine, a estratégia de naturalizaçao da identidade é de caráter epistemológico se dá na sua tesse sobre o aprendizado dos termos individuativos numa Segunda fase de aquisição de competência lingüística (p. ex. em Speaking of Objects). No naturalismo culturalista ou pragmático do segundo Wittgenstein (especialmente em Philosophische Untersuchungen e Bemerkungen über die Grundlagen der Mathematik) o argumento de naturalização assume uma forma menos epistemológica e mais lógica (no sentido de “filosofia da lógica”) e é articulado de modo implícito na tese de procedimentos de geração de regras a partir de uma série extensional na sua filosofia da matemática (de 2, 4, 6, 8 … se gera “+2”, de 2, 2, 2, … se gera “=”). O meu texto pretende estabelecer que ambas tentativas representam modelos plausíveis de explanação da origem natural da nossa noção de identidade e que, além disso, ambas teorias conseguem responder coerentemente as duas clássicas e mais freqüentes objeções feitas ao naturalismo: o argumento do círculo vicioso e a confusão entre gênese e validade.


Joge Atílio Silva Iulianelli
UFRJ
Contribuições e limites da ética do discurso ao debate sobre uma perspectiva multiculturalista dos direitos humanos

O debate sobre os direitos humanos, compreendidos como direitos universais, interdependentes e inseparáveis, sofre constrangimentos da conjuntura recente. Com efeito, valores sócio-políticos, como a democracia, por exemplo, são apresentados como justificativas para intervenções em Estados nacionais, numa manifestação contrária à noção de soberania nacional, ou, no mínimo, afirmativa de universalidades que se auto-impõem à comunidade internacional. Se aceitarmos como hipótese heurística que a comunidade internacional se regula por meio de consensos mínimos construídos entre os seus atores – Estados, organismos multilaterais, movimentos sociais e organizações não-governamentais; e que tais consensos podem atingir uma positividade; cabe-nos formular a questão sobre o papel regulador da Ética na construção de constrangimentos que assegurem uma afirmação inclusiva dos direitos humanos, que não seja a da submissão dos mais débeis aos mais poderosos. Em outras palavras, propomos discutir como a constelação de relações internacionais podem ser afirmadoras e promotoras do desenvolvimento humano, da garantia dos direitos fundamentais, numa perspectiva multiculturalista. Para tanto, nos aproximaremos das reflexões oferecidas por John Rawls em Law of Peoples, por Jürgen Habermas, por Charles Taylor e Boaventura dos Santos. Nossa hipótese básica é que a paz no mundo depende da promoção, garantia e defesa dos direitos fundamentais de indivíduos e coletividades.


André Klaudat
UFRGS
Fisicalismo e indeterminação do mental no monismo anômalo

Com o Monismo Anômalo Donald Davidson se endereça a dois problemas fundamentais na filosofia da mente. Do ponto de vista do que há, a teoria advoga um fisicalismo de ocorrência: eventos mentais são idênticos a eventos físicos. Não é preciso mais, para a existência do mental, do que a materialidade dos eventos físicos. Mas, por outro lado, o mental, embora idêntico a ele, não se reduz ao físico. A teoria a este respeito advoga uma espécie de indeterminação em relação ao mental, ele forma um todo anômalo cuja natureza não permite previsões específicas nem uma ciência rigorosa, i.e. uma teoria “fechada” e “completa”. A relação entres estas duas ordens de respostas aos problemas filosóficos sobre o mental no Monismo Anômalo é a de que a tese da indeterminação do mental fornece uma premissa central para o argumento para a tese ontológica. Há, no entanto, mais duas outras premissas para este argumento: o princípio do “caráter nomológico da causalidade” e o princípio da “interação causal entre o mental e o físico”.

Neste artigo, examinarei, primeiramente, a argumentação para a indeterminação do mental, em parte nos textos de Davidson e, em parte, através de uma comparação com uma tese da indeterminação do mental do segundo Wittgenstein. O resultado será o de que o anomalismo do mental é uma tese correta, embora a argumentação de Davidson para ela não seja a mais contundente: esta derivada das exigências da “interpretação”. Mais promissora parecerá a constatação de que a indeterminação do mental está ligada à natureza peculiar da relação entre a lógica dos conceitos mentais e as evidências para o mental.

Em segundo lugar, e como pano-de-fundo do ponto anterior, examinarei a concepção davidsoniana da relação causal presente também no princípio da “interação causal”. A causação mental davidsoniana será examinada e criticada em função de dificuldades correlatas a respeito da relação causal extensionalmente concebida e da identidade dos eventos mentais. Ligado ao tópico da identidade, é sabido que Davidson avançou para a concepção da identidade dos eventos em termos de particulares concretos com localização espaço-temporal. Esta concepção será criticada através de uma análise pertencente à Metafísica Descritiva, de cujo traço principal será a não-espacialidade literal dos eventos.

O resultado combinado destes dois exames de concepções fundamentais do Monismo Anômalo é que o fisicalismo da teoria de fato não atende a nenhum impulso metafísico respeitável, antes ameaça pôr a perder a contribuição inestimável de Davidson à nossa correta compreensão da lógica dos conceitos mentais.


John-Michael Kuczynski
Univ. California – Santa Barbara
Davidson on Turing: Rationality Misunderstood?

Alan Turing advocated a kind of functionalism: A machine M is a thinker provided that it responds in certain ways to certain inputs. Davidson argues that Turing’s functionalism is inconsistent with a certain kind of epistemic externalism, and is therefore false. In Davidson’s view, concepts consist of causal liasons of a certain kind between subject and object. Turing’s machine doesn’t have the right kinds of causal liasons to its environment. Therefore it doesn’t have concepts. Therefore it doesn’t think. I argue that this reasoning is entirely fallacious. It is true that, in some cases, a causal liason between subject and object is part of one’s concept of that object. Consequently, to grasp certain propositions, one must have certain kids of causal ties to one’s environment. But this means that we must rethink some old views on what rationality is. It does not mean, pace Davidson, that a precondition for being rational is being causally embedded in one’s environment in a certain way. If Turing’s machine isn’t capable of thinking (I leave it open whether it is or is not), that has nothing to do with its lacking certain kinds of causal connections to the environment. The larger significance of our discussion is this: rationality consists either in one’s ability to see the bearing of purely existential propositions on one another or rationality is simply not to be understood as the ability see the bearing that propositions have on one another.


Daniel Laurier
Montréal
Davidson, Mind and Realism

It has often been claimed that Davidson’s "interpretationist" approach to the mind commits him to deny the reality of propositional attitudes or intentional states. And the suspicion that it does persists even in the face of Davidson’s own repeated insistance that he is defending a realist view of the mind.

In this talk, I will briefly review some of the grounds on which the claim that Davidson’s views are incompatible with intentional realism is most often taken to rest, and suggest that they are inconclusive. I will then outline an alternative way of looking at the issue which will make it appear both that Davidson is actually committed to an anti-realist conception of the mind and that this doesn’t at all make his views less defensible.

I will argue that, on a very natural and plausible construal of what realism is, (i) only one restricted form of intentional realism has any chance of being true, and (ii) there is at least one interesting (but also restricted) form of intentional irrealism which is not only attractive and coherent, but probably true. As it will turn out, the relevant versions of intentional realism and intentional irrealism are compatible with one another. But it will then be seen that Davidson defends a stronger form of intentional irrealism, one which is incompatible with any form of intentional realism.

The general lesson which will emerge is that the controversy over the issue of intentional realism should focus neither on the nature of truth nor on the indeterminacy thesis, but on Davidson’s well known claim that one can have thoughts only if one can also attribute thoughts to others. For the only defensible form of intentional realism will result from a denial of this claim.


André Leclerc
UFPB-JP
Davidson’s Externalism: Problems and Consequences

After the seminal works of Putnam (1975), Burge (1979), and Kripke (1982), the next important contribution to externalism is certainly Davidson’s (mainly 1987, 1988, 1989, 2001). By criticizing the positions of the three first philosophers, Davidson elaborated his own brand of externalism. We shall first present some features of Davidson’s externalism (for instance, the importance of historical connections for the foundation of language and thought, for the explanation of how the language can be learned, and how attitudes can be identified by the interpreter, and finally how mental content is determined by appealing to the idea of triangulation), and then discuss a few problems. Finally, we shall discuss the resulting picture of the mind that emerges from the rejection of the “Cartesian theatre”.

Davidson accepts the idea that mental content is determined by external factor (natural and social). But then two main problems emerge. First, how to reconcile the fact that external factors determine mental content, as Putnam and Burge argued convincingly, with token-physicalism, the thesis that mental events are identical with physical events occurring “in the head”. In “Mental Events” (1970) Davidson defended the identity of mental and physical events. Since Putnam (1975), to be an externalist, usually and partly, is to defend the thesis that “meanings just ain’t in the head”. So we shall examine, in that context, Davidson’s use of the metaphor of the sunburned skin: no matter how the burn has been achieved, it is a “condition of the skin”, he says. The second main problem is how to reconcile the first person authority with some prima facie consequences of externalism, mainly that we should know the relevant parts of our (natural and social) environment in order to know the content of our thoughts. We shall see that the way out of this is to reject the distinction between uninterpreted experience and an “organizing conceptual scheme” and to reject likewise the idea of “objects of thoughts”. Is the resulting picture coherent? Are Davidson’s criticisms fair? These are among a few questions we shall raise and discuss.

References
Tyler Burge, (1979) “Individualism and the Mental”, Midwest Studies in Philosophy 4, 73-122.
Donald Davidson, (1987) “Knowing One’s Own Mind”, Proceedings of the American Philosophical Association 60, 441-58. Also in D. Davidson, Subjective, Intersubjective, Objective, (SIO) Oxford University Press, 2001, 15-38.
Donald Davidson, (1988) “The Myth of the Subjective”, (SIO), 39-52.
Donald Davidson, (1989) “What Is Before the Mind”, (SIO), 53-67.
Donald Davidson, (2001) “Externalisms”, in P. Kotatko et alii, Interpreting Davidson, Standford, CSLI Publications, 2001.
Hilary Putnam, (1975) “The Meaning of ‘Meaning’”, in Mind, Language and Reality, Cambridge, C.U.P..
Saul Kripke, (1982) Wittgenstein on Rules and Private Language, Oxford University Press.


Ernest Lepore
Rutgers
Shared Content

A general and fundamental tension surrounds our concept of what is said. On the one hand, what is said by utterances of a significant range of sentences is highly context sensitive. More specifically, (Observation 1 (O1)), what these sentences can be used to say depends on their contexts of utterance. On the other hand, speakers face no difficulty whatsoever in using many of these sentences to say (or make) the exact same claim, assertion, etc., across a wide array of contexts. More specifically, (Observation 2 (O2)), many of the sentences in support of (O1) can be used to express the same thought, the same proposition, across a wide range of different contexts.

The puzzle is that (O1) and (O2) conflict: for many sentences there is evidence that what their utterances say depends on features F1...Fn of their contexts of utterance; while, at the same time, there is also evidence that two utterances of these sentences in contexts C and C’ express agreement, despite C and C’ failing to overlap on F1...Fn.

Here’s a simple illustration. What an utterance of (1) says clearly depends in part on the contextually salient comparison class, standards of measurement, and other such things.

(1) Serena is really smart.

This data supports (O1) for the comparative adjective ‘smart’. Yet, suppose all we tell you is that Venus uttered (1). We predict the following:

You can understand what Venus said, viz. that Serena is really smart.

You can repeat what Venus said, i.e. do what we’re about to do right now, viz. say the same as Venus did: Serena is really smart.

You can indirectly report Venus by uttering (2):

(2)Venus said that Serena is really smart.

What’s puzzling is how you can achieve all this without extensive knowledge of the contextually salient aspects of Venus’ original utterance of (1). How can you do it without knowing exactly which comparison class, measurement method, etc., Venus’ utterance picked out? Why does it seem not to be a requirement on your saying what Venus said that your context of utterance overlaps in relevant ways with hers?

The paper divides into three parts. In Part I, the puzzle (or tension or whatever you want to call it) is presented in greater detail; in Part II, several failed solutions are is dicussed; and in Part III, the favored solution is defended.


Adriano L. de S. Lima
Décio Krause
UFSC
Quase-verdade, indução e incerteza

A motivação deste trabalho vem de desenvolvimentos recentes em filosofia e em inteligência artificial [1], [4], principalmente de investigações em raciocínios não-monotônicos e derrotáveis, alguns dos quais tendo sido associados a lógicas não-clássicas. No entanto, as formas usuais de tais raciocínios, consideradas pelos diversos autores, não levam em conta quaisquer espécies de ‘graus de confiança’ (ou ‘de risco’) ou ‘graus de crença’ que se possa ter na verdade das proposições envolvidas. Desenvolvendo tal possibilidade, podemos tratar de situações em que as premissas e a conclusão de certas regras possam comportar alguma incerteza, ou vagueza, mas que a elas se possa conferir algum ‘grau de confiabilidade’ (ou de ‘desconfiança’). Recentemente, da Costa e Krause [3] utilizaram um tipo de lógica paraconsistente, chamada de lógica anotada, para tratar a questão. O ponto chave desse artigo é uma regra de inferência, chamada por eles de ‘warning rule’, que tem premissas e conclusão às quais se atribui valores de um determinado reticulado (no sentido das lógicas anotadas usuais) e um ‘grau de confiança’, medido por uma confidence function, devidamente definida e satisfazendo postulados adequados. A referida regra diz intuitivamente que se as premissas p1,..., pn, cada uma tendo um certo peso (indexado pelos valores de um reticulado conveniente) tiverem graus de confiabilidade respectivamente g1,..., gn, a conclusão terá grau de confiança igual ao supremo dos graus gi, o que intuitivamente nos sugere aceitar a conclusão com grau de confiança (ou de desconfiança, conforme a interpretação) maior ou igual ao das premissas. Neste caso, o grau de confiança pode ser interpretado também como indicando um coeficiente de cautela (ou de risco) que de deve tomar relativamente à conclusão: deve-se ter tanta cautela com ela quanto se tem com a mais vaga premissa. Parte do estudo está em se averiguar se este grau de confiança pode ser mensurado por um tipo de probabilidade subjetiva denominado de probabilidade pragmática [2], que tem relações com o conceito de quase-verdade [2]. Neste trabalho, estudamos as interrelações filosóficas desses conceitos e analisamos outras regras, como a que confere à conclusão o ínfimo dos graus de confiabilidade, além de procuramos os fundamentos de uma ‘lógica da confiabilidade’ e suas possíveis aplicações ao tratamento de incertezas e da vaguidade.

Referências
[1] Causey, R. L., ‘The epistemic basis of defeasible reasoning’, Minds and Machines 1, 1991, 437-458.
[2] da Costa, N. C. A. and French, S., Science and partial truth: a unitary approach to models and scientific method, Oxford Un. Press, 2003.
[3] da Costa, N. C. A. and Krause, D., ‘An inductive annotated logic’, in W. A. Carnielli, M. E. Coniglio and I. M. L. D’Ottaviano (eds.), Paraconsistency: the logical way to the inconsistent, Proceedings of the Second World Congress on Paraconsistency. New York, Marcel Dekker, 2002, 213-225.
[4] Pollock, J. L., Contemporary theories of knowledge, Hutchinson, 1987 (Rowman & Littlefield, 1986).


Andrei Luiz Lodea
UFSC
A experiência primeira e o conhecimento geral na formação do novo espírito cientifico proposto por Bachelard

O objetivo principal de Bachelard é dar à ciência a filosofia que ela merece. Pode-se dizer que a ciência hoje vive um grande triunfo, decorrente do questionamento sobre a validez de um pensamento científico em uma outra realidade epistemológica. Os obstáculos encontrados pela ciência constituem um dos fatores que impediram seu avanço. O grande problema segundo Bachelard encontra-se na solução de uma primeira experiência, sem análise de seus fatos, partindo para a generalização. Neste sentido propõe-se investigar a experiência primeira e o conhecimento geral como sendo obstáculos decisivos ao engano da ciência. São enganos precipitados que desviam a ciência de um caminho seguro. Desta forma, o confronto de idéias pode surtir efeito para a confiabilidade epistemológica da ciência.


Dilnei Lorenzi
PUC-SP
Teoria das descrições definidas de Bertrand Russell

O artigo tem por objetivo analisar a estruturação teórica feita por Russell referente às descrições definidas. Russell teve um reconhecimento notório no meio acadêmico ao desenvolver a sua teoria das descrições definidas. Ao formular a teoria das descrições definidas, Russell forneceu uma explicação da inteligibilidade desta sem supor que elas deveriam representar algo; é suficiente que suas partes sejam inteligíveis, o que consiste tipicamente em as partes representarem algo. A noção de “representar” ou, como diz Russell, “significar” é a noção única que deve fornecer uma melhor explicação do que as noções de sentido e referência de Frege. Na leitura da obra de Russell se percebe um direcionamento a pensar que o termos singulares genuinamente simples e gerais possuíam significado ao representar algo: um particular no caso de termos singulares como “isto”, um universal no caso de termos gerais como “vermelho”. Compreender tais expressões envolve ter conhecimento do que elas representam. Existe apenas uma outra fonte de significado, que deriva de constantes lógicas como “e”, “não”, “é idêntico a” e “todos”. Russell jamais forneceu uma explicação satisfatória de como tais expressões possuem significado, mas é óbvio que elas contribuem para a inteligibilidade de expressões complexas. Russell admitia uma classe bem estreita de “nomes próprios lógicos”, termos singulares que um lógico, diferentemente de uma pessoa comum ou de um gramático, deveria ver como nomes próprios. Trata-se de termos singulares genuinamente simples, e compreendê-los envolve conhecimento do que representam. Russell supunha que, se dois termos, digamos “a” e “b”, representassem a mesma coisa, qualquer um que compreendesse ambos saberia a verdade de “a” é “b”. Dado que a maior parte do que usualmente denominamos nomes próprios, como “João” e “Aristóteles”, não satisfazem esta exigência, ele os exclui da categoria de nomes próprios lógicos e explicou seu funcionamento em termos de descrições associadas. Russell explicou a inteligibilidade da expressão em termos da inteligibilidade de suas partes: “a” é uma constante lógica como “todos” e possui assim um significado em seja qual a maneira que as constantes lógicas o possuem constantes lógicas que possam representar os universais dos seus conceitos.


Alexandre M. Luz
FEBE
O Prêmio da Virtude é o Conhecimento?

Qual a relação entre as virtudes intelectuais e o conhecimento? Esta questão, como é sabido, ocupou Aristóteles na Ética a Nicômacos. Menções sobre a importância das virtudes intelectuais podem ser encontradas também em diversos autores modernos, como Hume, por exemplo. A despeito desta venerável tradição, a Teoria do Conhecimento contemporânea, não se ocupou da noção de virtude intelectual até muito recentemente. A noção debuta apenas em 1980, no ensaio The Raft and The Pyramid: Coherence versus Foundations in the Theory of Knowledge (In. French, Uehling & Wettstein (Eds.), Midwest Studies in Philosophy – Volume V – Studies in Epistemology. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1980, pp. 3-25), onde Ernest Sosa sugere que a noção de virtude intelectual pode permitir a superação dos impasses entre teorias fundacionistas e coerentistas da justificação epistêmica. A esta altura, porém, por “virtude intelectual” Sosa entendia uma operação qualquer que, grosso modo, nos levaria confiavelmente à posse de crenças verdadeiras, num dado ambiente. Em outros termos, a noção de virtude intelectual debuta no cenário epistemológico contemporâneo como um desenvolvimento da noção de “processo confiável”, central para aquela teoria da justificação sugerida inicialmente por Alvin Goldman, o confiabilismo.

Mais recentemente, porém, o debate epistemológico acompanhou o surgimento de teorias da justificação (e do conhecimento) inspiradas por noções de virtude mais tipicamente aristotélicas, dentre as quais se destaca, por sua ambição, a teoria sugerida por Linda Zagzebski em Virtues of the Mind – An Inquiry into the Nature of Virtues and the Ethical Foundations of Knowledge (Cambridge: Cambridge UP, 1996). Neste ensaio ela defende um conjunto ousado de teses: primeira, que a avaliação epistemológica é uma subárea da avaliação ética; segunda: que a tarefa da avaliação epistêmica será cumprida de modo mais adequado se nos centrarmos na avaliação do agente, não apenas na avaliação de crenças (o procedimento-padrão da epistemologia contemporânea); terceira: que esta mudança de objeto pode ser realizada ao adotarmos a noção de virtude intelectual como noção central, algo que permitirá a superação de inúmeros problemas da epistemologia contemporânea, particularmente o impasse entre teorias internalistas e externalistas da justificação.

A teoria zagzebskiana das virtudes divide o componente de avaliação do sujeito: primeiramente, o sujeito é avaliado pela correção dos seus atos (um ato correto é, em seus temos, um ato que torna alguém justificado em crer em uma dada crença); um ato correto é aquele ato que seria realizado por alguém virtuoso, numa situação semelhante àquela em questão; depois, o sujeito é avaliado pela efetividade do seu ato correto. Quando o ato correto é bem-sucedido em atingir o fim último da motivação, então o ato é um ato de virtude; no caso de uma virtude intelectual, um ato de virtude intelectual é um ato que nos permite atingir a verdade. Uma crença constitui um caso de conhecimento quando ela resulta apenas de atos de virtude intelectual.

Vamos, em nossa comunicação, avaliar algumas das teses da teoria zagzebskiana e, de modo particular, apresentar um argumento contra sua teoria das virtudes como teoria do conhecimento.


Tassos Lycurgo
Ângela M. P. Cruz
UFRN
Da Teoria Deôntica Paraconsistente do Direito

A Teoria Deôntica Paraconsistente do Direito (TDPD) é, em resumo, um esforço de construção de uma teoria jurídica positivista que resista aos problemas concernentes à norma fundamental e à validade das normas. Esses problemas ocorrem nas demais teorias positivistas quando elas tentam separar o direito da política e da moral. Embora a TDPD não abra mão do intuito de manter tal separação, pois a mesma é sinônimo da segurança jurídica – à qual todo sistema democrático deve aspirar –, a referida teoria utiliza-se da semântica proposta no desenvolvimento do cálculo proposicional deôntico diádico paraconsistente (D1) para solucionar as questões apresentadas nos principais sistemas jurídicos positivistas. A correlação que se apresenta entre a TDPD e o referido cálculo é fruto da idéia de que uma teoria do direito há necessariamente de ser deôntica e sempre apresenta contradições, razão pela qual uma lógica deôntica paraconsistente poderia tratar de tal sistema sem os riscos de obtenção da trivialização. Além de tais problemas, deve-se ressaltar que ocorrem paradoxos, como os de Prior, em sistemas deônticos que sejam monádicos ou mesmo diádicos clássicos, razão pela qual assume-se o desenvolvimento de D1. No que diz respeito às aplicações do desenvolvimento da TDPD, pode-se dizer que a mesma terá a função de lançar nova luz sobre o entendimento do fenômeno jurídico, além de possibilitar o desenvolvimento futuro de algoritmos que não apenas sugiram soluções para dilemas do direito (principalmente na ocorrência de normas conflitantes), mas também sejam ferramentas eficazes na identificação de erros de fundamentação das decisões judiciais. A complexidade da construção da TDPD, contudo, não está apenas na análise da semântica de D1. O problema da norma fundamental, por exemplo, deve ser aprofundado com base nas teorias de direito mais importantes para a contenda, especialmente, a de Dworkin (Taking Rights Seriously, 1977; e Law’s Empire, 1986) e a dos positivistas, como Kelsen (The Pure Theory of Law, 1968; e General Theory of Law and State, 1945), Hart (The Concept of Law, 1961) e Ross (On Law and Justice, 1958). O objetivo principal deste trabalho é especificar as bases da TDPD a partir da semântica do cálculo D1 e da análise das principais teorias de direito já referidas anteriormente. Ressalta-se que se encontra completamente desenvolvido o cálculo D1 (conforme Cruz, 1993), que dá corpo à lógica deôntica paraconsistente, a qual permite a superação de dilemas e de paradoxos, tal como os de Prior. A análise da semântica de tal cálculo já está efetuada. As bases da teoria do direito deôntica paraconsistente, contudo, requerem melhor desenvolvimento e, por isso, constituem, como apresentado, o desafio central desta abordagem de pesquisa.


Ana Paula Döhler Machado
UFRGS
Frege Sobre a Relação entre as Elucidações e a Lógica

Este trabalho se ocupa com a seguinte questão: Frege tomou ou não essas elucidações como integrantes do que ele concebeu como lógica? A meta é apresentar e avaliar algumas respostas que encontram-se na literatura. O trabalho divide-se em quatro partes.

Na primeira parte, apresentamos a resposta padrão, que é de Michael Dummett. Segundo ele, Frege não teria entendido por “lógica” apenas lógica formal ou uma teoria do raciocínio dedutivo, mas teria incluído nela uma teoria geral do significado. Essa seria constituída pelas elucidações e consistiria numa base para a lógica formal, na medida em que explica como seus signos podem se combinar e como eles devem ser interpretados (mais especificamente, que papel eles desempenham e por que tipo de entidades eles estão) e fornece uma justificação informal dos seus axiomas e regras.

A segunda parte consiste numa breve exposição da resposta de dois intérpretes “revisionistas”, Thomas Ricketts e Joan Weiner. Para eles, o que Frege entende por “lógica” é o sistema formal que ele chamou de “conceitografia”. E, como ela é a mais geral de todas as ciências, não há nenhuma verdade mais fundamental que aquelas que são expressas nela. Isso significa que não faz sentido falar em justificar suas regras e leis, em baseá-la sobre uma teoria geral do significado. As elucidações não expressam pensamentos verdadeiros, não compõem nenhuma teoria, pois, se o fizessem, seriam expressáveis na conceitografia. Mas, Frege nega que elas sejam. E, mais, ele assume que elas são imprecisas e que algumas possuem defeitos irremediáveis, do que eles concluem que elas não dizem nada, mas mostram o que não pode ser dito.

A terceira parte é dedicada às críticas que Richard Heck Jnr. e Michael Pelczar fazem a esses revisionistas. Heck tenta mostrar, contra Ricketts, que Frege usou as suas elucidações não apenas para fixar os significados dos signos primitivos da sua conceitografia, mas também para mostrar que, com essa atribuição, suas regras não são arbitrárias e seus axiomas expressam pensamentos verdadeiros. Além disso, ele admite que Frege as exclui do seu sistema, mas nega que isso signifique que ele pensou que elas não podem formalizadas nos termos da conceitografia.

Michael Pelczar, também argumenta, contra Weiner, que as elucidações não podem compor o sistema de uma ciência, não podem ser usadas em provas, porque lhes falta a precisão e não porque elas não expressam pensamentos. Segundo ele, Weiner contrasta elucidação com sentença bem formada, com teoria, mas para entender o que Frege tem em mente é necessário contrastá-la com definição. O principal argumento de Weiner contra aqueles que atribuem uma teoria filosófica a Frege é que ele admite que não é possível falar propriamente de funções. Mas, segundo Pelczar, nada indica que Frege concluiu que não poderia expressar seus pensamentos sobre funções por causa desse problema Na quarta parte, as respostas são discutidas e avaliadas. O resultado será que a interpretação padrão de Dummett, apoiada por Heck e Pelczar, é a mais plausível. Ela apoia-se melhor nos textos de Frege e está mais de acordo com os seus propósitos. Frege afirma explicitamente que as elucidações não fazem parte do sistema de uma ciência, mas em nenhum lugar identifica lógica com sistema de lógica. Ele também diz que as elucidações não expressam os pensamentos que ele quer quando elas são tomadas literalmente, mas nunca diz que elas não expressam nenhum pensamento. E, de fato, ele precisava contar com isso. Pois, de que outra maneira elas poderiam fixar os significados dos signos da conceitografia?


Carlos Luciano Manholi
UEL
O conceito de verdade em linguagens semanticamente fechadas

Em nossa tese de doutorado, que foi defendida em agosto de 2004, desenvolvemos uma teoria da verdade cuja construção foi norteada pelo objetivo de satisfazer quatro condições de adequação, a saber: i) capturar as intuições russellianas, por assim dizer, respeitantes à noção de verdade; ii) ser materialmente adequada; iii) ser aplicável a linguagens semanticamente fechadas e, iv) não acarretar paradoxos semânticos.

Cabem aqui alguns comentários sobre cada uma dessas condições de adequação que impusemos sobre nossa teoria da verdade. Com a condição i), procuramos fazer nossa teoria capturar as seguintes intuições a respeito da noção de verdade, bem como das noções de sentido e denotação de uma sentença: a) uma sentença declarativa significativa s de uma linguagem L qualquer expressa uma proposição e denota um estado-de-coisas; b) a proposição expressa pela sentença s é verdadeira se e somente se ela corresponde ao estado-de-coisas que s denota. Essa intuição b) é depois transformada em nossa teoria, de maneira que a noção de correspondência entre uma proposição e um estado-de-coisas possa ser tratada por meio de modelos, do seguinte modo: b’) a proposição expressa pela sentença s é verdadeira em um modelo M se e somente se o estado-de-coisas que s denota pertence a M. Essas intuições são claramente de tipo russelliano, por serem análogas às intuições sobre as noções de verdade, sentido e denotação, que aparecem em ‘A filosofia do atomismo lógico’ de Russell. Isso é tudo o que pretendemos dizer quando chamamos as intuições a) e b) de ‘russellianas’.

Sobre a condição ii), nós fizemos que nossa teoria da verdade fosse materialmente adequada em um sentido próximo ao de Tarski, porém com as adaptações necessárias para uma teoria da verdade de tipo correspondencial. De fato, de acordo com Tarski – cuja teoria da verdade, segundo ele próprio, não é uma teoria correspondencial – uma definição de verdade materialmente adequada deve implicar logicamente todas as instâncias do seguinte esquema: T) s é verdadeira sse p; sendo p uma sentença qualquer de uma das linguagens-objeto da teoria da verdade em questão, e sendo s um nome para p. Ora, como nossa teoria é uma teoria de tipo correspondencial, e como ela aplica o predicado-verdade a proposições em vez de sentenças, reformulamos o esquema T para adaptá-lo a essas circunstâncias, do modo seguinte: T’) p é verdadeira em um modelo M sse M torna p verdadeira; sendo p uma proposição expressa por uma sentença qualquer de uma das linguagens-objeto de nossa teoria da verdade. A expressão ‘p é verdadeira em M’ refere-se ao estado-de-coisas semântico, por assim dizer, de p ser uma proposição verdadeira, que pertence ao modelo M; e a expressão ‘M torna p verdadeira’ refere-se à pertença a M do estado-de-coisas denotado pela sentença s que expressa a proposição p. O uso dessas expressões – e desse significado que lhes demos – em nossa teoria, foi inspirado no uso de dispositivos teóricos semelhantes por J. Barwise e J. Etchemendy em seu livro The liar: An essay on truth and circularity.

Quanto às nossas condições iii) e iv), podemos dizer que elas constituem os parâmetros que determinam o sucesso ou não de nossos objetivos com a teoria da verdade que desenvolvemos. De fato, como discutimos amplamente em nossa tese de doutorado, não pareceu a diversos estudiosos da semântica formal que uma teoria da verdade pudesse satisfazer simultaneamente as condições ii), iii) e iv). Assim, Tarski construiu sua teoria para satisfazer ii), mas, de modo a fazê-la satisfazer iv) ele teve de impedi-la de satisfazer iii). Já Barwise e Etchemendy, no livro que mencionamos acima, desenvolveram uma teoria da verdade que satisfaz a condição iii), mas, para garantir a satisfação de iv) por sua teoria, esses autores tiveram que impedi-la de satisfazer ii). Assim, parece que temos, em um primeiro momento, que uma teoria da verdade não pode ser materialmente adequada e aplicável a linguagens semanticamente fechadas, sem deixar por isso mesmo de incorrer em paradoxos semânticos tais como o paradoxo do mentiroso. Entretanto, nossa teoria da verdade mostra que isso não é o caso, ao satisfazer (além de i)) as condições ii), iii) e iv) simultaneamente.

Ora, nossa teoria da verdade foi construída na teoria de conjuntos ZFC, e se aplica a linguagens semanticamente fechadas construídas a partir de um conjunto de linguagens L de primeira ordem. Além disso, a semântica que demos, em nossas definições, aos operadores lógicos e aos quantificadores faz de nossa teoria da verdade uma teoria aparentemente clássica (usando esse termo em oposição a ‘intuicionista’). E ainda mais do que isso, nós utilizamos em nossa teoria o esquema trivalente de valoração de Kleene, para lidar com as falhas por parte de algumas sentenças de nossas linguagens-objeto em expressar proposições em alguns contextos.

Os aspectos de nossa teoria da verdade mencionados no parágrafo precedente põem naturalmente a seguinte questão: até que ponto nossa teoria da verdade está comprometida com a teoria de conjuntos ZFC, com a lógica clássica de primeira ordem, no que se refere às proposições expressas pelas sentenças das linguagens-objeto de nossa teoria, e com o esquema de Kleene no que atine às sentenças dessas linguagens-objeto? Como consideramos que não há um comprometimento da nossa teoria da verdade com ZFC, com a lógica clássica de primeira ordem ou com a lógica trivalente de Kleene, uma resposta convincente à questão que acabamos de propor deve consistir em uma generalização de nossa teoria a) para teorias de conjuntos não-standard, b) para cálculo de predicados de ordem superior e para lógica intuicionista, no que se refere ao modo como nossa teoria lida com as proposições expressas pelas sentenças de suas linguagens-objeto; e, c) para outros sistemas de valoração no que respeita a como nossa teoria lida com as sentenças de suas linguagens-objeto. Em nossa comunicação, pretendemos apresentar a teoria da verdade que estivemos mencionando, bem como mostrar de que modo pretendemos fazer o tipo de generalização da mesma que acabamos de propor.


Sílvio César Moral Marques
UNISAL
Comentários sobre os pressupostos antropológicos no Treatise de David Hume

Ao afirmar que sua filosofia é um sistema, Hume assume que os diferentes elementos por ele teorizados estão relacionados e funcionam como partes de um mesmo mecanismo e, assim, não é possível que se contradigam.

Além disso, na totalidade de um sistema há elementos que apareceriam em todas as suas partes, e no presente caso este papel é desempenhado pelo que o filósofo escocês denominou "natureza humana". Ocorre que Hume analisa alguns aspectos desta" natureza", tais como a identidade pessoal e outros, mas pouco discute diretamente sobre o conceito de Homem. Desta forma, analisar se á a antropologia humeana e suas implicações nas três partes constituintes do Treatise.


Flávio de C. Meurer
Décio Krause
UFSC
Lógica, ontologia e física quântica

Na literatura recente sobre os fundamentos filosóficos da física quântica, tem havido muito debate sobre o status ontológico das entidades básicas das quais trata esse ramo da física. Muitos chegam a sugerir que uma ‘nova entidade’ deve ser suposta, chegando a usar um nome geral para ela(s): quantons [2], que teriam o duplo aspecto partícula-onda, sem no entanto apresentar os problemas conceituais ligados a essa dicotomia. Outros autores falam de uma ‘nova ontologia’ [1], mais ou menos no mesmo sentido, porém sugerindo que se devesse concomitantemente descrevê-las usando aparato matemático alternativo, como a teoria de quase-conjuntos [3]. O problema central, ao que tudo indica, reside no fato de que essas entidades podem, em determinadas circunstâncias, serem absolutamente indiscerníveis, sem que no entanto resultem ser a mesma entidade. Isso contrasta com a célebre visão de Leibniz de que na natureza não pode haver entidades que difiram solo numero. Como é bem sabido, a lógica e a matemática tradicionais (obtida em uma teoria usual de conjuntos) incorporam esse princípio leibniziano em algum sentido. O modo usual de tratar essa questão é supor como parte integrante do formalismo matemático associado à física quântica algum princípio de simetria, por exemplo postulando que somente soluções simétricas e anti-simétricas da equação de Schrödinger (ou, correspondentemente, somente vetores simétricos e anti-simétricos dos adequados espaços de Hilbert) representam situações físicas. Assim, mediante um ‘truque’ matemático, contorna-se o problema da indiscernibilidade para os propósitos da física. Porém, do ponto de vista filosófico, a questão está longe de apresentar uma resposta satisfatória. Se os quantons têm as propriedades postuladas pela física quântica (em qualquer de suas versões, da mecânica quântica ‘ortodoxa’ às mais recentes teorias quânticas de campos – QFT, assunto que pretendemos investigar na seqüência), então a indiscernibilidade dessas entidades deveria ser atribuída right from the start, como sugere Post [4]. Neste trabalho, estudamos essa questão e investigamos com detalhes a sugestão de M. Bitbol [1] de que a teoria de quase-conjuntos poderia ser o arcabouço matemático adequado para tratar a questão, contornando porém algumas afirmações desse autor, a saber, que isso nos comprometeria com uma visão essencialmente intensional das entidades quânticas. Do nosso ponto de vista, podemos manter via teoria de quase-conjuntos uma visão extensional dessas entidades, mais compatível com certas formas de realismo e adequadas a um tratamento matemático mais afeito à prática científica usual.

Referências
[1] Bitbol, M., Mécanique quantique : une introduction philosophique, Paris, Flammarion, 1996.
[2] Lévy-Leblond, J. M. and Balibar, F., Quantics: rudiments of quantum physics, Elsevier, 1990 (2nd Ed., 1996).
[3] Krause, D., ‘On a quasi-set theory’, Notre Dame Journal of Formal Logic 33 (3), 1992, 402-411.
[4] Post, H., ‘Individuality and physics’, Vedanta for East and West 132, 1973, 14-22.


Fernando Tula Molina
UNQ/CONICET
Revolución científica y lost possibilities: pros y contras del planteo de Hugh Lacey sobre el cambio de estrategias cognitivas

Quiero destacar aquí la importancia de las reflexiones de Hugh Lacey sobre la posibilidad de cambiar las estrategias cognitivas que guían la práctica científica, en función de valores alternativos a los que guían la estrategia materialista (agotar las posibilidades materiales de los objetos o sistemas). Al mismo tiempo pretendo señalar limitaciones históricas, epistemológicas y conceptuales de su propuesta, con el fin de contribuir al desarrollo futuro de este programa.

Desde el punto de vista histórico me preguntaré si es legítima su asociación a las obras de Fracis Bacon y Galileo Galilei al origen de la estrategia materialista, y a la imposición del valor de control de la naturaleza. El tratamiento histórico que hace Lacey del núcleo central de la obra de Bacon y de Galileo resulta esquemático y funcional a sus tesis. Para resaltar el contraste, opone el valor de control de la naturaleza con el de armonía con el todo, que a su juicio sería el valor dominante en la Edad Media. Esta exageración borra de un plumazo transición de la ciencia renacentista y no presta atención a la importancia del valor de control de la naturaleza en, por ejemplo, la medicina e ingeniería antiguas.

Desde el punto de vista epistemológico, creo que el motivo de su esquematismo histórico es consecuencia de asociarlo al problema de la incomensurabilidad. Examinaré en qué medida su tesis (de que para que pueda darse un cambio de estrategias debe darse previamente un cambio social) responde también a este problema.

Desde el punto de vista conceptual señalaré la ambigüedad en la que incurre con la noción de mundo social (aspectos que cobran significado y relevancia en el mundo cotidiano), y reclamaré mayor detalle en cuanto a la noción de “cambio de estrategia”.

De modo general me concentraré en la relación entre las estrategias cognitivas y los valores sociales en la cual tanto unas como otros encuentra apoyo mutuo. De tal relación dependen las condiciones de realizabilidad de las posibilidades de una estrategia u otra. A mi juicio, el aspecto más interesante de su propuesta es la idea de posibilidades perdidas (lost possibilities). Mientras la ciencia se mantenga dentro de una estrategia materialista, serán únicamente las posibilidades materiales de los objetos y sistemas que motivarán la curiosidad científica, y las capacidades de implementación tecnológica. Éste sería un avance ciego, guiado más por objetos que por objetivos, por meras posibilidades que por posibilidades vinculadas a valores. Esta discusión debe incorporar como contexto epistemológico lo que en algún momento se denominó contexto de implicación: ¿qué implica lo que estoy haciendo (investigando) para los demás, el medio ambiente y las generaciones futuras?

Sea como fuere, la propuesta de Lacey mantiene el mérito de señalar que debemos discutir al mismo tiempo el problema de los valores cognitivos con el de los valores culturales. Y ello sin caer en relativismo de ninguna índole dado que, “sin importar la estrategia utilizada, las afirmaciones de conocimiento deben estar basadas en virtud de cuán bien manifiestan valores cognitivos; no sólo en virtud de su potencial significado para el complejo de valores adoptado”.


Jorge Alberto Molina
UNISC
Leibniz: identidad y prueba geométrica

Esta exposición se refiere a un capítulo de la Historia de la Lógica y de la Matemática: al proyecto leibniziano de construcción de la característica geométrica como parte de la característica universal La característica geométrica era el esbozo de un lenguaje artificial formalizado destinado a expresar las entidades, enunciados y pruebas geométricos con el objetivo de obtener la reducción de las pruebas geométricas a cadenas de enunciados de identidad. En nuestra exposición explicaremos la naturaleza de ese proyecto leibniziano y lo relacionaremos con: a) la descripción dada por Pascal del conocimiento geométrico en su opúsculo El espíritu de la geometría; b) los intentos hechos en el siglo XVII de construcción de lenguajes artificiales universales.

Ya siendo muy joven, Leibniz conjeturaba que todas las demostraciones podían basarse en definiciones, en enunciados de identidad del tipo A es A o AB es A, y en el principio de no contradicción. Esa caracterización corresponde bien a las demostraciones aritméticas, como por ejemplo, a la demostración de que 2+2=4 que aparece en los Nuevos Ensayos sobre el entendimiento humano.

Para la geometría esa conjetura leibniziana no es obvia, teniendo en cuenta que en su presentación en forma de sistema deductivo en los Elementos de Euclides, las proposiciones geométricas son demostradas a partir de axiomas y de postulados, que no son enunciados de identidad. Sin embargo, Leibniz pensó que la demostración geométrica podía reducirse al modelo de la demostración aritmética, mas para conseguir ese objetivo, juzgó que debían darse definiciones de las entidades geométricas básicas, diferentes de las euclidianas, y que además, debía introducirse una nueva notación para expresar las entidades y relaciones geométricas.

En lugar de considerar, como lo hizo Euclides, conceptos básicos a los conceptos de punto, línea y superficie, Leibniz partió de los conceptos de continuo, situación, espacio y extensión. Al mismo tiempo, introdujo un nuevo simbolismo para la Geometría. Leibniz pensó que su cálculo simbólico propuesto para la Geometría, era superior a la traducción cartesiana de los enunciados geométricos en términos algebraicos, por el hecho de que ésta presupone la validez de los Elementos (así por ejemplo, la representación del círculo por medio de la ecuación x2 + y2 =r2 presupone la verdad del teorema de Pitágoras), mientras que la característica geométrica leibniziana expresaría directamente las entidades geométricas, sin rodeos.

Mediante esas dos innovaciones mencionadas arriba, Leibniz esperaba demostrar los axiomas y postulados de Euclides a partir de enunciados de identidad. Esa demostración debía realizarse por medio de la descomposición de los conceptos que aparecen en los axiomas y postulados. Cuando Leibniz pensaba en la descomposición de un concepto, tenía presente dos modelos: Uno aritmético, análogo a la descomposición de un número entero en sus factores primos; el otro analítico, análogo a la expresión de p/4 por medio de la serie 1 – 1/3 +1/5 –......1/7...... Las definiciones de los conceptos que aparecen en los axiomas mostrarían su descomposición. Así por ejemplo, en el axioma “el todo es mayor que cualquiera de sus partes”, la definición del concepto “mayor que” como “aquello cuya parte es igual a otro todo”, muestra que en la descomposición de ese concepto aparecen los conceptos “parte” y “todo”. Lo que permite probar ese axioma euclidiano por medio de enunciados de identidad.


Silvia Maria Monteiro
Patrícia Pereira
Edgar Tesser
Eduardo Vincenzi
Maria Cristina de Távora Sparano
UFPR
Naturalismo e construção da verdade

Em “Lógica e Linguagem”, Paulo Roberto Margutti Pinto oferece uma instigante abordagem não-metafísica da lógica e põe em contraste duas posições:

1) crítica à função transcendental da lógica devido a assunção do caráter contingente e provisório do conhecimento;

2) oposição ao realismo metafísico em virtude do mesmo caráter contingente e provisório, onde não se admite uma realidade subjacente estável cujas propriedades seriam acessíveis de maneira mais ou menos definitiva.

Para o autor, a Lógica explicaria a coerência das leis lógicas entre si através de operações que dependem do fechamento da linguagem e que constituem a dimensão conjetural do nosso conhecimento, tal coerência é testada através das interações dialéticas entre mundo construído versus meio ambiente. A lógica, ao lidar com as regularidades dessas interações, constitui um dos modelos com os quais interagimos causalmente com o ambiente.

Esse modelo constitui uma “emulação” da realidade. Sendo emulação, um modelo (seja lógica, sejam ciências da natureza ou humanas) deve ser considerado “não uma cópia mais ou menos acurada da realidade e sim uma estrutura conjetural capaz de emular mais ou menos adequadamente o comportamento de uma região do meio ambiente.” O modelo emulador se opõe à idéia de representação da realidade, o que vem ao encontro da pesquisa do nosso grupo de estudos de Filosofia da Linguagem, constituída a partir da noção de epistemologia naturalizada de Quine.

A partir da leitura de Lógica e Linguagem, examinaremos autores como Quine, Sellars, Davidson, Haack, Rorty, o segundo Wittgenstein, Humberto Maturana e Francisco Varela, que compartilham três teses com o kantismo naturalizado de Margutti. As teses sugerem que:

1º nossas sensações não possuem conteúdo proposicional, não fornecendo dados que constituiriam o conteúdo das expressões lingüísticas;

2º a linguagem está de algum modo fechada em si mesma, uma crença só pode ser justificada por outra crença;

3º as relações cognitivas entre ser humano e mundo envolvem interações causais.

A tese apresentada por Maturana e Varela de que “vivemos no mundo e por isso fazemos parte dele. Construímos o mundo em que vivemos ao longo de nossas vidas. Por sua vez, ele também nos constrói no decorrer desta viagem comum”, será analisada particularmente. Para Margutti, essa tese reforça a idéia do kantismo naturalizado, para nosso grupo de estudos, dá continuidade a questões da filosofia quinana, como, a constituição anatômica do significado e a noção de objeto físico. A idéia de emulação alinha-se à concepção epistêmica naturalista onde significação e conhecimento dependem da experiência e esta, em última análise, da sensação Posteriormente, como eventual confirmação das três proposições apresentadas acima, analisaremos especialmente a tese de Davidson, para quem a justificação da crença se dá num sistema de crenças e em termos causais, onde toda conexão causal é ordinária e contingente mas também observável e extrínseca.

Nossa leitura está em andamento e nossas proposições não visam uma crítica ao texto marguttiano, que é, atualmente, nossa referência. Queremos, contudo, colocar em questão as premissas que encaminharam nosso interesse na direção tanto do naturalismo quanto de uma concepção holista da verdade.


Eduardo A. Musacchio
Un. Nac. Patagónia
Applying the notion of supervenience in Earth Sciences

Two comprehensive theories, respectively dealing with the evolution of the fossil record and the evolution of the Earth crust, are displayed as series of historical transformation. Between the two main theoretical bodies and their respective historical stages, different types of relations can be recognized. In the first place the analogies in the structure of proposals and falsations amongst different disciplines are considered for correlative historical periods. The analogies seem related with the cultural frame of the successive scientific communities. Then, different examples of necessary factual interdependences are examined. Finally, the linkage between the Global Time Scale and the fossil record is regarded in detail. A relation of supervenience of geological time on the paleobiological change is accounted.

The chronostratigraphic stages used to gauge the Global Time Scale are settled on biostratigraphic units mainly found in the fossil record, their paleontological zones and some marker biohorizonts. This interdependence requires harmonizing the recurrent nature of geologic processes, which can be explained and legislated appropriately in physical terms, with the irreversible character of the biological changes ruled only by single and imprecise tendencies.

The application of the notion of supervenience is procured as follows. The Table 1 exhibits, a very simple design of historical steps in Earth Sciences [see the Stratigraphic Information System of the International Stratigraphic Commission (http://www.stratigraphy.org)] dealing with the Global Time Scale outline, which is mainly guided by the biological change.

The attributes of this procedure can be summarized in the following terms:

(Steps followed by the stratigraphers)

Lithological Succession

Distribution of taxa

Biostratigraphic Zones

Time

Member z

c

Zone P3



c

.................

M b

Member y

b




b

Zone P2


Member x

b




b

..............

...............


a



Member w

a

Zone P1

M a

1. The geological time “emerges” from the bio-historical change.

2. The geological time, formed by “finitist” (human and perfectible) conceptual units, belongs to a different “epistemic level” than that of the biostratigraphic units; the latter being rock-formed corps, widespread in the Earth crust.

3. The present contribution asserts that the notion of supervenience is adequate to set up the chronological units.

In the last part of the contribution, the possible correspondence between some kinds of biostratigraphic units established in the Stratigraphic Guide of the ICS and different models of supervenience previously proposed is analyzed. Dealing with this topic, the assemblage zone is here proposed as a possible case of weak supervenience and the different taxon-range zones as examples for strong supervenience. Finally, an asymmetric relation between the two main units (Chronologic and Biostratigraphic), is clarified.


Ricardo Bins di Napoli
UFSM
Racionalidade e Razoabilidade: discussão entre Rawls e Gauthier

Uma teoria moral deve ser entendida no marco mais geral de uma teoria da ação humana, pois a moralidade não pode restringir-se a um julgamento sobre um agir específico, mas deve perguntar-se, antes, sobre a natureza mesma do agir e do homem enquanto agente. Ao consentir-se que o agir moral humano é racional, surge a pergunta de como deve ser entendida esta racionalidade.

Nas discussões contemporâneas, principalmente no contratualismo moral, tem sido destacada uma oposição entre dois modelos: o contratualismo kantiano de J. Rawls e o contraturalismo hobbesiano de D. Gauthier. Embora, para ambas tradições, a racionalidade tenha sido definida como o agir a partir de relação entre meios e fins, para Rawls, esta não é suficiente para a constituição da moralidade e da justiça social. Rawls nega a possibilidade de derivar-se da racionalidade um critério para a ação justa, sendo necessário ainda a razoabilidade, um sentimento, a ser fomentado socialmente.

Já D. Gauthier, que segue a tradição egoísta hobbesiana, discordando das próprias intenções procedimentalistas de Rawls, ataca um ponto forte da concepção de racionalidade de Rawls, afirmando que a "(...) concepção instrumental de racionalidade, que Rawls adota, conduz à concepção instrumental da sociedade humana, que ele deseja rechaçar. O marco ideológico de Rawls conduz a uma concepção individualista e liberal da justiça e da sociedade, não à igualdade democrática e nem à idéia de união social."

Essa afirmação, sem dúvida, revela uma tensão presente na obra de Rawls Uma teoria da Justiça, onde ele, quando define a racionalidade das partes contratantes na posição original (inicial do contrato social), caracteriza a situação das mesmas como sujeitas à pura racionalidade das relações entre meios e fins.

Entretanto, o referido ataque de Gauthier a Rawls, é insuficiente para, de antemão, descartar-se o empreendimento de Rawls, pois esse, com a introdução do conceito de razoabilidade, deu uma resposta à crítica de Gauthier, combinando a concepção kantiana de racionalidade prática com o contratualismo egoísta da tradição democrático-liberal, afirmando, contudo, que a noção de razoabilidade não pode ser derivada da noção de racionalidade.

Entretanto, essa modificação de Rawls nos deve deixar pelo menos intrigados, porque em outra passagem de sua obra, embora reafirmando que o razoável não pode ser derivado do racional ele concede que isto talvez não possa ser possível de provar, pois levaria a uma discussão sobre questões fundamentais sobre as quais, em geral, é difícil decidir. O que é óbvio para uns não é inteligível para outros. Cabem aqui as pelo menos duas perguntas: 1) Que questões seriam essas? e, 2) De que modo elas nos ajudam ou não a discutir a ação moral e sua racionalidade? Se, para se abordar o problema, tem-se que inquirir qual das posições é mais coerente e persuasiva, então deve-se examinar o que Gauthier teria mais a nos dizer contra a maneira como Rawls articulou sua teoria e qual a proposta alternativa.

Resumindo-se o objetivo da apresentação é examinar com mais detalhes esta relação entre racionalidade e razoabilidade no contexto de discussão entre esses dois autores contratualistas.


Alberto Oliva
UFRJ
Afinal, a sociologia cognitiva explica ou compreende a ciência? Ou nem uma coisa nem outra?

A despeito da boa receptividade dada à sociologia cognitiva, quase nada de expressivo esta foi capaz de produzir nas últimas décadas. A proposta de estudar a ciência como uma comunidade como outra qualquer está longe de gerar os frutos prometidos. A filosofia da ciência mais recente, ao submeter à implacável revisão crítica a received view, muito contribuiu para que a sociologia da ciência se arvorasse a explicar o conteúdo das teorias científicas. Nossa comunicação colocará em discussão o problema de por que a sociologia cognitiva não foi capaz de reunir as condições indispensáveis para levar a cabo o que tem programaticamente postulado: desenvolver estudos elucidativos e bem fundamentados sobre o conteúdo da ciência. De modo mais específico, nossa apresentação tenciona problematizar o que os dois modelos – o explicativo e o compreensivo – que protagonizaram famosas disputas metodológicas nas ciências sociais têm a oferecer para a realização de estudos sociológicos sólidos sobre o conteúdo da ciência.


Leonardo Bernardo de Oliveira
UFSC
Sobre o Paradoxo da Irracionalidade de Donald Davidson e sua pretensão de defesa para a divisão freudiana da mente

O objetivo deste trabalho é, primeiramente, tornar claras as referências de Davidson a Freud, em seu artigo Paradoxos da irracionalidade. Deste modo, talvez se possa avaliar, com maior precisão, a pretensão de defesa manifesta pelo autor, em relação à divisão freudiana da mente, o que, na verdade, constitui nosso segundo e principal intuito. Paralelamente, faz-se também necessária, a explicitação de algumas das idéias mais centrais do pensamento de Davidson, como as que giram entorno dos conceitos de causa e razão, que apesar de encontrarem-se também presentes neste artigo, foram por ele, mais detalhadamente, desenvolvidas em outros momentos. Tais idéias, muito provavelmente, encontram-se em profunda relação com aquilo que, de forma geral, Davidson “enxerga” na teoria psicanalítica servindo sempre de base para a análise que ele promove.

Os méritos do artigo são, de fato, indiscutíveis. Dentre eles, procuramos ressaltar o que julgamos ser uma análise muito perspicaz das tendências freudianas, em princípio opostas, de se explicarem os fenômenos psicológicos, ora e termos teleológicos (segundo razões na terminologia davidsoniana), ora procurando submetê-los a leis causais, dentro de um limite que seria o das ciências naturais. Grande parte daquilo que Davidson produziu em Filosofia da Mente parece contribuir enormemente para esta discussão, servindo o caso da psicanálise de exemplo para o que ele sustenta, ou seja, uma especificidade do campo psicológico em relação à forma como se descrevem os seus fenômenos, e a confirmação de que as diferenças entre o físico e o mental encontram-se apenas no nível do discurso.

Agora, em dois momentos cruciais Davidson se mostra um tanto negligente frente à relevância da discussão de questões as quais limita-se em apontar. Uma delas é, nas palavras de Davidson, a questão “sobre quão científica pode ser uma ciência do mental”, e que diz respeito à possibilidade de introdução de leis determinísticas estritas neste domínio. Sabemos que Freud trabalhava com este pressuposto, isto é, que ele acreditava poder estabelecer-se tais relações determinísticas em uma série de eventos psicológicos. Dada a importância deste pressuposto, também para a questão da divisão da mente, acreditamos ser devida sua discussão, neste contexto, e a isto nos propomos.

Outra questão é a inversão que, ao nosso ver, Davidson promove na relação que o inconsciente psicanalítico possui com a temática da divisão da mente. Aparentemente, para Davidson, a identificação de estados mentais inconscientes seria algo que viria acrescentar-se a explicação da irracionalidade e, por extensão, a idéia de uma divisão da mente que, no entanto, passaria muito bem sem ela, a princípio. Ora, sabemos que o Inconsciente assume um status fundador no edifício conceitual freudiano que leva ao estabelecimento das divisões da mente. Certamente, Davidson não ignora este fato. Como se explica, então, sua posição? Procuraremos, também, decifrar esta questão.

Ao cabo, baseados nos rumos tomados pela discussão, concluiremos que as relações entre os dois autores vão muito além daquilo que se encontra explícito no texto analisado. Cabe-nos apontá-las para que as mesmas possam, futuramente, ser desenvolvidas contribuindo desta forma para um melhor entendimento das teorias, tanto de Davidson, como de Freud.


Roberta Pires de Oliveira
UFSC
A Hybrid: Chomskian Radical Interpreter

Though Noam Chomsky and Donald Davidson argue that neither the concept of publicc language, nor of convention play a role in explaining language or linguistic behavior (core ideas in current philosophy of language and linguistics), their programs can easily be considered incompatible. The paper argues that this is not the case. In fact, we shall propose a hybrid concept of a chomskian radical interpreter, and argue that it is not only compatible with both frameworks, but it may be necessary, in the sense that it fulfills explanations for blind spots in each one of them.

Our first move is to show that given a naturalistic perspective, they argue, the theoretical object is individual language: I-language for Chomsky, and, in Davidson’s view, individual theories of truth a la Tarski. However, there must be an account of a trivial fact: we do understand each other, at least to a certain degree.

Chomsky has no explicit theory of such a fact, though one may argue that innateness must play a role; in most passages he clearly refuses the possibility of a theory of interpretation, one of Davidson’s aims. And he does so precisely because he agrees with Davidson that interpretation is an art, and as such it cannot be explained. Perhaps it belongs to the realm of mystery! Criticizing Davidson’s program, Chomsky claims that a theory of intepretation is a theory of everything. But then Chomsky’s theory cannot explain the trivial fact that we do understand each other (at least to a certain degree). Moreover, despite the many passages where Chomsky explicitly refuses dualism, his resistance claiming that it is not possible to access theoretically the realm of interpretation, seems to support dualism. We shall argue that here lies Davidson’s great contribution: his notion of Radical Interpretation gives a better framework against which Chomsky’s program may achieve an “explanation” for, a “theory” (an art) of, interpretation. The Theory of Radical Interpretation is a theory of “mind”, anomalous nomism, which avoids dualism without falling into reducionisms. So Davidson’s program gives to Chomsky’s a better view for language in use, and for the body/mind problem.

Such a movement is possible only if Davidson’s project incorporates Chomsky’s internal organ, the Faculty of Language. I don’t think there is any obstacle here. A radical interpreter is a human being, endeavoured with a language organ. Moreover, it seems quite clear that Davidson’s program must explain some of Chomsky’s challenges, in particular those linked to language acquisition and the poverty of stimulus argument (Pietroski’s paper). So, incorporating Chomsky, Davidson’s program gets a better explanation for language.

If this is so, then the notion of a Chomskyan Radical Interpreter, a hybrid, is not only coherent in both frameworks, but also necessary.


Michel Paty
Paris 7
Le rationnel est-il structuré mathématiquement?

Nous nous proposons de reprendre la question, récurrente au long de l’histoire de la philosophie, du rapport entre le rationnel et les mathématiques, en nous demandant dans quelle mesure la structuration du rationnel, qui assure l’unité de sa fonction sous une diversité de formes (et même selon une évolution de ces formes), est homéomorphe à celle de la pensée mathématique, prise dans son mouvement et concrétisée dans ses théories. Cette idée, que l’on peut cerner chez Descartes aussi bien que chez Kant, Poincaré ou Einstein (et quelques autres), peut être inventoriée à propos des connaissances scientifiques contemporaines, mais aussi de manière plus générale en suivant l’histoire des sciences et de leurs équivalents dans la diversité des cultures, selon leur extension dans le temps et dans l’espace. On ne fera ici, bien entendu, qu’esquisser quelques attendus philosophiques d’un tel programme de recherche.


Makmiller Pedroso
UnB
Giovanni Queiroz
UFPB-JP
O Monismo é uma Tese Compulsória?

Em Mental Events, Davidson se compromete com a tese de que qualquer relação causal pode ser descrita por leis estritas. Portanto, segue-se desta tese e da rejeição de leis psicológicas que nada pode se relacionar causalmente com o mundo físico sem também possuir uma descrição física. Nesse sentido, Davidson defendeu uma imagem de natureza onde tudo que existe é físico. Como Davidson, uma grande parte da literatura envolvida no debate sobre causação mental aceita como ponto de partida a verdade do monismo. Sob essa perspectiva, se estamos prontos a descartar uma postura eliminativista ou behaviorista sobre a mente, uma teoria da identidade entre o mental e o físico passa a ser a única alternativa disponível para solucionar o problema mente-corpo.

Apesar das complicações enfrentadas por uma concepção monista da mente, os seus adeptos sustentam que rejeitá-la nos leva a problemas ainda mais profundos. Em particular, afirmar que estados mentais não são físicos parece nos contar muito pouco sobre a natureza do mental. Aliás, faltaria ainda explicar que características os eventos não-físicos compartilham entre si. E, mesmo se pudermos fornecer tal explicação, o monista insistiria que propô-la multiplicaria as entidades desnecessariamente.

O interesse central desse artigo é problematizar esses dois tipos de crítica às abordagens não-monistas da causação. Será sugerido que não está claro que, se entendermos o mental como não-físico, ele passará a ser algo mais misterioso ou mesmo inconsistente do que se o entendêssemos como instanciado por processos físicos. De fato, motivar uma alternativa não-monista por meio da idéia de que a mente é uma substância distinta da substância física nos leva a diversas complicações. Pois, um dualismo de substâncias, ao estilo de Descartes, sugere uma concepção de mente incompatível com as teses:

(1) a mente precisa do físico para existir;

(2) a individuação de eventos mentais depende da configuração do mundo físico.

Todavia, o dualismo de substância não é a única alternativa ao monismo. Podemos descartar a idéia de que a mente é uma substância e passar a entendê-la como sendo um conjunto de propriedades distintas das propriedades físicas. Feito isso, não existirá nenhum problema em compatibilizar o dualismo com (1) e (2).

Por sua vez, aparentemente é falsa a crença de que as propriedades mentais precisam ser identificadas às propriedades físicas para serem precisamente entendidas. Aliás, as propriedades mentais são tão acessíveis quanto as propriedades físicas. Em outros termos, somos tão capazes de perceber objetos físicos, através dos sentidos, como também de interpretar nossas mentes e as mentes de outras pessoas. O que se distingue é apenas a forma de acesso.

Além disso, sustentar a existência de algo não-físico não parece ser um exercício de multiplicação desnecessária de entidades, uma vez que a noção de identidade exigida para compreendermos o mental como sendo físico é muito problemática. Portanto, a incoerência da existência de propriedades não-físicas não é algo que podemos concluir imediatamente.


Luis Alberto Peluso
CLE/UNICAMP
O Utilitarismo de Bentham na avaliação de Mill

Com este texto se pretende argumentar que o texto “Bentham” escrito por John Stuart Mill é uma obra que pode ser relevante para aqueles que estão interessados em conhecer a autobiografia intelectual e psicológica de seu autor. Entretanto, ela fracassa em atingir dois dos objetivos a que se propõe. Assim, não consegue apontar, com isenção, o lugar que Bentham teria ocupado na história do pensamento humano. Na visão de Mill, o pensamento de Bentham padecia de um “moralismo” exacerbado, na medida em que afirmava que o aspecto moral, com seu apelo à razão e à consciência, era a única consideração possível das ações. Conforme a avaliação de Mill, faltava à visão de Bentham a consideração dos aspéctos estéticos, com seu apelo à imaginação e o aspecto simpático com seu apelo ao sentimento humanitário em relação ao próximo. Aqui se sugere que, a consideração de aspectos estéticos e simpáticos impede Mill de avaliar com precisão os pontos em que se afasta do mestre cuja obra ele avalia. O texto “Bentham” de Mill fracassa ainda em oferecer uma idéia clara dos pontos em que sua interpretação do utilitarismo se distancia das posições de Bentham.

Entretanto, o texto “Bentham” de Mill permite ao leitor iniciar-se nas tensões que supostamente existem entre um utilitarismo forte, expresso nas posições racionalistas de Bentham, e a tentativa de resgatar o papel da imaginação e dos sentimentos na definição dos conceitos morais, tentada por Mill.


Diana I. Pérez
UBA
Is Thought without Language Possible?

Davidson (1975, 1982) defends the view that only those creatures who can speak a language, those who can linguistically communicate to their fellows, can have thoughts. In the first part of this paper I will examine Davidson’s arguments for this thesis. Then I will consider in detail two aspects of this problem. First, the epistemological question about the relation between beliefs, perception and justification. In this context, I will analyse his defence of a coherence theory of knowledge (Davidson 1983) and his rejection of the “myth of the subjective” (Davidson 1988). Second, I will discuss the very idea of thought without language on the light of recent claims about the possibility of attributing thoughts to nonliguistic creatures (such as animals and infants) on the one hand, and about the origins of conceptual contents on the other. I will contrasts these theories to Davidson’s explanation about the “emergence” of thought. (Davidson 1997).

Davidson, D. (1975) “Thought and Talk”, reprinted in Davidson (1980) Inquiries into Truth and Interpretation, OUP.
Davidson, D. (1982) “Rational Animals”, reprinted in Davidson (2001) Subjective, Intersubjective, Objective, OUP.
Davidson, D. (1983) “A Coherence Theory of Truth and Knowledge”, reprinted in Davidson (2001) Subjective, Intersubjective, Objective, OUP.
Davidson, D. (1988) “The Myth of the subjective”, reprinted in Davidson (2001) Subjective, Intersubjective, Objective, OUP.
Davidson (1997) “The emergence of thought”, reprinted in Davidson (2001) Subjective, Intersubjective, Objective, OUP.


Ernesto Perini
UFMG
Pensamentos dependentes de objeto e triangulação

Pensamentos dependentes de objetos são aqueles que só podem ser expressos e, de maneira mais básica, pensados, se o objeto visado existe. A idéia que tais pensamentos são fundamentais para o contato com o real deriva da exigência russelliana segundo a qual só podemos apreender uma proposição se estamos em contato direto (immediate acquaintance) com todos seus componentes; pensamentos dependentes de objetos são a aplicação desta exigência a proposições singulares. Este princípio foi adotado, num quadro neo-fregeano, por Gareth Evans e John McDowell : modos de apresentação podem ser dependentes de objeto. Evans diz assim que “information-based particular-thoughts” têm dois aspectos, por um lado, as informações devem derivar do objeto visado, por outro, o sujeito deve identificar o objeto em questão (Evans The Varieties of Reference, 138). A compatibilidade desta tese com as idéias davidsonianas sobre a linguagem não é evidente, mesmo se Evans e, sobretudo, McDowell, fizeram parte do caminho para mostrar como uma teoria davidsoniana da linguagem pode aceitar termos singulares dependentes de objeto. A teoria da interpretação davidsoniana parece contudo pouco compatível com esta exigência: para se captar o ponto de vista do agente, parece melhor abrir mão da exigência russelliana – ou pelo menos enfraquecê-la, tornando-a uma dependência para pensamentos singulares em geral, mas não para ocorrências específicas (como o faz Akeel Bilgrami em Belief and Meaning). Parece-me que é possível retomar este debate a partir da idéia que existem contextos interpretativos, atividades coordenadas que só podem se desenrolar se o objeto ao qual uma determinada expressão faz referência é o objeto comum da atenção de dois ou mais interlocutores, e portanto existe. Se a importância de interações nas quais se busca uma atenção coordenada ao mesmo objeto (joint attention) parece próxima da teoria davidsoniana da triangulação, não é certo que ela seja tão facilmente assumida no quadro davidsoniano, tanto nos que se chama “teoria davidsoniana da linguagem”, quanto numa certa compreensão da sua teoria da interpretação. Meu propósito é o de mostrar como é possível pensar, a partir da tese da triangulação, que existem interações lingüísticas que são “dependentes de objeto”, mesmo se não é certo que elas possam ser captadas em axiomas que forneceriam uma teoria cujo conhecimento seria suficiente para o conhecimento de uma dada língua, i.e., uma teoria davidsoniana. O que parece ser interessante destacar é menos a exigência russelliana que diz respeito à elucidação estrutura do pensamento humano, do que o funcionamento intersubjetivo de práticas de se referir a um objeto. É possível assumir, dentro de um quadro davidsoniano, expressões dependentes de objetos? Quais seriam estas expressões? Qual o interesse da aceitação de tais expressões? A resposta a esta pergunta depende, em parte, da explicitação de diferentes explananda aos quais uma teoria da linguagem ou do pensamento deve responder, e daqueles aos quais as teorias davidsonianas da linguagem e da interpretação são sensíveis.


Danilo Persch
UNEMAT
O Problema da justificação moral em Habermas e Tugendhat: Razão versus Religião

Nosso ponto de partida para abordar a questão da justificação moral em Habermas e Tugendhat será o paradigma cartesiano. Isso porque entendemos que as idéias racionalistas de Descartes provocaram mudanças na cultura e na sociedade e, nesta perspectiva, no que se refere à filosofia prática, surge a exigência de uma justificação racional das normas morais. A racionalidade moderna também tem relação com o aspecto da autonomia (independência) do indivíduo em relação ao querer viver moralmente, ou melhor, o sujeito é considerado o senhor de sua escolha. Nesse sentido, o agir moral tem relação com os interesses de cada um (próprios). Se é assim, em última instância, depende sempre do indivíduo o querer (ou não querer) viver moralmente. Estes aspectos estão implícitos nas teorias morais de Habermas e Tugendhat. Para eles, a palavra justificação (Begründung) tem o significado de “razão”, ou seja, justificar uma moral significa dar “razões” aos indivíduos para que estes queiram viver moralmente. Feitas estas considerações iniciais, analisaremos, num segundo e terceiro momentos, as argumentações de Habermas e Tugendhat em favor de uma justificação racional de normas morais. Tentaremos compreender, nestas partes, por que para os dois filósofos a religião (católica), a partir da modernidade, não pode mais servir de parâmetro para considerarmos o que é moralmente certo e errado, bom e ruim.


Osvaldo Pessoa Jr.
USP
Cálculo de Probabilidades em um Modelo Causal da História da Ciência

O objetivo deste trabalho é investigar a maneira mais adequada de representar numericamente as probabilidades envolvidas em um modelo causal de um episódio da história da ciência. Como exemplo, examinamos o início da ciência do magnetismo, “explicando” – de maneira probabilista, em termos de um único modelo causal – porque o campo avançou na China mas não na Europa (a diferença residiria em diferentes probabilidades prévias de certas manifestações culturais). Dado o número de anos entre o surgimento de dois avanços X e Y ligados causalmente, propõe-se um critério para estipular o valor pY/X da probabilidade condicional de o avanço Y ocorrer, dado X. Isso é feito supondo que função cumulativa de probabilidade pY/X(t) é a integral temporal de uma função de distribuição exponencial, exatamente como é feito na física de decaimentos radioativos. Investigamos como calcular as funções cumulativas de probabilidade para mais de dois eventos, levando em consideração a composição, disjunção e conjunção de causas. Com essas regras de cálculo, computamos as probabilidades de se descobrir uma forma rudimentar de bússola magnética na China e na Europa. Finalizada essa investigação, passamos a estudar os problemas oriundos da suposição de que o surgimento de eventos no tempo seguem uma distribuição exponencial, problemas esses que são conseqüência do fato de que uma composição de causas, conforme definidas acima, não segue uma distribuição exponencial.


Bruno Pettersen
UFMG
Davidson e Quine na Epistemologia

A epistemologia de Davidson é desenvolvida em reação ao texto de Quine “Epistemology Naturalized”. Davidson na sua epistemologia, irá assumir a naturalização mas recusará o empirismo de Quine. Esse artigo visará explicar como Davidson propõe sua epistemologia e como Quine responderia às objeções de Davidson. Este artigo terá três seções, tratando os seguintes argumentos:

Na primeira seção, o artigo central de Davidson estudado será o “Meaning, Truth and Evidence”.1 Nesse artigo Davidson indica que há duas teorias acerca da evidência, uma proximal e outra distal. A teoria proximal faz a evidência depender de indivíduos singulares; tese esta que faz Davidson a reconhecer como fundamentalmente cartesiana. Davidson afirma que essa posição é a de Quine, sendo que tal tese surge da aceitação de Quine da divisão entre conteúdo e esquema. Para evitar a posição cartesiana, Davidson irá sugerir uma teoria distal acerca da evidência, caracterizada deste modo: “The distal theory, (...), depends primarily on shared causes which are sailent for speaker and interpreter, learner and teacher”.2 Esse tipo de teoria recusará o empirismo, por que a evidência não dependerá mais de indivíduos singulares, mas sim de uma relação entre os indivíduos e o mundo, colocando assim, a evidência fora do sujeito.

Na segunda seção, o artigo estudado será o “Epistemology Externalized”,3 onde Davidson irá propor, a partir das críticas acima, uma nova versão da epistemologia. Ela será, em continuidade com Quine, naturalista e evolucionista,4 mas se afastará de Quine ao ser uma teoria distal. Essa tese será aqui posta por Davidson como um externalismo perceptual tendo na sua base o importante argumento da triangulação. Segundo Davidson, é só realmente com essa posição externalista que se evita a tese cartesiana na epistemologia.

Na terceira seção, irei investigar como Quine poderia responder às teses de Davidson, me concentrando nos seguintes argumentos: primeiro, Davidson classificará a posição de Quine como proximal por causa de sua avaliação das sentenças observacionais de Quine. Contudo, mostrarei que a avaliação de Davidson foi parcial por que não reconheceu a importância da noção de intersubjetividade, que é essencial na formação das sentenças observacionais. Segundo, mostrarei que a posição de Quine, ao contrário do que Davidson pensa, consegue evitar a tese cartesiana e o ceticismo. Terceiro, irei levantar conforme Quine pensa5 que há mais proximidade entre a posição dele e Davidson, do que Davidson sugere.

[1] Davidson. “Meaning, Truth and Evidence” In: Perspectives on Quine. Editors: GIBSON, R. BARRET, R. Cambridge: Basil Blackwell. 1990. pgs 68 a 79.
[2] Op. Cit., pg 73.
[3] Davidson. “Epistemology Externalized”. In: Subjective, Intersubjective, Objective. Oxford University Press. Pgs. 193 a 204.
[4] Op. Cit., pg. 202.
[5] Quine. Comment on Davidson. In: Perspectives on Quine. Editors: GIBSON, R. BARRET, R. Cambridge: Basil Blackwell. 1990. pg 80.


Paul M. Pietroski
Maryland
Radical Interpreters and Impoverished Data

According to Davidson, a theory of truth for a natural language is an adequate theory of meaning if it meets certain conditions that can be described in terms of idealized theorists who impose certain constraints on their inquiry. But semantic theories should describe and explain the semantic facts, whatever those turn out to be. And there are many interesting explananda—including “negative” facts concerning ways in which word-strings are unambiguous—that “Radical Interpreters” would fail to explain (and perhaps fail to notice). Correlatively, children do not acquire semantic competence by generalizing from experience characterized without recourse to substantive linguistic notions. So semanticists should not pretend that natural languages are acquirable by Radical Interpreters. We should intead adopt Chomsky’s idealization: natural languages are possible states of a human language faculty; where each state is an I-language that (recursively) associates signals of a certain sort with interpretations of some kind, in accordance with constraints that reflect the nature of the faculty. One can hypothesize that for each I-language L, there is a truth-theory that (can serve as the core of a theory that) describes and explains the semantic facts concerning L. But a Chomskyan perspective undercuts at least some reasons for thinking that there are theories of truth for natural languages. And I will indicate some reasons for skepticism. These reasons suggest that Davidson may have been right to link truth-conditional semantics with his conception of theoretical adequacy. So we may need to revise both aspects of Davidson’s view, in order to preserve his insights.


André Porto
UFG
Where do they disagree? Most everywhere!

Apesar de implícita, é uma concepção muito popular e difundida da história do conceito de “interpretação radical” a idéia de que, a despeito de ter sido introduzido por Quine, teria cabido a Davidson o mérito de tê-lo tornado a base para uma filosofia inteira externalista que incluiria uma nova concepção de “mente”, uma nova epistemologia e uma nova semântica geral. Além desse papel de continuador, Davidson teria também expurgado a proposta inicial de Quine de uma série de resquícios negativos, notadamente o seu “behaviorismo”.

Alguns elementos dessa visão histórica são verdadeiros. Davidson realmente teve o mérito de perceber o imenso alcance do insight semântico de Quine – a semântica atributiva ou triangular – e assim procurar extrair as suas conseqüências para vários ramos da filosofia, especialmente para a teoria da mente. Porém, segundo o que defenderemos, Davidson está longe ter sido um “pupilo exemplar”. O filósofo de Berkeley é responsável por uma lastimável deformação e redução do alcance da proposta original de seu colega de Harvard.

Em meio a alguns expurgos merecidos, Davidson rejeitou, nada mais nada menos, do que o próprio resultado fundamental que Quine desejava demonstrar: a separação entre conteúdos sentenciais acessíveis transcendentemente daqueles acessíveis apenas imanentemente. Ou seja, em uma outra formulação favorita de Quine, Davidson rejeita a distinção entre conteúdos invariantes sob a tradução radical, daqueles conteúdos “paroquiais”, i.e., dependentes das “hipóteses analíticas”.

Como procuraremos defender, essa recusa de Davidson não é fortuita. A distinção entre conteúdos transcendentais e imanentes era apenas a peça-chave para o real objetivo de Quine: uma grande crítica a qualquer semântica gramatical – composicionalista – ao estilo, por exemplo, da semântica de Tarski. Daí a insistência do filósofo de Berkeley em aceitar o insight atributivo, mas recusar sua conseqüência fundamental: a distinção imanente/transcendente. A aceitação desse corolário por Davidson o levaria a ter de criticar sua própria proposta semântica, sua teoria “Tarski de pernas para o ar”.

As conseqüências dessa recusa de Davidson determinam uma grande redução do âmbito da proposta defendida por Quine. Ao invés de ter como oponente prioritário a semântica composicionalista (de inspiração platônica), Davidson restringe sua crítica para o combate ao mentalismo (de inspiração cartesiana).


Charles Alexandre Porto
UFSC
Dennett e a postura intencional

Segundo Daniel Dennett, podemos adotar três tipos de postura para se entender – explicar e predizer – o comportamento (ou funcionamento) de um organismo ou estrutura: a postura física (physical stance), a postura de projeto (design stance) e a postura intencional (intentional stance). A estratégia básica da postura física consiste em interpretar o comportamento ou funcionamento de uma estrutura qualquer com base no conhecimento que dispomos das leis físicas e de suas propriedades – o método padrão das ciências físicas. A postura de projeto consiste em predizer o comportamento de qualquer estrutura com base em seu projeto geral. Já a estratégia básica da postura intencional – que segue o modelo da psicologia popular (folk psychology) – consiste em atribuir racionalidade à estrutura, isto é, concebe-la como um agente racional. Isto é feito à medida que lhe atribuímos estados mentais (crenças, desejos, intenções, entre outros). As estruturas cujo comportamento pode ser entendido a partir da postura intencional são chamadas por Dennett de sistemas intencionais (intentional system). As explicações com base na postura física são mais seguras do que as explicações com base na postura física e na postura de projeto. Sua elaboração, entretanto, é mais tediosa, uma vez que é maior o número de variáveis envolvidas. As explicações com base na postura de projeto são mais econômicas do que as explicações físicas, considerando apenas o projeto geral da estrutura em questão, sem que seja necessário estar atento aos detalhes de suas especificações – indispensáveis às explicações de postura física, diga-se de passagem. Por outro lado, elas envolvem mais riscos, já que as explicações de projeto envolvem muitas hipóteses adicionais. À medida que a estrutura aumenta em complexidade, como quando passamos da explicação da queda de uma pedra em direção ao solo (postura física) ou da explicação do funcionamento de uma calculadora (postura de projeto) para a explicação do funcionamento do cérebro humano ou de um computador enxadrista, tanto a segurança da postura física quanto a economia da postura de projeto se mostram inadequadas. De fato, em se tratando de estruturas cuja constituição e comportamento são muito complexos é quase obrigatório o uso da postura intencional. Mas, assim como a postura de projeto, também as explicações intencionais envolvem riscos. Na verdade, elas são muito mais arriscadas do que as explicações físicas e de projeto, o que se deve tanto à complexidade da estrutura em questão quanto ao maior número de hipóteses adicionais envolvidas na explicação. Contudo, tais riscos são facilmente superados pela economia e simplicidade envolvida nas explicações intencionais. Desse modo, quando comparada à postura física e à postura de projeto, a postura intencional encerra um poderoso atalho lingüístico para explicar e predizer o comportamento (ou funcionamento) de certas estruturas. Pois bem, o objetivo do presente estudo consiste em apresentar a teoria dos sistemas intencionais de Daniel Dennett, especialmente a noção de postura intencional, e analisar se os três níveis de explicação supramencionados são redutíveis entre si, procurando mostrar que o emprego de um vocabulário intencional é indispensável para o estudo do comportamento de certas estruturas.


Giovanni Queiroz
UFPB-JP
Sobre uma sugestão de Davidson

Segundo Jaegown Kim, o primeiro filósofo a introduzir o conceito de superveniência nas discussões acerca do problema mente-corpo foi Donald Davidson [5]. Através deste conceito, Davidson pretende dar uma explicação possível de como se dá uma interação entre o mental e o físico – que ele sustenta – sem se comprometer com a redução preconizada pelo materialismo clássico. Em defesa de suas teses, Davidson sugere que pensemos nas relações que ocorrem entre a semântica e a sintaxe formais que são, segundo ele, um exemplo claro da relação de superveniência [2].

Após uma breve motivação de algumas idéias de Davidson [1] [3], apresentamos as formulações do filósofo para o conceito de superveniência [4] e examinamos a aplicação deste conceito às relações entre semântica e sintaxe.

Davidson afirma que os predicados semânticos são supervenientes sobre predicados sintáticos e que havia já dado um exemplo interessante: o predicado verdade para uma dada linguagem, não pode distinguir sentenças que não sejam distinguidas em termos puramente sintáticos. O exemplo a que ele se refere se encontra em “Mental Events” [2]. Em verdade, o exemplo de Davidson diz respeito à não redução da semântica formal à sintaxe, mais do que diz respeito à superveniência.

Nós apresentaremos um método geral para a demonstração de correção e completude de teorias formalizadas, quaisquer, mostrando como relacionar o conceito de ser demonstrável (que é sintático) com o conceito de ser válido (que é semântico). Para nós, o conceito de ser válido diz respeito, apenas, ao fato de uma determinada fórmula pertencer a um determinado conjunto [6].

Ao final da exposição pretendemos sustentar:

1. Há uma covariação entre a abordagem sintática e a abordagem semântica; a modificação sintática de determinado sistema formal implica modificação na abordagem semântica; obviamente, pode-se dar a mesma abordagem semântica para sistemas formais distintos do ponto de vista sintático – basta pensar nas diversas formulações do cálculo proposicional clássico (que se revelam, após análise, equivalentes).

2. Não é possível reduzir conceitos semânticos a conceitos sintáticos – e exemplo de Davidson, acerca do predicado “ser verdadeiro” é muito feliz. Outros exemplos podem ser lembrados – o de “ser definível” [7].

3. Mas é possível que uma variação numa interpretação modifique propriedades sintáticas. Apresentaremos um exemplo desse tipo. Dado um certo reticulado, induzido por uma determinada maneira de definir o que seja um objeto desse reticulado, ao se interpretar o que seja um complemento de um objeto do reticulado, têm-se duas situações: se o complemento é interpretado de forma “liberal’, permitindo-se que seja “completado o subgrafo” para que satisfaça uma exigência da definição, tem-se, do ponto de vista sintático, uma determinada lógica (em verdade, uma lógica paraconsistente); se, ao invés disso, assumindo-se uma postura “mais exigente”, descartando-se o sub-grafo “problemático”, tem-se, por conseqüência, do ponto de vista sintático, uma outra lógica (intuicionista).

4. Assim, parece que não se sustenta a direção única da sintaxe para a semântica. As relações entre sintaxe e semântica não podem ser pensadas como sendo a semântica superveniente à sintaxe.


Eduardo Rabossi
UBAi
Radical Translation among Moral Agents


Jaime Rebello
UFRGS
A Forma lógica de atribuições de atitudes proposicionais

Qual a forma lógica de sentenças atribuindo atitudes proposicionais? Desde que Russell cunhou a expressão “atitude proposicional” este problema tem ocupado a atenção de filósofos, e de lingüistas também. O próprio Russell ocupou-se intensamente com o problema e desenvolveu diferentes teorias a respeito, mas a despeito do esforço de Russell e de muitos que o sucederam o problema permanece aberto.

A tendência dominante na Literatura tem sido a de interpretar sentenças atribuindo atitudes proposicionais como sentenças relacionais. Atendo-nos ao caso paradigmático das crenças, como foi feito pela maioria dos autores, (inclusive Russell) podemos dizer que segundo esta análise crenças são relações entre um sujeito e uma outra entidade em geral tomada como uma proposição. Um caso típico desta análise é a Semântica Intensional de Montague. Para Montague uma crença é uma relação entre um sujeito e a intensão de uma sentença declarativa (que é uma proposição).

Não há dúvida de que tal análise é atraente sob vários aspectos. Em primeiro lugar, ela combina com a forma gramatical das sentenças envolvidas. Em segundo, ela parece dar conta de maneira razoavelmente satisfatória de vários aspectos de nosso discurso sobre crenças. Claro, alguns problemas permanecem abertos, entre eles a não-substitutividade, em tais contextos, de sentenças com a mesma intensão. Donald Davidson é um dos que oferecem uma solução para tal problema. Mas seja essa dificuldade solúvel ou não, o principal problema da concepção relacional é que ela contraria nossas intuições. Nossa intuição parece ser de que quando fazemos a atribuição de uma crença, atribuímos uma propriedade a um sujeito. Ter uma crença particular parece ser uma propriedade (psicológica) de uma pessoa. Mas se nossas intuições estão certas a esse respeito, e crenças têm o estatuto ontológico de propriedades, então a análise relacional deve estar errada, por que lógica e ontologia não podem trilhar caminhos divergentes.

Acontece que a análise segundo a qual crenças são predicados monádicos também enfrenta sérios problemas como tem sido apontado por alguns autores (Jerry Fodor, por exemplo). De qualquer forma valeria a pena explorar a possibilidade de interpretar crenças como predicados monádicos. Talvez os problemas com esta concepção não sejam tão sérios como podem parecer a primeira vista. É isto o que se pretende fazer ao final desta discussão.


Regina André Rebollo
USP
A estrutura lógica do diagnóstico hipocrático

A presente comunicação visa apresentar e comentar os elementos que compõem a estrutura do diagnóstico médico relatada nos tratados que compõem o Corpus hippocraticum. Ao receber o doente em sua oficina (iatreion) ou visitá-lo em casa, o médico hipocrático segue, com maior ou menor rigidez, um modelo de conduta técnica e ética previamente estabelecidos. O encontro médico-paciente, o qual encerra o ato clínico propriamente dito, tem por objetivo conhecer o doente e sua doença, para se estabelecer um programa terapêutico. Diagnosticar para os médicos do Corpus Hippocraticum é reconhecer a doença, identificá-la. O verbo diagignoskó pode ser traduzido por “discernir”, “distinguir” ou ainda por “conhecer reconhecendo”. Nesse sentido, o diagnóstico hipocrático é fundamentalmente uma atividade sensorial-cognitiva cuja estrutura lógica pode ser conhecida. Resumidamente, os elementos dessa estrutura são os seguintes: em primeiro lugar, o médico hipocrático verifica se o aspecto ou a aparência do paciente pode ser caracterizado como morboso, isto é, se a physis do paciente está alterada pela physis da doença; em seguida, o médico analisa a natureza dessa alteração, se ela pertence a uma necessidade forçosa (ananké) ou é ocasional (týché); após os dois primeiros passos, o médico busca estabelecer o “logos da doença” partindo de uma leitura constituída de quatro elementos: o aspecto ou a aparência do doente e da doença (katástasis, trópos, idéè); a consistência real do caso; a ordenação no tempo e a causa etiológica.

Os recursos utilizados pelo médico hipocrático são os sentidos (aísthèsis), a inteligência (nous, diánoia, gnómé, sýnesis, phrónésis) e as mãos (kheir). No Sobre a dieta lemos que com os olhos, o ouvido, o nariz, a língua, a boca, o tato e as vias do pneuma [o hálito], o médico chega ao conhecimento da doença. Por exemplo, a partir dos sentidos o médico percebe e distingue na physis os três aspectos do doente e da doença: o aspecto ocasional (katástasis), o modo ou aspecto típico (trópos) e o aspecto específico (eidos, idéè). O aspecto ocasional é a aparência ou aquilo que é fornecido aos sentidos num dado momento como, por exemplo, o ambiente que circunda o doente e a doença (ano, estação, moradia, cidade etc.), a manifestação aparente das diversas doenças e o aspecto observável do corpo humano e de suas partes num dado momento. O aspecto habitual típico, quer de uma doença, do corpo ou de suas partes, é o seu modo ou o procedimento habitual de ser. Aquilo que está previsto ser de tal modo. Em terceiro lugar, o aspecto específico é a maneira particular e única de um ser ou fenômeno tais como a forma específica de cada espécie animal; a forma humana determinada pelo esqueleto ósseo, os tipos constitucionais humanos determinados pela origem geográfica, como o europeu, asiático etc.; os tipos vigorosos ou fracos; o saudável e a doença, modos ou formas de adoecimento e o aspecto próprio de cada um dos humores, dos alimentos e das doenças etc.

A obtenção do diagnóstico permite ao médico hipocrático a elaboração do prognóstico, num certo sentido, verdadeira demonstração de um saber especializado e prova de maestria e controle da doença.


Anna Carolina P. Regner
UNISINOS
Figuras de Linguagem como ‘modos de conceber’: persuasão no âmago do esforço argumentativo

Na história do papel atribuído às figuras de linguagem, a tradição dominante cristalizou seu estudo caracterizando-as como recursos de estilo, pertencentes ao âmbito estrito da Retórica, ornamentos dispensáveis em nome da precisão de linguagem. O tema da retórica, por sua vez, à luz dos estudos mais recentes (como os de Marcelo Dascal, Marcello Pera, Philip Kitcher, entre outros) vai além de um interesse literário, trespassando a borda de campos filosóficos diversos, incluindo aqueles que se ocupam de precisão argumentativa, de formação categorial e das relações entre interesses, decisões e ações na comunicação humana. Nesta apresentação, pretendo expor brevemente a história do percurso epistemológico das figuras de linguagem e discutir suas implicações para a racionalidade da argumentação, focalizando algumas das análises mais recentes do tema e, em particular, da metáfora como processo e produto cognitivo, em abordagens que vão de Anthony Richards, Max Black, Paul Ricouer a George Lakoff e Sam Glucksberg & Boaz Keysar, incluindo uma visão crítica da abordagem de Donald Davidson em “What metaphors mean”. Essa discussão levará a uma reavaliação das usuais distinções entre narrativa e argumento, persuasão e demonstração no âmbito da racionalidade por excelência, a da racionalidade científica, tomando a Origem das Espécies de Charles Darwin como estudo de caso, colocando a persuasão no âmago do esforço argumentativo.


Sílvio C. M. Ribeiro
UFG
Possibilidade e determinismo em Wittgenstein: o exemplo da máquina simbólica

O presente trabalho pretende discutir a abordagem das noções de possibilidade e determinismo expostos nos parágrafos 193 a 195 das Investigações Filosóficas. Nestes parágrafos, Wittgenstein discute a relação entre determinismo e possibilidade nas afirmações sobre o funcionamento de uma máquina enquanto projeto ou plano e enquanto algo real dado no espaço e no tempo. Wittgenstein irá questionar o modo determinista de compreender o funcionamento da máquina. Ora, tendo em vista que a máquina é dada no espaço e no tempo, e que o passado não determina necessariamente o futuro, o funcionamento futuro dela não é necessário, mas possível. Por outro lado, a possibilidade de movimento pode ser compreendida como estando sempre presente na máquina real. Tal compreensão é problemática, pois implica que o futuro movimento já esteja presente na máquina real e, por conseguinte, que há possibilidades atuais – o que configura um verdadeiro paradoxo. Buscaremos mostrar que para Wittgenstein a máquina simbólica ou máquina-projeto seria a regra que estabeleceria um critério de avaliação do funcionamento da máquina real e que de alguma forma a possibilidade está vinculada a uma regra.


Jack Ritchie
Univ. College, Dublin
On the Very Idea of Anomalous Monism.

The paper explores a tension between two of Davidson’s most famous papers: “Mental Events” (hereafter ME) and “On Very Idea of a Conceptual Scheme” (hereafter OVICS). ME attempts to reconcile the nomological character of the physical, the anomalousness of the mental and monism. Davidson achieves this by claiming that every token mental event is identical to some token physical event. However, there are no laws or (type-type) connections between the mental and the physical. ME describes a universe in which there is a single ontology of events but two irreducible ways of describing those events – a physical way and a mental way.

OVICS argues against what Davidson calls the third dogma of empiricism, the scheme-content distinction. A conceptual scheme is identified with a language (or a set of intertranslatable languages). Conceptual schemes count as different if it is impossible to translate from one scheme to another. Davidson considers two ways in which advocates of conceptual schemes try to make sense of their claims. A conceptual scheme is a way of systematising or organising or fitting the world. Alternatively, a conceptual scheme is a way of organising and fitting the stream of experience (and so different conceptual schemes are different ways of so organising or fitting).

Here’s the problem: if the arguments against the first sort of scheme-content dualism are good, then they would seem to undermine the claims of Mental Events since that describes a universe in which something neutral in the world (namely events) is organised by two different vocabularies. On the other hand, if Davidson can defend his claim that these two different vocabularies organise the same thing and yet cannot be translated one into the other then there seem to be viable kinds of scheme-content dualism. An obvious response is to claim that OVICS identifies a conceptual scheme with a language, whereas the mental and physical vocabulary are parts of one and the same language; hence the arguments of OVICS do not apply to ME. I argue that such a response is inadequate. The reasons Davidson offers for thinking that two languages which share an ontology must be intertranslatable apply equally well to parts of a language. Moreover, a version of Kuhn’s claims about incommensurable paradigms (one of the targets of OVICS) can be charitably reconstructed so that it is structurally similar to the claims Davidson makes about the mental and the physical vocabulary in ME. The original dilemma holds. If the arguments of OVICS are good, then there is something wrong with ME. If ME can be defended, then there are viable versions of scheme-content dualism and the incommensurability that goes with it.

I end the paper by briefly discussing some reasons for thinking that the mental-physical contrast is special in some way and so can’t be lumped together with other instances of scheme-content dualism. I consider first Davidson’s claim that anything which counts as a language must employ both mental and physical concepts. This I argue can be accepted without having any implications for ontology or the in principle reducibility of the mental to the physical. Second I consider the claim as carefully elaborated by Bjorn Ramberg that the mental and physical vocabularies serve different ends for us. The point of physics talk is to capture things under laws; the point of mental talk is to capture events under the pattern of rationality (or more broadly the principle of charity) Accepting such a view does not alleviate our problems. A kind of incommensurability again looks possible, if different vocabularies can be manufactured which serve different ends. Also if the mental and physical vocabulary are essentially geared towards different interests what reason do we have for thinking that they will converge on the same ontology, as ME requires? I suggest that in light of the strangeness of quantum theory we should see this worry as more than merely hypothetical.

The lesson is, I claim, that we should reject Davidson’s account of causation and events. Davidson claims that in his work that the concept of causation is a unifying hinge which stops the world dissolving into a diptych of the mental and the physical. But the notion of cause and event which is supposed to play this unifying role is mysterious; a fact that should be recognised by Davidson himself given what he says in OVICS. Better to accept our myriad way of talking about events and causation within the many sciences and common-sense. Without the prop of a unified view of causation there is no threat of disintegration. Clearly our many vocabularies overlap. Mental events cause physical events; that much we know already. Just as quantum mechanics plays a role in our understanding of chemistry. The proper task is to investigate and describe those overlaps.


Raffaella De Rosa
Rutgers
Prinz’s Problematic Proxytypes

In his book Furnishing the Mind, Jesse Prinz defends a novel theory of concepts that he calls “proxytype theory”.1 Proxytypes are long-term memory networks of perceptual representations that get their intentional content through nomological relations with their causes. The novelty of proxytypes consists in their hybrid nature since they combine the best features of non-atomistic theories of concepts (such as prototype theory) with the best features of informational atomism. Prinz’s claim is that the hybrid character of proxytypes allows proxytype theory to explain the cognitive and intentional contents of concepts better than any current theory.

In this paper I argue that the hybrid nature of proxytypes that is supposed to be the source of all the advantages of Prinz’s theory is instead the source of all its troubles. The key to understanding Prinz’s proxytypes is to comprehend how the part of the theory that identifies concepts with internally structured detecting mechanisms relates to the informational component of the theory. I argue that there are at least four possible ways of understanding this relation but each generates a problem.

The Over-determination Problem. If according to Prinz concepts are internally structured mechanisms that determine intentional content and concepts are in nomological relations with their object at the same time, then Prinz’s theory of intentional content is over-determined since what concepts refer to is determined both by the structure of the concepts and nomological/causal relations.

The Magic Harmony Problem. If Prinz’s suggestions is that the intrinsic and extrinsic intentionality-conferring factors operate in sync (thereby avoiding over-determination), then an explanation of this harmony that doesn’t simply invoke magic is in high demand. Prinz suggests that the harmony results from the fact that “real contents exert normative control over proxytypes. Proxytypes transform because they are designed to help us track real contents” (Prinz (2002), 282). But this answer is unsatisfactory because although an appeal to teleology might explain harmony Prinz clearly denies that his semantic theory is teleological.

The Non-trivial constraint Problem. Another possible way of understanding the harmony between the intrinsic and extrinsic intentionality-conferring factors is by claiming that that real contents put non-trivial constraints on nominal contents. However, this suggestion reintroduces the need of a fixed proxytype (or a set of necessary properties a concept must be associated with in order to be said to refer to a certain object). But Prinz himself denies that proxytypes associated with concepts remain fixed.

The Tracking Problem. Finally, another way of understanding the harmony is by claiming that proxytypes mediate the referential relation by tracking the object. But if this is the way in which Prinz understands the harmony then there is no substantial difference between his proxytype theory and Fodor’s informational semantics.

I conclude that the problems raised above generate a dilemma for Prinz’s overall project. Either proxytype theory is a novel theory according to which an intrinsic component and a nomological relation jointly determine intentional content, and hence, Prinz’s theory doesn’t meet his own desiderata. Or Prinz’s theory meets the relevant desiderata; but Prinz does not get to have the theory he wants, viz., a novel theory that differs from informational semantics.

[1] J. Prinz, Furnishing the Mind. Concepts and their Conceptual Basis, MIT Press, 2002.


Luiz Paulo Rouanet
PUCCAMP/S. Marcos
Ética ambiental e a questão da irreversibilidade

O mundo está chegando a um ponto de não retorno em relação ao aquecimento global. Isto tem como efeito mudanças também irreversíveis no clima, vegetação, fauna e povoamento humano. Dados recentes mostram que nem mesmo a adesão ao Protocolo de Kyoto é suficiente para deter esse processo. Diante dessa iminente catástrofe ambiental, o que é possível fazer para reduzir ou minimizar seus efeitos? Constata-se que o ativismo ambiental chegou a um impasse, não sendo mais capaz de mobilizar ou conscientizar as pessoas para o risco do consumo desenfreado de matérias-primas, da emissão de poluentes e outros comportamentos de risco para o meio-ambiente. É preciso, então, radicalizar o movimento. Discutirei, neste texto, as possibilidades e limites desse novo ativismo ambiental, entendido em sentido amplo a fim de incluir o conceito de “desenvolvimento sustentável”.


Luiz Felipe Netto de Andrade e Silva Sahd
UFU
A justiça como titularidade: Nozick leitor de Locke

Robert Nozick apóia sua “Entitlement Theory” da justiça sobre o princípio libertário segundo o qual nenhum bem social pode justificar jamais o sacrifício dos direitos de um indivíduo. Conseqüentemente, é preciso situar sua teoria da propriedade sobre o mesmo princípio: nada pode limitar o uso da propriedade adquirida mediante justos títulos. Mas esta lógica libertária termina por voltar-se contra o libertarianismo e justificar o capitalismo selvagem: a acumulação “titulada” da propriedade conduz diretamente à acumulação capitalista e sua conseguinte imposição das condições de trabalho aos demais, convertendo-se em meios ou recursos para seus fins. É justamente o que J. H. Reiman denomina “falácia do capitalismo libertário”. A falácia é produzida na assimilação direta que faz Nozick da propriedade à liberdade sem precaver-se da ambivalência da primeira: um mínimo de propriedade é uma condição para a liberdade, mas uma propriedade sem limites nem condições se converte – historicamente – numa restrição para a liberdade dos demais. A questão dos títulos legítimos é pertinente para resolver os aspectos legais, mas não resolve a variante moral da propriedade; por isso, Locke apresenta sua célebre “proviso”, justamente para sublinhar os limites morais da propriedade. Nozick, tão literalmente lockeano ao longo de sua obra, compreende mal Locke neste ponto crucial. De fato, Locke faz da propriedade a sustentação de uma liberdade efetiva e não meramente postulada, mas acrescenta o “proviso” para destacar o primado da liberdade, incluindo a dos demais: uma propriedade que atenta contra a liberdade real dos outros carece de legitimidade. Com isso, Locke se mostra inteiramente consistente: se a justificação da propriedade está no seu papel de fundamento da liberdade efetiva, no momento em que se transforma na sua base passa a ser a sua ameaça, inclusive quando se trata da liberdade dos demais, e perde a sua legitimidade. Este mal-entendido tem um valor sintomático indubitável: revela que, em última instância, a teoria de Nozick termina por ser uma justificação ética do capitalismo selvagem e que seu apelo a Locke e aos ideais libertários não passa de uma hábil manobra, se não uma simples cortina de fumaça.


Erikson Cristiano dos Santos
USP
Diferenças sobre a causação e a idéia de conexão necessária em David Hume

O caráter disposicional de força, poder e energia são discutidos por Hume como conceitos que esclareceriam o debate sobre causação presente na sua época, e de certa forma foi um modo de responder a Locke, autor de Os Ensaios sobre o Entendimento Humano. Também seria uma resposta ao trabalho de Newton, dos Principia. Porém, apesar de Hume ter sido formado por professores seguidores de Newton, parece ter confundido o conceito de idéia de conexão necessária como discutido pelos filósofos naturais da sua época, apresentando uma alternativa distinta de seus contemporâneos.

Jacovides (2003), aponta que Hume pensaria estar falando sobre a mesma coisa que os físicos do início do século XVIII, mas estes naquela época não estariam discutindo sobre uma noção disposicional de poder, tal como a propriedade do fogo derreter a cera, pois esse sim, seria o sentido da idéia de conexão necessária em Hume. A disputa estaria entre o significado da causação física e a metafísica ou filosófica.

Além disso, esta apresentação esclarecerá o sentido dado por Hume ao conceito de causação e da idéia de conexão necessária como distintos e, portanto, não sendo passíveis de serem confundidos como alguns comentadores interpretaram de forma enganosa. É possível observar os enganos sobre os dois conceitos quando se investiga a discussão iniciada por Winkler (1991) com o debate sobre o “Novo Hume”. Também será possível fazer a comparação do que de fato Hume quer dizer com seus dois conceitos – a causação e a idéia de conexão necessária – quando se busca o contexto da causação no debate do ceticismo que Hume estaria inserido, segundo Popkin (2000).


Frank T. Sautter
UFSM
A Lógica do sujeito e do predicado

A lógica do sujeito e do predicado, contraposta à lógica quantificacional tradicional, é destinada principalmente a resolver os problemas suscitados pelo argumento do estilingue (slingshot). Se aceito, esse argumento estabelece o colapso das denotações de proposições verdadeiras. Este resultado contra-intuitivo é rejeitado por Oswaldo Chateaubriand em “Logical Forms. Part I – Truth and Description”. O ataque de Chateaubriand ao argumento do estilingue apóia-se em crítica a uma reconstrução formal de uma versão deste argumento formulada por Kurt Gödel em “Russell’s Mathematical Logic”. As transições cruciais dessa reconstrução formal dependem da legitimidade de certas operações lógicas vinculadas a descrições definidas. Aqui, como em tantas outras ocasiões, uma estratégia possível é, para usar uma formulação de Ludwig Wittgenstein, “mostrar que coisas que parecem iguais são na realidade diferentes.” Chateaubriand utiliza esta estratégia da seguinte maneira. Proposições da lógica quantificacional tradicional têm diferentes leituras, cada uma das quais associada a uma diferente análise em sujeito e predicado. Essas distintas interpretações são tais que, para uma proposição da lógica quantificacional tradicional de ordem n > 0, há interpretações na lógica do sujeito e do predicado de ordem 1,..., n, n+1. Caso se aceite um tratamento homogêneo das descrições definidas nas posições de sujeito e de predicado, o argumento do estilingue parece ser irrepreensível. Por isso, quando a descrição definida ocorre na posição de sujeito, Chateaubriand aplica a ela a análise fregeana, e, quando a descrição definida ocorre na posição de predicado, ele aplica a ela a análise russelliana. Isso, associado à possibilidade de expressões não-lógicas que não denotam e ao realismo de Chateaubriand que vincula verdade e denotação de estados de coisas, vai permitir que se distingam diferentes relações de conseqüência lógica – clássica, vero-funcional e denotacional – com as quais é possível bloquear a interpretação usual do resultado do argumento do estilingue e, ao mesmo tempo, fornecer uma nova interpretação deste resultado, uma interpretação que honra a atração que o argumento exerceu sobre filósofos da estatura de Gottlob Frege, Alonzo Church e Donald Davidson.

Vou, neste trabalho, explorar alguns aspectos filosóficos e técnicos desta lógica do sujeito e do predicado. Vou, entre outros aspectos, discutir:


Jaison Schinaider
UFSC
Verdade Empírica

O problema da verdade é um dos temas centrais em filosofia, sendo um dos que têm suscitado grandes discussões e produção bibliográfica, além de ser de suma importância em particular para filosofia da ciência, para epistemologia e para a lógica. Como se sabe, há várias teorias da verdade, mas essas teorias (correspondência, coerência, redundância, pragmática, etc.) não consideram diretamente uma característica muito intrigante da física a nível experimental, que são os erros de medida encontrados em qualquer procedimento empírico e com os quais o cientista tem que conviver no laboratório. De certa forma, a cada magnitude física b medida em laboratório, associa-se um intervalo a - eba + e de ‘valores possíveis’ (ou aceitáveis) para a medida de b, que dependem de um parâmetro e que expressa o ‘erro de medida’ ou a imprecisão do aparelho. Um dos resultados mais interessantes relacionados a esse conceito é que uma lei física como F = ma, quando aplicada a um sistema físico s, pode ser tal que as quantidades medidas de força, massa e aceleração (devido aos intervalos considerados como aceitáveis para cada uma dessas magnitudes) pode acarretar que se encontrem valores (todos aceitáveis como medidas da força, massa e aceleração), f1, m1, a1 e f2, m2, a2 (dentro de cada intervalo respectivo) tais que f1 = m1a1 mas f2 ¹ m2a2. Deste modo, F = ma será (para o sistema s adequadamente descrito) tanto ‘empiricamente verdadeira’ quanto ‘empiricamente falsa’. No entanto, obviamente não se pode ter que F = ma Ù F ¹ ma, pois uma contradição nunca se verifica experimentalmente para um mesmo sistema físico adequadamente considerado. A tentativa de se inserir em um mesmo quadro conceitual tanto a teoria física como as possíveis imprecisões de medida (ou seja, a experiência com seus erros), que conduzem a este estranho comportamento associado aos valores de medida encontráveis em laboratório, é uma das finalidades do conceito de verdade empírica, proposto por Dalla Chiara e Toraldo di Francia [2], [3], o qual permite aproximar bastante a ciência (ou seja, as construções científicas) daquilo que realmente realiza o cientista no laboratório.

Neste trabalho, é feita uma apresentação detalhada desse conceito, estuda-se a sua lógica subjacente (que é uma lógica paraconsistente) [1], e é discutida a contraparte filosófica relacionada a esse conceito de verdade, tendo em vista alguns dos outros conceitos.

Referências
[1] da Costa, N. C. A., Krause, D. and Bueno, O., ‘Paraconsistent logics and paraconsistency: technical and philosophical developments’, a aparecer em Dale Jacquette (ed.), Handbook of the philosophy of Logic, Elsevier.
[2] Dalla Chiara, M. L. and Toraldo di Francia, G., ‘Formal analysis of physical theories’, in G. Toraldo di Francia (ed.), Problems in the foundations of physics, North-Holland, 1979, 134-201.
[3] Toraldo di Francia, G., The investigation of the physical world, Cambridge Un. Press, 1982.


Gisele Dalva Secco
UFSM
Do Reino dos Fins às alternativas deônticas: um excurso semântico pela lógica deôntica

Este trabalho pretende analisar alguns passos dados pelo filósofo finlandês Jaakko Hintikka na investigação acerca da adequação da aplicabilidade das semânticas para lógicas deônticas a determinadas doutrinas da filosofia moral clássica. Debruçados sobre o artigo “Deontic Logic and its Philosophical Morals” (1969), esperamos mostrar de que modo as assim chamadas condições semânticas ou semi-semânticas às quais Hintikka pretende submeter suas noções de alternativa deôntica, sistema modelo e conjunto modelo, podem ser adaptadas a alguns dos termos fundamentais da construção do discurso kantiano acerca da moralidade. Sendo assim, e dadas de início as manobras que o autor pretende dar conta ao longo do artigo (note-se que estas operações são colocadas no intento muito geral de localizar, por meio da abordagem semântica da lógica deôntica, certas operações chave que qualquer filósofo ou simpatizante da análise filosófica poderá encontrar em seu próprio meio de investigação desde que se envolva minimamente com os procedimentos semânticos da lógica deôntica), trataremos de nos centrar na terceira destas manobras. Ela consiste em reinterpretar conceitos e doutrinas tradicionais a partir do quadro de referência resultante da análise das condições semânticas utilizadas na lógica deôntica que o autor nos apresenta. As noções kantianas das quais se serve nosso autor são as de Reino dos Fins e mundo inteligível, nas quais realiza algumas adaptações (destituindo-as de seu caráter moralizante) para que as conexões com a semântica da lógica deôntica possam se tornar acessíveis. De mesmo modo, a utilização do quadro de referência oferecido pela semântica de mundos possíveis pretende, com Hintikka, estar destituída de qualquer conotação metafísica ou leibniziana, no sentido de que de uma perspectiva lógica estes elementos melhor se comportam quando excluídos do universo de discurso em questão. Elemento de não menor importância para este tópico (da derrocada de qualquer acepção metafísica no âmbito da construção de Hintikka) é a localização e a estima concedida à noção de permissão no sistema de Hintikka em contraposição ao discurso kantiano. Para o pensador contemporâneo, ao contrário do Iluminista de Königsberg, a noção de alternativa deôntica, do modo como está colocada em sua semântica, não o permite pensar que haja apenas um mundo possível acessível ao mundo atual – algo como O Reino dos Fins kantiano – senão que a variedade dos mundos possíveis alternativos pode ser alterada de acordo com a multiplicidade das permissões existentes no sistema. Ainda assim, a apropriação da noção kantiana não fica destituída de importância, desde Hintikka acaba por conectá-la com a de mundo deonticamente perfeito – que serve de padrão para os critérios de consistência para determinadas fórmulas apresentadas. A gama de conceitos que, de acordo com Hintikka, podem ser problematizados através da utilização de noções normativas (obrigação, proibição e permissão) não se reduz ao âmbito do discurso moral. Questões a respeito da descoberta de ambigüidades intrínsecas a conceitos utilizados na linguagem comum, bem como as falácias às quais somos conduzidos ao omitir tais ambigüidades, também aparecem como pontos de sua investigação, embora não figurem centralmente no desenrolar de nosso trabalho.


Olavo Leopoldino da Silva Filho
Marc C. S. René
UnB
A Formal Model for Physical Theories

The philosophy of science has a wide variety of interests. In some cases, the very notion of how to characterize ‘science’ is the issue at stake, there being those holding prescriptive or descriptive approaches, among others (Popper 1959, Kuhn 1970, Lakatos 1978). In some other cases, from the overall agreement that some discipline should be considered ‘science’, many other details and discussions are raised, such as those related with realist, positivist or instrumentalist points of view (Laudan 1981, Worall 2000, Psillos 1994). Physics has long been one of such disciplines considered unanimously as a ‘mature’ science and much of the discussions in the philosophy of science make explicit reference to it.

However, although the overall agreement about the status of physics as a mature science, many concepts that are used in the discussions about its main features are only developed to the extent of intuitions; notions of ‘approximately true’, ‘meaning’, ‘sense’, ‘reference’, ‘heuristic principle’, ‘analogy’, to cite but a few, are generally discusses in many philosophical contexts without being given some technical (if not formal) definition. This state of affairs makes the discussions somewhat confusing, since, generally, the higher order concepts such as ‘realism’, ‘positivism’, and many others highly depend upon the way one conceives notions as ‘approximately true’ (Laudan 1981, Psillos 1994), or even on how one conceives the very process of reference (Frege 1892, Russell 1905, Kripke 1972, Putnam 1975). Thus, discussions about ‘theory choice’, ‘incommensurability’, ‘continuity of reference’ and many others may profit from a clear definition of basic concepts.

The present work aims at furnishing the definition of many basic concepts appearing in most discussions in the philosophy of science. We will try to present a formal model for physical theories that will allow us to give formal definitions of concepts like ‘meaning’, ‘sense’, ‘analogy’, ‘prediction’, ‘ad hocness’ and many others. These developments are aimed at furnishing a formal common ground for discussions about the philosophy of science that take physics as their example. In any case, the characterization that we will present should not be considered a closed package, being subject equally well to future developments, alterations, exemplifications, etc. Even in this case, it can surely furnish a fixed point of departure from which better formal characterizations may be proposed, making comparisons of such formal proposals less dependend of one’s grasp of the author’s intuitions.

In principle, the above mentioned formal characterization should not privilege one particular perspective, such as realism or instrumentalism, although it may, in the end, clarify why some perspectives could be preferable, at least when taking physics as its object. Of course, the authors do have their own perspectives and this may, at times, introduce some bias in the very definition; we sincerely hope not, but one should be aware of this possibility.

The present work represents an interplay between logic, linguistics and the philosophy and history of science.


Waldomiro José da Silva Filho
UFBA
Externalismo, interpretação e autoconhecimento

Mesmo tendo assumido uma posição explicitamente externalista, Davidson expressou várias vezes, em especial nos seus últimos escritos, que o externalismo, ao menos no modo como foi desenvolvido por Putnam, Kripke e Burge, não ofereceu uma resposta satisfatória ao desafio cético, caindo nas mesmas armadilhas que levaram o empirismo clássico e contemporâneo ao subjetivismo, ao behaviorismo ou ao relativismo. Ele, além disso, desposou uma concepção do mental que, em muitos aspectos, contraria a pauta do externalismo forte. Neste trabalho irei destacar um ponto da heterodoxia externalista de Davidson, posto que ele sustentou que não há razão para supor que estados mentais como crença e conhecimento do significado de uma palavra não podem satisfazer duas condições: (I) os eventos mentais são “internos” no sentido de que não pressupõem a existência de nenhum outro indivíduo senão o sujeito a quem se atribui esses estados mentais e (II) os eventos mentais são estados que normalmente identificamos e individuamos como crenças, significados e outras atitudes proposicionais em termos de relações com objetos e eventos distintos do sujeito.

Externalistas e internalistas, porém, são unânimes em afirmar que estados e eventos mentais não satisfazem as condicões (I) e (II). A condição (I) – eventos mentais são internos ao indivíduo – é comumente sustentada pela posição internalista posto que tende a ser ontologicamente individualista e metodologicamente solipsista, enquanto a condição (II) – eventos mentais mantém relações com o mundo externo – está associada à posição externalista forte em virtude de estabelecer a identidade e a individuação dos estados mentais de acordo com uma concepção relacional. Para muitos filósofos, mais ainda, o externalismo, por definição, ameaça a crença natural e intuitiva de que nós temos um conhecimento garantido e direto dos conteúdos dos nossos estados mentais. Mas em várias oportunidades, Davidson insistiu que o externalismo não deve estar em conflito com o “conhecimento de si”, pois é fundamental para o escopo da comunicação intersubjetiva e da refutação do ceticismo a aceitação de que quando um falante faz saber que possui uma crença, desejo ou intenção, existe uma presunção de que ele não se engana quanto a isso.

Para Davidson, a existência da autoridade da primeira pessoa não é um fato empírico, mas antes um critério, entre outros, do que é um estado mental. E dado que as bases para se atribuir um estado mental aos outros são tão diferentes das bases para se atribuir um estado mental a nós mesmos, por que deveríamos pensar que eles são o mesmo tipo de estado? Davidson acha que a resposta para este enigma é simples: devemos interpretar os pensamentos dos outros na base da evidência; interpretar a nós mesmos (salvo em casos especiais) não faz sentido: “Se as vezes nos equivocamos ou não acerca dos conteúdos de nossas próprias mentes, se podemos duvidar ou não das nossas próprias sensações e pensamentos, há algo que certamente é verdadeiro de tais crenças: não podem ser genericamente errôneas. Se pensamos que temos certos pensamentos ou sensações, há uma forte presunção de que estamos certos.” (Davidson, “Epistemology Externalized”, in: Subjective, Objective, Intersubjective, Oxford : Oxford UP, 2001, p. 193).


Luiz Henrique da Cruz Silvestrini
Hércules de Araujo Feitosa
UNESP-Bauru
Uma apresentação em tableaux para a lógica do plausível

A lógica do plausível foi introduzida em 1999 por Maria C. C. Grácio, na tese de doutorado intitulada ‘Lógicas moduladas e raciocínio sob incerteza’ (UNICAMP – IFCH), como uma particularização dos sistemas lógicos caracterizados pela inclusão de um quantificador generalizado na sintaxe da lógica clássica de predicados. Esta família é nomeada de lógicas moduladas e a interpretação semântica é dada por subconjuntos do conjunto das partes do universo.

Como uma particularização de lógica modulada, a lógica do plausível apresenta o quantificador do plausível P, o qual tem a intenção de formalizar o raciocínio indutivo caracterizado por sentenças do tipo “uma ‘boa parte’ dos indivíduos possui determinada propriedade”.

A versão original, em sistema hilbertiano, consiste do seguinte:

Ax0: Axiomas clássicos

Ax1: Pxq Ù Pxl ® Px(q Ù l)

Ax2: Pxq Ù Pxl ® Px(q Ú l)

Ax3: "xq ® Pxq

Ax4: Pxq ® $xq

Ax5: "x(q « l) ® (Pxq « Pxl)

Ax6: Pxq(x) ® Pyq(y), quando y é livre para x em q (x).

Regras de dedução: Modus Ponens e Generalização.

O sistema de tableaux da lógica do plausível introduzido neste trabalho consta das seguintes regras:

Regra P (P)

Pxq
[x/a], em que ‘a’ é uma constante nova no ramo.

Regra ØP (ØP)

ØPxq
Øq[x/a], em que ‘a’ é uma constante nova no ramo.

Regra ÙP (ÙP)

Qxq
Pxl
Px(qÙl)
Px(qÚl)

O símbolo Q denota a possibilidade de ocorrência de um dentre os dois quantificadores “universal” ou “plausível”. Se ao aplicarmos a regra (ÙP) não obtemos uma inconsistência, então devemos, para cada uma das premissas, aplicar a regra (P) ou a regra clássica ("), quando for o caso.

Observamos que quando (i) l = q ou (ii) l = Øq a regra (ÙP) não se aplica. Para l = q e Q = P, temos uma duplicidade de premissas. Agora, para l = q e Q = ", aplicamos as regras (") e (P). Para o caso (ii), quando Q = P, já temos uma cláusula de fechamento de ramo; quando Q = ", a inconsistência é obtida pela aplicação das regras (P) e (").

Regra P¹ (P¹)

Pxq
ØPxl
Ø"x(q«l).

Observamos que a regra P¹ não é aplicável quando l = q. Se após a aplicação da regra P¹ nenhuma inconsistência é estabelecida, então devemos aplicar a regra (P) ou (ØP).

Um ramo neste sistema de tableaux é fechado quando ocorre no ramo:

(i) j e Øj;

(ii) Pxq e Ø Pyq, em que y é livre para x em q(x);

(iii) Pxq e PxØq.

Este trabalho mostra a equivalência entre o sistema hilbertiano de Grácio e o sistema de tableaux introduzido acima.


Mauro Cardoso Simões
UNICAMP
O Liberalismo utilitarista de J. S. Mill e o liberalismo agonístico de Isaiah Berlin

O objetivo deste trabalho é esboçar um confronto entre duas orientações do liberalismo político: o liberalismo utilitarista de John Stuart Mill e o liberalismo agonístico de Isaiah Berlin. Dois aspectos são examinados. Um diz respeito à forma de se conceber a relação entre liberalismo e liberdade. A outra se refere à questão da compatilidade/incompatibilidade entre bens conflitantes. Por fim, tendo em vista que “todos” os liberalismos dominantes em nosso tempo possuem uma concepção de escolha racional em seu cerne, analisaremos algumas versões liberais a partir das relações contestadas entre o pluralismo de valores e o liberalismo berliniano.


Samuel Simon
UnB
Descoberta e Justificação

Após os trabalhos de R. N. Hanson e H. Simon o problema da descoberta – ou da retrodução, como prefere Simon – torna-se um problema filosófico, eliminando a separação proposta por H. Reichenbach entre “contexto de justificação” e “contexto de descoberta”. Embora alguns autores já tenham apontado as dificuldades dessa separação, o presente trabalho reexamina esse problema tomando como referência a noção de teoria científica – em não de paradigma, por exemplo – e a noção de descoberta em dois sentidos. Num primeiro sentido, a descoberta obtida a partir de uma teoria científica estabelecida e, num segundo sentido, a descoberta de uma teoria científica. Essa diferenciação parece ajudar a esclarecer o problema da descoberta e mostra que não apenas há uma relação intrínseca entre os dois contextos estabelecidos por Reichenbach, mas o próprio conceito de descoberta pode vir a ser útil para o contexto de justificação. Nesse sentido, a busca de uma lógica para a descoberta pode explicitar o aspecto normativo e suas relações com a experiência, o uso de princípios e o privilégio de certos conceitos e definições. Exemplificaremos com alguns casos da história da ciência, com ênfase na Teoria da Relatividade. Nesse caso, conceitos como o de simultaneidade e princípios como o da equivalência dos sistemas de inércia para exprimir os fenômenos da natureza, além do valor fixo para a velocidade da luz no vácuo, parecem definir a descoberta no segundo sentido.


Marco Aurélio Sousalves
UFMG
A Crítica de John MacDowell a Donald Davidson

Objetivos: (1) explicitar como Davidson articula a relação entre linguagem e mundo; (2) desenhar um mapa conceitual situando a crítica de John McDowell a Donald Davidson, buscando esclarecer quais dilemas a motivaram; e (3) fazer uma avaliação da força dos argumentos apresentados por McDowell.

Donald Davidson vê a linguagem como um todo, holisticamente organizado, que possui uma estrutura relativamente autônoma (apesar de surgir da ação humana no mundo). O mundo agiria apenas causalmente, não podendo interferir na teia linguística exercendo qualquer papel direto de justificação ou determinação discreta de conteúdo. A relação com o mundo passa a ser um dos constituintes originários do processo de interpretação ou aprendizado linguístico, não sendo possível uma linguagem que não seja sensível ao ambiente (visto como a causa comum de nossos comportamentos articulados e nossas crenças acerca da realidade).

McDowell detecta uma oscilação interminável entre duas posturas igualmente insuficientes acerca da relação entre mente e mundo: o mito do dado, de um lado, e algo como o coerentismo davidsoniano de outro. Como afirma Hilary Putnam, “o fato de Davidson ser o alvo evidente de McDowell explica grande parte da estrutura de sua argumentação”. Sensível à crítica que Wilfrid Sellars faz ao mito do dado (que veta a possibilidade de ocorrências não-conceituais, ou seja, fora do espaço lógico das razões, justificarem ou terem qualquer relação racional com nossos pensamentos), Davidson proíbe relações lógicas entre mundo e linguagem, defendendo que apenas relações causais seriam possíveis. Para McDowell, o erro de Davidson foi ter atendido apenas a uma motivação epistemológica, ignorando que existe um campo de problemas mais fundamental, que chamou de transcendental (relativo às condições para que o pensamento tenha conteúdo objetivo). Em sua crítica ao dualismo esquema/conteúdo, Davidson teria partido de um ponto argumentativo inaceitável ao separar conceitos (esquemas conceituais) de conteúdos. McDowell insiste que, para assegurarmos as condições necessárias para que o pensamento não seja vazio, precisamos de uma relação racional (ou lógica, ou interna) entre mente e mundo. Aí estaria a verdadeira força do mito do dado e do empirismo (não enquanto teses epistemológicas, mas transcendentais). Como afirma Crispin Wright, o problema do coerentismo davidsoniano é que ele não pode acomodar uma idéia satisfatória de conteúdo. A saída da oscilação estaria numa adequada clarificação transcendental, que, para McDowell, deve direcionar-se para conceitos problemáticos como o de experiência e de natureza.

Davidson acredita que seu pensamento responde adequadamente aos desafios lançados por McDowell. Ainda que sua motivação fosse epistemológica, defende-se Davidson que seu pensamento nunca foi negligente à questão transcendental. Entre aqueles que defendem Davidson, pode-se citar Robert Brandom (que acredita que Davidson provê todo constrangimento racional que a linguagem precisa, apontando em McDowell um descompasso entre seu diagnóstico e sua terapia), e Richard Rorty (que ressalta que a moral da filosofia de Davidson é exatamente a de não precisarmos mais perguntar nada diretamente ao mundo e nem por isso precisamos ter medo de perder contato com ele, acusando McDowell de ressuscitar dificuldades desnecessárias).

Pretende-se, aqui, expor sucintamente o que está em jogo e fazer um balaço crítico do debate.


Edélcio G. de Souza
Juliano Maranhão
PUC-SP
Compacidade em Estruturas Abstratas de Conseqüência

Uma estrutura de conseqüência, na formulação original de Tarski, consiste num par (X,Cn) em que X é um conjunto não vazio e Cn é um operador nas partes de X que satisfaz (reflexividade) A Í Cn(A); (idempotência) Cn(A) = Cn(Cn(A)) e (compacidade estrutural) Cn(A) = È {Cn(A’) : A’ Í A, finito}. Da compacidade estrutural segue a monotonocidade: se A Í B, então Cn(A) Í Cn(B).

Dizemos que A Í X é consistente se Cn(A) ≠ X. Pode-se mostrar que a compacidade estrutural não implica a lei de compacidade estrita, segundo a qual: se A é consistente todo subconjunto finito de A é consistente. No entanto, se a estrutura é finitamente axiomatizável, isto é, se X é tal que existe um subconjunto finito X’ Í X em que Cn(X’) = X, então temos uma condição suficiente para se obter a equivalência das noções de compacidade.

Questão 1. A condição de axiomatizabilidade finita é necessária para a equivalência das noções de compacidade?

Na demonstração da monotonicidade a partir da compacidade estrutural não se utiliza nenhuma propriedade específica da noção de finitude de conjuntos. Isso evidencia que as estruturas de conseqüência poderiam ser estabelecida em um contexto mais abstrato.

Uma estrutura abstrata de conseqüência é uma quadra (X,≤,F,c) em que (X,≤) é um reticulado completo; F é um sub-reticulado de X que contém 0 (o menor elemento de X) e c é uma função em X que satisfaz pra todo x Î X: (reflexividade) x ≤ c(x); (idempotência) c(x) = c(c(x)) e (F-compacidade) c(x) = sup{c(x’):x’≤ x e x’ Î F}.

Pode-se definir os mesmos conceitos acima com adaptações óbvias: x é consistente se c(x) ≠ x e a estrutura é F-axiomatizável se existe x Î F tal que c(x) = 1 (o maior elemento de X).

Novamente não se obtém dessa estrutura a lei de compacidade estrita: x é consistente se todo x’ ≤ x com x’ Î F é consistente.

Questão 2. É a condição de F-axiomatizabilidade necessária e suficiente para a equivalência das duas noções de compacidade?

Uma estrutura valorativa é um par (X,Val) em que X é um conjunto não vazio e Val é uma família não vazia de subconjuntos de X que não contém o próprio X.

Dado A Í X, definimos Mod(A)={V Î Val:A Í X} o conjunto dos modelos de A. Analogamente, para x Î X, Mod({a}) = Mod(a) = {V Î Val: a Î X}. Definimos, então um operador Cn nas partes de X tal que: Cn(A) = {a Î X: Mod(A) Í Mod(x)}.

É fácil mostrar que esse operador satisfaz as propriedades de reflexividade, idempotência e monotonicidade.

Questão 3. Como introduzir uma condição sobre Val de modo a se obter a compacidade estrutural?

Questão 4. Qual a relação entre compacidade estrutural e compacidade estrita nas estruturas valorativas?

Podemos, por analogia introduzir uma versão abstrata de estrutura valorativa.

Uma estrutura valorativa abstrata é uma trinca (X,≤,V) em que (X,≤) é um reticulado completo e V é um subconjunto não vazio de X que não contém 1.

As mesmas construções acima podem ser adaptadas e as mesmas questões podem ser formuladas nesse contexto mais generalizado.


Maria Cristina de Távora Sparano
UFPR
Irracionalidade: enigma da racionalidade

A filosofia da ação ocupa um lugar de metateoria em relação às teorias empíricas da ação. Além de descrever a estrutura da ação fornece recursos conceituais capazes de analisar as ações. Mais especialmente refere-se a uma problemática particular relativa ao tipo de explicação (causal ou intencional) adequada à ação. A proposta deste trabalho tem como base a tese dos eventos mentais de Donald Davidson. Utilizaremos para tanto as situações apresentadas por D. Davidson no seu texto “Paradoxos da irracionalidade” onde um evento mental pode causar outro evento mental sem ter razões para isso. Nosso objetivo é buscar identificar o sistema conceitual que permite descrever de forma adequada a estrutura ou estruturas da motivação e da ação (a maquinaria interna da ação). Outro objetivo consiste em colocar em evidência as explicações da ação. E, finalmente, esclarecer noções normativas que se relacionem às ações, principalmente a noção de racionalidade. Tentaremos a partir desses elementos colocar em paralelo duas teorias: a concepção davidsoniana e a teoria freudiana a partir de elementos teóricos e exemplos apresentados no texto tentando demonstrar que existem elos lógicos entre racionalidade e psicanálise embora, aparentemente, todos os indícios clamem contra isso. Para D. Davidson racionalidade é uma característica da mente entre outras. O problema surge quando agimos de forma incontinente ou adversamente contra nossa vontade e D. Davidson parece ter definido, com isso, um aspecto óbvio da natureza humana. Essa solução diz que as causas mentais que explicam uma ação são as razões do agente para tanto mas que muitas vezes uma lacuna pode aparecer entre dois esquemas explicativos e admite-se nesse ponto a irracionalidade. D. Davidson apresenta seus paradoxos da irracionalidade num mundo de racionalidade que para a psicanálise importa notadamente no nível da análise das neuroses. O poder do pensamento é um dos princípios da neurose e fundamento do pensamento mágico das crenças primitivas. Por outro lado, no que diz respeito à irracionalidade,a psicanálise contribui para filosofia analítica da ação explanando sobre alguns mecanismos que parecem não ser intencionais. Estes fundamentos psicológicos para a psicanálise baseiam-se na divisão do ego, na idéia de repressão, fantasia, devaneios, jogos infantis e evidentemente, na idéia de inconsciente. Executar ações contraditórias, agir contra as mais caras intenções e culpabilizar-se em seguida por isso, inibir a ação substituindo-a por pensamentos, deslocando-os, tomando-os pela realidade é tarefa cotidiana daqueles que recorrem à psicanálise. Descrever esses comportamentos, analisá-los é a função da psicanálise que busca suporte lógico para esses eventos que se apresentam como irracionais. Nesse sentido a análise do texto de D. Davidson constitui um diagnóstico teórico importante que põe em relevo alguns aspectos do inconsciente freudiano que se apresentam aparentemente como irracionais. A partir de exemplos usados no próprio texto podemos buscar na teoria freudiana e no quadro da neurose um tipo de explicação para o irracional que não se apresente somente em função das razões conscientes mas também inconscientes, onde as causas aparecem de forma dissimétrica em relação aos efeitos que causam. Evidentemente há diferenças entre uma explicação lógica e outra psicológica. Buscamos, contudo, ajuda conceitual para a descrição coerente de ações que revelem genuínas e enigmáticas formas de racionalidade.


Marciano Adilio Spica
UFSC
A Influência Hertziana na concepção de ciência de Wittgenstein

O trabalho que ora apresentamos busca fazer uma análise da concepção de ciência proposta por Wittgenstein em sua obra Tractatus Logico-Philosophicus. Tal análise, leva-nos a perceber a grande influência que a teoria do filósofo-cientista Henrich Hertz teve na obra do primeiro Wittgenstein e as conseqüências que tal influência acaba por gerar nesta obra. Para Hertz, assim como para Wittgenstein, fazemos figuração dos fatos do mundo e a ciência ocupa-se desses fatos. Wittgenstein, na obra acima citada, tenta estabelecer os limites do que pode e o que não pode ser dito com sentido. O discurso da ciência estaria dentro dos limites do discurso com sentido. Este está relacionado à possibilidade de verdade e falsidade das proposições. Para estabelecer os limites da linguagem, Wittgenstein herda de Hertz o conceito de figuração (Bild). Assim como Hertz, Wittgenstein defende que o discurso científico se usa dos modelos que fazemos da realidade. A figuração só é possível, para o autor do Tractatus, porque mundo e linguagem possuem uma forma lógica comum. Hertz, em sua obra The principles of mechanics presented in a new form, argumenta que a ciência antecipa-se à natureza. Tal antecipação é possível graças aos dados que temos em nossa consciência, tais dados estão em nossa consciência graças à nossa possibilidade de fazermos figurações para nós mesmo dos objetos externos a nós. As figurações que fazemos devem ser isomórficas com o que elas representam, esse isomorfismo entre figurado e mundo aparece também na obra de Wittgenstein. Para Wittgenstein, a ciência tem o papel de descrever os fatos do mundo. Tal descrição somente é possível porque, da mesma forma que pensava Hertz, figuramos tais fatos do mundo. Hertz chega à suas conclusões analisando os símbolos do discurso científico. Wittgenstein, por sua vez, chega ao estatuto da ciência através da análise lógica de nossa linguagem. Enquanto Hertz busca estabelecer os limites da física, Wittgenstein busca estabelecer os limites do discurso com sentido. A partir de todas essas semelhanças defendemos que a teoria de Hertz foi de grande impacto no pensamento de Wittgenstein, principalmente no que concerne à sua concepção de proposição com sentido e ciência. Ainda, as concepções hertzianas ajudam Wittgenstein a encontrar os limites da ciência e estes limites acabam por levar Wittgenstein a mostrar que ética, estética, metafísica e a filosofia como um todo não podem ser uma ciência. Em decorrência, surge uma nova tarefa para a filosofia, a saber, ela torna-se uma atividade de clarificação dos pensamentos. Enquanto isso, as proposições da ética, da estética, da religião e da metafísica são postas na esfera do místico.


Sofia Inês Albornoz Stein
UCS
Referência e Uso: duas noções excludentes?

Será abordada a relação entre o uso lingüístico de frases e a referência de palavras a objetos em Wittgenstein, Quine e Davidson. Procuraremos estabelecer semelhanças e diferenças entre as abordagens desses três autores. Em Quine encontramos uma perspectiva ainda empirista, na qual a ostensão, não propriamente de objetos, mas de situações, continua mantendo um papel central na análise do aprendizado da linguagem, porém, simultaneamente e complementarmente, Quine utiliza a noção de uso de frases para explicar a compreensão intersubjetiva dessas. Em oposição aparente a Quine, o segundo Wittgenstein sustentou a dispensabilidade da ostensão para o uso de palavras e frases na comunicação intersubjetiva. Todavia, Wittgenstein não pensava propriamente em ostensão de situações globais, mas, dentro do espírito de sua época, na ostensão de objetos, o que pode levar à uma aproximação teórica entre a visão de Quine e a dele. Davidson acompanha a crítica wittgensteiniana à possibilidade da ostensão ter um papel central para o significado lingüístico, e propõe uma teoria do significado e da verdade que dispensa a noção de referência.

Quine analisa a aquisição do domínio lingüístico de frases em contextos sociais e, para tanto, utiliza ainda a idéia empirista de estimulação das terminações nervosas dos falantes e da reação a esta estimulação por meio de determinadas frases. Entretanto, a relação social é imprescindível: não é possível aprender a reagir verbalmente em certas situações de estimulação sem aprender com os ‘outros’ como fazê-lo ‘corretamente’, ou seja, sem ‘imitar’ o uso que os outros fazem de frases em determinadas situações de estimulação. Uma diferença central entre essa visão de Quine e a proposta do segundo Wittgenstein é o discurso quiniano sobre estimulações e terminações nervosas. Em Wittgenstein, usar palavras e frases de forma apropriada corresponde a saber seguir as regras de uso delas. Apesar de ambos concordarem com relação à necessidade do aprendizado intersubjetivo, Wittgenstein não se preocupa com a maneira como são afetados os falantes pela situação em que se encontram. Mesmo assim, existe em Wittgenstein também a idéia de contexto do uso de frases, e essa idéia de contexto pode ser aproximada da idéia de situação quiniana. Davidson, por sua vez, enfatiza a dispensabilidade da suposição de qualquer referência determinada a situações ou objetos, e privilegia o domínio interno, subjetivo, de decisão acerca de significados e verdade.


Willian Steinle
Décio Krause
UFSC
Sobre o realismo estrutural ontológico

Em um artigo de 1989, J. Worrall [4] retomou um tema que, segundo ele, teve início em filosofia da ciência com os trabalhos do matemático e filósofo H. Poincaré no início do século XX. Nesse artigo, Worrall apresenta uma alternativa ao debate do realismo vs. anti-realismo, que seria o realismo estrutural (RE), segundo ele dando resposta adequada aos dois célebres argumentos que permeiam esse debate, o argumento do milagre e a meta-indução pessimista. O RE seria uma espécie de “meio termo” entre o realismo científico e o anti-realismo. A partir do trabalho de Worrall, uma grande discussão sobre o tema tem aparecido em algumas das principais revistas de filosofia. Autores como J. Ladyman [2] propõe uma versão ontológica do RE; para ele, a ontologia básica das teorias científicas deveria se centrar na idéia de estrutura: em síntese, tudo o que há são estruturas, compostas por relações sem os relacionados (‘relations without the relata’), e não objetos propriamente. No entanto, Ladyman, por várias razões, entre as quais o desejo de se manter dentro da abordagem semântica às teorias científicas e de fazer uso do conceito de quase-verdade, pretende que as teorias científicas sejam elaboradas fazendo-se uso da matemática tradicional (erigida em uma teoria usual de conjuntos). Acontece que a matemática tradicional não permite, exceto se recorrermos a alguns artifícios que em nada auxiliam a contraparte filosófica, definir relações sem que se considere os objetos que estão sendo relacionados (relações dependem de conjuntos particulares, logo, dos objetos que as partilham). Algumas tentativas de se usar a teoria de categorias (vindas do estruturalismo em matemática) têm sido levadas em conta [3], mas aí a questão do uso do conceito de quase-verdade e a própria filosofia da abordagem semântica teriam que ser revistas. Em um trabalho recente, o segundo autor propôs uma definição de estrutura que permite captar em um certo sentido preciso a idéia de que podemos ter ‘relações’ sem que se considere os específicos objetos sendo relacionados, bastando que as relações vigorem entre objetos arbitrários de uma certa espécie. Isso é feito na teoria de quase-conjuntos [1]. Aqui, exploramos os detalhes da proposta do RE ontológico, analisamos a solução sugerida via quase-conjuntos e adentramos ao tratamento categorial do problema, investigando o que da abordagem semântica e da teoria da quase-verdade deve ser adaptado para que a intuição dos proponentes do RE seja vindicada.

Referências
[1] Krause, D., ‘Structures and structural realism’, a aparecer em Logic Journal of the IGPL, Março de 2005.
[2] Ladyman, J., ‘What is Structural Realism?’, Studies in History and Philosophy of Science 29, 1998, 409-424.
[3] Landry, E., ‘Category theory as a framework for an in re interpretation of mathematical structuralism’, a aparecer.
[4] Worrall, J., ‘Structural Realism: The Best of Both Worlds?’ (1989), reimpresso em Papineau, D. (ed.) The Philosophy of Science, Oxford: Oxford University Press, 1996.


Gilmar E. Szczpanik
UFSC
A iniciação científica como forma de aprender a ver o mundo

Kuhn foi um dos primeiros pensadores vinculados à Filosofia da Ciência a ressaltar a importância que a iniciação científica desempenha na preparação dos aprendizes para uma prática científica coletiva. Porém, esse tema ficou, em grande parte, ofuscado em suas obras pelas grandes polêmicas enfrentadas por esse autor, principalmente aquelas vinculadas ao problema da incomensurabilidade das teorias, ao problema das revoluções científicas, às discussões sobre relativismo, subjetivismo e irracionalismo. A educação científica apresenta-se como um instrumento que busca claramente maximizar o consenso em uma comunidade científica e minimizar ao máximo as divergências de idéias e de concepções em tal comunidade. A educação científica passa a ser um treino rígido onde o jovem aprendiz é condicionado a solucionar os problemas de forma igual ou muito semelhante à de seus mestres. Nesse período de iniciação científica (dado junto a uma comunidade científica), os cientistas irão construir (desenvolver) um “comportamento profissional”. Falamos na construção de um “comportamento profissional”, pois os cientistas irão abandonar algumas crenças particulares que foram adquiridas através da história particular de cada profissional, como também, através das experiências de trabalhos realizadas em outras áreas de pesquisa, em nome de um consenso grupal. A iniciação científica passa a ser entendida como uma atividade que visa modelar o comportamento do aprendiz, fazendo com que ele, aos poucos, seja visto pelos demais membros da comunidade científica como mais um profissional habilitado para solucionar os problemas de determinada área. A iniciação científica transforma-se num importante instrumento capaz de transformar uma pessoa comum num profissional especializado vinculado a uma área científica.


João de F. Teixeira
UFSCari
Can there be a science of behavior? “Psychology as philosophy” thirty years later

The paper bears on an analysis of papers by Davidson about the nature of psychological knowledge, namely “Psychology as Philosophy” and “The Material Mind”. According to Davidson psychology cannot be view as a natural/experimental science since it is beset by a lack of a clear conception of behavior as well as by the impossibility of establishing predictions of human action. Behavior cannot be conceived as sheer movement nor as a phenomenon disentangled from the notions of intention and rational reconstruction.

I discuss such Davidsonian views a) in the light of Suppes’ criticisms b) new progresses of cognitive neuroscience taking as a starting point Revonsuo’s revision of the possibility of detecting neural correlates of consciousness (which would correspond to intentions, beliefs and desires preceding behavior) as a means for grounding a scientific approach to human action/behavior without the need to assume rationality as a primitive of psychological knowledge. Finally, I sketch some reflections on the fundamental question faced by psychology, namely the nature of behavior.


Carlos D. C. Tourinho
UFRJ
O problema da intencionalidade: da idéia de “objetividade imanente” na filosofia de Franz Brentano ao desafio da parte V das Investigações Lógicas de Edmund Husserl

É na obra de São Tomás de Aquino que o filósofo alemão Franz Brentano (1838-1917) busca fundamentos para reeditar a questão da intencionalidade no último quarto do século XIX. Para Tomás de Aquino, existir na natureza (esse naturale), que é como existem, para ele, as formas, é distinto de existir no pensamento (esse intentionale). Apoiando-se nesse segundo modo de existência, no qual as coisas existem no intelecto (in intellectu) enquanto “coisas pensadas”, Brentano propõe uma teoria imanentista da intencionalidade, segundo a qual o ato de ser intencional deve ser definido como “ser objetivo em sentido imanente”, o que equivale a dizer que todo ato mental contém em si algo como seu objeto. Estabelece-se uma equivalência entre o “objeto” e o “conteúdo” de um ato mental. Aqui, a noção de “conteúdo” é para ser tomada literalmente: o objeto intencional está contido no fenômeno mental como uma de suas próprias partes. A teoria de Brentano influenciaria toda uma geração de filósofos do final do século XIX, inspirando, principalmente, o movimento da fenomenologia que se desenvolveria no decorrer do século XX. Como herança do pensamento de Brentano, Edmund Husserl retém a idéia básica de que a intencionalidade é a peculiaridade da experiência de ser consciente de alguma coisa. Enquanto Brentano restringe-se em dizer simplesmente que para todo ato mental há um objeto sobre o qual o ato estará dirigido intencionalmente, Husserl concentra o foco de suas atenções sobre a “diretividade” deste ato, examinando os elementos que, no próprio ato, fazem com que a consciência seja como se fosse de um objeto. Em suas Investigações Lógicas (1900/1901), Husserl fornece-nos uma nova concepção de intencionalidade, partindo da idéia de que o “conteúdo” e o “objeto” de um ato mental nunca coincidem. Enquanto o conteúdo de um ato (ou de uma experiência intencional) encontra-se presente no próprio ato, como uma de suas partes, o objeto intencional de um ato, em qualquer circunstância, não será uma parte daquele ato, não estando, portanto, contido nele de forma imanente. Para Husserl, a relação intencional entre a consciência e seus objetos não pode ser interpretada, tal como propusera Brentano, como uma relação na qual o objeto estaria presente de forma imanente no fenômeno mental. De imediato, tal afirmação cria um desafio, para o qual a Investigação Quinta tentará nos fornecer uma resposta: como os elementos atualmente presentes em um ato mental podem capacitar esse ato à objetivar, referir ou significar alguma coisa que, por sua própria natureza, não faz parte dele, ao contrário do que se pensava na posição anterior? Todo o esforço será, então, o de buscar uma solução para o problema de como alguma coisa (um ato mental), em virtude somente de sua constituição interna (suas várias partes e momentos), pode exitosamente estabelecer uma referência à alguma outra coisa (um objeto não-imanente ao ato mental), que não seja, neste caso, nem idêntico ao ato mental, nem a qualquer de suas partes ou momentos. Eis, portanto, no que concerne a questão da intencionalidade, o desafio maior da parte V das Investigações Lógicas de Husserl.


Richard Vallée
Moncton
Conventional Implicature Revisited

The problem I want to address is the place of the semantic contribution of implicature terms (“even”, “but”) to what is expressed by a sentence. My motivations for exploring this category of expressions lacking the philosophically interesting aspect of propositional attitudes or modal operators are very simple. On the one hand these expressions are underexamined in philosophy, even if motivating strong semantic positions, like the blurring of semantics and pragmatics. On the other hand, these expressions are interesting because of their anomalous semantic behaviour: they are clearly meaningful, but are assumed not contributing to the truth conditions of sentences or utterances (Frege). I suggest a view using the Reflexive-Referential View recently proposed by Perry.


Daniel Vanderveken
Trois-Rivières
Belief and Knowledge in Propositional Logic and the Theory of Truth

Unlike Davidson I think that senses and propositions are indispensable in an adequate theory of truth and interpretation. I will criticize Davidson’s reductionist approach on belief and knowledge and show its defects. In my view, beliefs are propositional attitudes. Unfortunately traditional epistemic logic developed by Hintikka and others on the basis of modal logic tends to reduce propositions to their truth conditions. However it is quite clear that propositions with the same truth conditions are not the contents of the same attitudes just as they are not the senses of synonymous sentences. So there are epistemic paradoxes in traditional epistemic logic. We need a much finer criterion of propositional identity for an adequate analysis of belief and knowledge. For that purpose I will first proceed on the basis of considerations made in my book Logic Thought & Action (Springer 2005) to a new predicative analysis of propositions taking into account acts of reference and predications that we make in expressing and understanding them. In my analysis, each proposition has a structure of constituents. It predicates attributes (properties or relations) of objects under concepts. We ignore in which possible circumstances most propositions are true because we ignore real denotations of most propositional constituents. In understanding propositions we just know that their truth in each circumstance is compatible with certain possible denotation assignments to their constituents and incompatible with others. So in my approach propositions have possible in addition to actual Carnapian truth conditions. I will explain why many strictly equivalent propositions do not have the same cognitive value.

My truth definition is concise: a proposition is true in a possible circumstance when it is true in that circumstance according to the real denotation assignment associating with all constituents their actual denotation in any circumstance. I will also proceed to a definition of the more subjective notion of truth according to an agent and I will explicate a new strong propositional implication much finer than strict implication that is known a priori. My main objective is to formulate a logic of belief that is compatible with analytic philosophy of mind and explains well to which beliefs we are committed. Human agents are not perfectly rational in my logic. So well known epistemic paradoxes do not appear. Agents need not believe all necessary truths and they can believe necessarily false propositions. However they remain minimally rational in a well determined way. They cannot believe pure contradictions and their beliefs are closed under strong rather than strict implication. I will compare my epistemic logic with others based on strict, relevant or analytic implication, entailment or intensional isomorphism. The theory is further developed in my forthcoming book Propositions, Truth and Thought.


Bruno Rafaelo Lopes Vaz
UFSM
Sobre a possibilidade de aproximação das teses de Kant e Frege sobre ‘Existência’

É comum vermos nos textos dos intérpretes de Kant e de Frege teses que ou aproximam demais ou afastam demais os pensamentos dos dois autores a respeito do conceito de ‘existência’, pode-se ver também casos em que as teses de um são forçadamente equiparadas às do outro, e vice-versa; em todos os casos isto é feito, a meu ver, de maneira apressada e descuidada. Quando Kant e Frege são vistos como próximos em suas teses, a tendência é de se negar a originalidade das teses fregeanas sobre o tema. Quando suas teses são tomadas como diferindo substancialmente, a tendência é de se atribuir a Frege uma revolução sem precedentes no tratamento deste tópico. William Forgie, no seu artigo Kant and Frege: Existence as a Second-Level Property (publicado na revista Kant-Studien, de 2000) parece seguir uma via intermediária, geralmente interpretando Kant com auxílio do instrumental fregeano. Forgie apresenta teses inovadoras e interessantes com relação à temática; no entanto muitas posições kantianas são mostradas de forma deslocada, como por exemplo a tese segundo a qual ‘existência’ não é um predicado real, que é apresentada como equivalente à tese fregeana da ‘existência’ como um predicado de segundo nível. Após fazer um quadro da argumentação dos dois autores sobre o tema, Forgie aponta problemas que ambas enfrentam na dedução de uma “tese metafísica” (a saber, a de que ‘existência’ é um predicado de segundo nível) a partir de uma “tese semântica” (a de que enunciados existenciais versam sobre a atribuição da propriedade “se aplicar a algo existente” a um conceito de objetos, no caso de Kant; ou do conceito de segundo nível “ser um conceito não-vazio” a um conceito de primeiro nível, no caso de Frege), e a seguir acena com algumas alternativas que poderiam livrar os autores destes problemas. O objetivo de meu trabalho é fazer uma reconstrução da argumentação de Forgie, ressaltando seus pontos fortes e apontando suas fraquezas. Forma parte de meu objetivo também apontar evidências de que a proposta de Forgie, apresentada ao final do artigo, não é original, uma vez que já estava contemplada de forma implícita nos textos de Frege e Kant. Por fim pretendo apresentar algumas considerações que a meu ver devem ser levadas em conta quando se trata de comparar Frege e Kant. Tais considerações procurarão mostrar que se deve ter presente a diversidade dos propósitos por trás das teorias de Kant e Frege: o primeiro sempre argumenta a partir de um viés epistemológico, apontando sempre as relações entre sujeito e objeto do conhecimento que regem as afirmações de existência; e o segundo geralmente aponta os critérios lógicos e semânticos que estão ali envolvidos. Para Kant, uma prova de existência nunca poderá prescindir da experiência, ao passo que para Frege uma tal prova nunca deverá confundir um uso de segundo nível com um uso de primeiro nível do conceito de existência. Vê-se que os autores movem-se em planos diferentes, e pretendo chamar a atenção para este fato no trabalho que desenvolverei.


Araceli Velloso
UFG
Davidson e Quine

Como é bem conhecido no meio de filosofia analítica, Quine e Davidson nem sempre constituíram um par perfeito, sempre prontos a concordarem um com o outro e se apoiarem mutuamente em suas filosofias. Apesar de discípulo e aluno dedicado, como ele próprio se denomina, Davidson entretém profundas discordâncias em relação ao seu mestre e mentor. Em minha apresentação, pretendo expor e analisar em detalhes uma discussão famosa entre os dois filósofos quanto a um tema bastante caro a Quine: que critério poderíamos utilizar para estabelecer o grau de observacionalidade de uma sentença de ocasião. Com efeito, essa discussão foi travada em diversos momentos entre os dois filósofos, tendo inclusive outros ilustres participantes, e ficou conhecida como: a questão proximal x distal.

Esse tema é de especial interesse para Quine porque são essas frases especiais que irão constituir, mais tarde, os categóricos de observação, sendo parte essencial da sua solução para viabilizar uma das suas mais polêmicas teses: o holismo semântico “moderado”. Uma solução que, num primeiro momento, consistiria em apresentar as “frases de observação” como veículos de um “conteúdo empírico não interpretado”. Por estarem mais próximas da experiência, essas frases receberiam o seu conteúdo empírico de modo direto e sem contaminação teórica. Elas seriam também as responsáveis pela introdução desse conteúdo empírico neutro no bojo de uma teoria qualquer. Muito do sucesso da posição de Quine dependeria, portanto, dessas frases serem capazes, como quer o filósofo, de manter a sua neutralidade teórica.

Com o objetivo de elucidar algumas dessas questões e de compreender melhor qual seria a versão final da noção de “frases de observação” adotada por Quine, bem como compreender a razão pela qual essa seria a melhor opção para o filósofo, irei, em primeiro lugar, expor historicamente algumas das diferentes definições que Quine dá para essas frases especiais, através dos anos, no decorrer da sua obra e no decorrer das diversas mudanças sofridas em função de reajustes que foram sendo necessários. Em seguida, apresentarei as críticas de Davidson à posição final que Quine passa a adotar, procurando analisar o peso dessa divergência na obra desses dois renomados filósofos e até que ponto cada um deles teria razão.


Ricardo Waizbort
FIOCRUZ
Jorge Luiz Borges e a natureza humana: introdução a uma leitura filosófica, literária e biológica

O objetivo desse trabalho é argumentar que em certos textos do escritor argentino Jorge Luis Borges se pode vislumbrar a representação de universais profundos do comportamento humano e que tais padrões de comportamento não podem ser satisfatoriamente equacionados se não levarmos em conta mecanismos de seleção e, em especial, a seleção natural. Para chegar a esse argumento partiremos da análise de dois textos de Borges: “A trama” e “A busca de Averróis”. Veremos como a proscrição ao assassinato, um universal do comportamento humano implícito em “A trama”, é assumida como base para o efeito desse curto relato. Ao mesmo tempo sua estrutura teleológica traz à cena a causa do assassinato e o dilema entre determinação biológica ou social, de um lado, e o livre arbítrio do outro. Por sua vez, a questão do livre arbítrio leva, do meu ponto de vista, à questão do quanto estamos aferrados aos nosso próprios conceitos ou memes.

A busca de significado para fenômenos da vida humana é um universal profundo do comportamento. Todas as culturas possuem mitos que tentam dar conta de um universo existencial cuja compreensão não está imediatamente dada. Em “A busca de Averróis”, este comentador árabe da Poética de Aristóteles tenta compreender os conceitos de tragédia e comédia sem ter acesso ao contexto histórico existencial de Aristóteles. Nesse caso, a solução do texto de Borges evoca um procedimento hermenêutico: para compreender o texto de um autor é preciso compreender seu contexto; mas para compreender tal contexto é essencial compreender o texto que tal autor escreveu. Argumento que a própria busca de significado, nesse e em outros textos de Borges, ao mesmo tempo que representa um universal do comportamento manifesta uma insuspeita semelhança com o problema da oposição entre natureza e cultura como determinantes do comportamento humano. Nesse contexto não se pode pensar na emergência de padrões de comportamento que transcendem épocas e geografias sem ter em conta o conceito de seleção natural.


Agustín Apaza Yanarico
A tese do pluralismo na filosofia da ciência

A concepção pluralista da ciência preocupa-se em entender como é possível que exista uma legítima pluralidade de pontos de vista e os critérios de avaliação epistémica, isto é, uma diversidade de maneiras corretas de conhecer o mundo e de interagir com ele, sem cair no relativismo e cepticismo. A visão pluralista contrasta com teorias da ciência que fixam algum fim como o privilegiado; por exemplo, as realistas geralmente fixam como o fim fundamental a descrição verdadeira de como é o mundo; as empiristas a obtenção de teorias empiricamente adequadas, que “salvam as aparências” e os pragmatistas, a resolução de problemas e as intervenções bem-sucedidas no mundo. O pluralista deixa aberta a possibilidade que na historia da ciência e na atividade científica contemporânea algumas vezes se perseguem tais fins e em outras circunstâncias se buscam algum outro distinto, nega a possibilidade de um único fim, e sustentam que a pluralidade – por exemplo em questões metodológicas e axiológicas (valores e fins) – é uma característica constitutiva da ciência. No presente ensaio apresentam-se algumas das teses do pluralismo que se desprendem das obras de Larry Laudan, Nicholas Rescher e são desenvolvida de forma adequada atualmente pelo mexicano León Olivé. Seguindo os argumentos de Olivé sustenta-se que a tese pluralista é coerente, capaz de dar conta da diversidade de pontos de vista na ciência, além disso, supera as visões universalistas e absolutistas sobre a racionalidade, sem cair num relativismo extremo. Além de entender melhor a ciência contemporânea, oferece os fundamentos epistemológicos apropriados para entender a problemática multicultural em muitos países do mundo e no plano global, em suas dimensões éticas, jurídicas e culturais.

Na medida que na tese pluralista se sustenta que não há uma única via legítima para a obtenção do conhecimento e no ganho de metas específicas, senão que há uma ampla variedade de caminhos legítimos, apesar de diferentes, por exemplo, o problema do progresso da ciência não poderia ser avaliado só desde uma perspectiva ou desde um conjunto de valores e fins, senão como todo os juízos epistémicos ou práticos, os juízos sobre o progresso devem ser feitos desde alguma perspectiva (ou desde estratégias como sustenta Lacey (1998)) dando lugar como resultado a avaliações diferentes, isso não implicaria cair no relativismo completo.


António Zilhão
Lisboa
The Pertinence of Incontinence

Davidson’s main insight concerning weak willed actions is that a distinction has to be drawn between conditional judgments determining what is the best action to perform on the basis of all relevant reasons and judgments that determine the action to be performed on the basis of only a subset of all the relevant reasons. Having done this distinction, Davidson proceeds to characterize weak willed action in the following way. An action is weak willed if and only if it is the outcome of a judgment that is based on only a subset of the agent’s reasons, and if, at the same time, such an action is judged by a conditional judgment based on all relevant reasons or on a larger subset of all relevant reasons, to be worse than some other alternative action. That is, the weak willed agent is an agent that neglects or does not attend to a relevantly important part of his own beliefs. This is what turns his action into an irrational action. However, he does attend to some of them. This is what makes it an intentional action.

The situation in which the weak willed agent finds himself in is, according to Davidson, similar to the situation in which an inductive reasoner finds himself in when violating Carnap’s requirement of total evidence. Note that such a requirement is a directive regulating sound inductive reasoning but is not itself a rule of inductive reasoning. Therefore no contradiction is involved in violating it. The analogon of such a requirement in the domain of practical reasoning is called by Davidson the “principle of continence”. This principle urges the agent to perform the action judged best on the basis of all available relevant reasons. A weak willed action is thus an action done in a way such that the agent violates this principle.

On the face of it, Davidson’s standpoint seems to be able to avoid the drawbacks that bedevil other causal accounts of weak willed action. In particular, his account satisfies two essential desiderata: it is not made to depend on an inability to avoid seeking immediate gratification; and it does not prevent the weak willed agent from being able to see how to act in accordance with his own best judgment. Thus, Davidson’s view on weak willed action seems to be able to accommodate within the causal approach to belief-desire action-explanation the possibility that agents perform such actions.

However, cases of weakness of the will are supposed to be defined in terms of a perceived contrast with normal, rational, action. Rational action is, in turn, supposed to be continent. But Davidson’s view of continent action is a view according to which, before acting, the agent should exhaustively search through the whole of his belief set in order to make sure that all relevant reasons are appropriately weighed and taken into account in forming his own best judgment. This is pure unbounded rationality! His theory of continent action is thus not psychologically plausible. This, in turn, means that we cease to have any term of comparison by reference to which it makes sense to classify Davidsonian weak willed action as, in fact, weak willed.

In my paper I’ll try to salvage the concept of weak willed action from the shipwreck that hit Davidson’s theory of continent action. I’ll thus try to develop an account of weak willed action that, besides satisfying the two desiderata mentioned above, does not fall prey to an utterly implausible theory of continent action. In order to do so, I’ll draw on some ideas put forth by the theory of fast and frugal heuristics first introduced by Gigerenzer and Todd.


Flávio Miguel de Oliveira Zimmermann
UFSC
O Círculo Cartesiano

Descartes é geralmente considerado o fundador da filosofia moderna por ter aceitado o desafio da dúvida cética e por julgar ter conseguido resolver a controvérsia tão debatida em seu tempo. A máxima esboçada no “cogito ergo sum” foi a maior prova do uso adequado da razão contra a incerteza filosófica levada ao mais alto grau. Mas, ao invés de trazer conforto às mentes aflitas pelo conhecimento certo e verdadeiro, a certeza cartesiana acabou tendo que se defrontar, desde o tempo em que foi elaborada, com inúmeros adversários e opositores. O propósito deste trabalho é o de apresentar uma das principais críticas de caráter filosófico à expressão cartesiana elaborada por diversos autores, tais como Arnauld, Mersenne e David Hume, e que ficou muito conhecida como “círculo cartesiano”. Em linhas, gerais, a suposta incoerência resulta da afirmação do autor das Meditações ao estabelecer que (1) tudo o que percebemos clara e distintamente é verdadeiro porque Deus existe e não tem intenção de nos iludir, e, em outra parte, assegurar que (2) Deus existe e não é enganador porque podemos conceber tal verdade clara e distintamente. Descartes tentou provar a existência e a bondade divinas por meio de percepções claras e distintas, mas a garantia de que tais percepções são confiáveis deveria provir da bondade divina! Ele não poderia manter ambas as proposições (1) e (2) ao mesmo tempo; seria necessário que uma delas se instituísse como ponto de partida na argumentação. Se sua filosofia não for capaz de proporcionar razões suficientes para isso, corre o risco de estar cometendo a falácia conhecida como raciocínio circular ou petição de princípio. Antes de condenar todo o projeto cartesiano a tal equívoco, porém, seria apropriado tentar reconstituir os argumentos do autor sobre o problema e procurar fornecer uma explanação que possa ser adequada ao método da dúvida. Várias tentativas deste tipo foram empreendidas. O presente trabalho descreve as mais importantes, que podem ser resumidas em três linhas gerais: a garantia mnemônica, a garantia da regra de verdade e a garantia epistêmica e psicológica. Ainda que procurem livrar-se da célebre objeção enfatizando pontos importantes da obra cartesiana, o presente estudo apresenta inconsistências textuais e filosóficas nas leituras expostas pelos intérpretes, estabelecendo, contudo, a terceira representação como mais adequada para responder o impasse. Muito embora entre em conflito com trechos fundamentais da obra cartesiana, a defesa psicológica adota uma leitura moderna, incorporando uma visão peculiar da dúvida, provavelmente contrária à do cético tradicional, mas capaz de encontrar a sua própria solução, enquanto firmada na natureza do sujeito.