Jornal
de Hoje 1ª Edição, Ano I, n.º 289, Natal (RN), p. 2-
2, 4 de Maio de 2006
O Tempo e a Felicidade
Tassos
Lycurgo
Não adianta chorar, espernear,
querer que seja diferente: um, dois, três e pronto, o dia acaba, vem logo outro e, assim, nesta frenética sucessividade que não espera
ninguém, fazem-se os menores fatos históricos. Fatos históricos pequenos
são os que não serão história, mas esquecimento, pois
logo o futuro veste a roupa do presente e está lá, em pé à porta, pronto para
entrar e, quando menos esperamos, lá está ele novamente, despido e transmudado
em passado. O passado que nada custa e vai logo embora sem nem tocar a
campainha, sendo não mais que aquela memória estranha em algum lugar do recheio
de nossa cabeça.
Agora e mais outras vezes, alguém tristemente
toma o café da manhã; daqui a bem pouco, o momento será o de nem saber direito
o que comeu no desjejum e antes mesmo que se lembre, a pergunta já é outra e
nunca mais precisará se lembrar disso. É que o passado passou, com toda a força
antipleonástica dessa frase. Daqui a mais um pouco, a pessoa vai ler algum dos
clássicos e, antes de pegar o livro, os quinze minutos em frente dos programas
televisivos da tarde duram quatro horas e já é hora de comer aquele pãozinho
quente que seria, se aqui fosse outro, obrigatório no chá das cinco.
Mundo estranho. Tempo estranho.
Não entendemos quase nada, de forma que, de tudo, podemos desde sempre adiantar
o resumo da ópera: dia novo, velhas perguntas, nenhuma resposta. Fato é que, a
cada dia, mais um ciclo se fecha, pelo menos psicologicamente. Daí, vêm logo a
alegria de uns e a decepção de outros. Estes, de semblantes mais profundos,
sentem o desapontamento porque os seus mundos individuais não mudaram muito naquelas
vinte e quatro horas e dois pratos de feijão. Passa o tempo e tudo continua o
mesmo: como fora, como era, como é, como será...
Nietzsche, no parágrafo 341 de A Gaia Ciência,
pergunta aos homens se eles seriam capazes de querer reviver eternamente tudo o
que já passaram. Quase ninguém responde sinceramente que sim. Muitos — e muitos
aqui são realmente muitos — detestam a própria vida, de forma que tudo, para
eles, se resume a um misto de tédio e sofrimento. Aqui ou acolá, essas pessoas
voltam-se para si e engrenam a mesma assertiva: quando acontecer isso — quando
eu conseguir isso — quando me derem isso — quando eu ganhar isso — tudo será
diferente. Que nada! Ninguém conserta a vida apenas em longo prazo, nem em
prestações. Talvez aqui esteja o problema.
A vida é hoje e, para quem
enfrenta com seriedade o problema do descontentamento com a sua existência, todo
o infinito está neste segundo. Condicionar a vida a eventos futuros, antes de
ser um planejamento para se ser feliz, é sintoma da infelicidade. Assim como a
pessoa tem febre porque está doente e não fica doente porque tem febre; ninguém
se tornará feliz apenas se algo acontecer, mas as coisas repletas de felicidade
acontecerão quando se já é feliz.
Parece — e apenas parece (não pode
haver resquícios de pretensão neste campo!) — que ser feliz é o primeiro passo
e não a conseqüência de atitudes que um ou outro venha a ter. Será que é muito
grave dizer isso? Sinceramente, não sei, mas quem sabe? Grave ou não grave,
parece verdadeiro e é, antes de tudo, um desafio. Assim, aos que hoje estão
infelizes em suas vidas, se é que é permitido sugerir algo, aí vai uma enorme
bola de fogo, capaz de destruir montanhas e pedregulhos no caminho: sejam
felizes, simplesmente.