
Histórico e
Apresentação |
Escrito por: Maria do Socorro de Souza Torres. Confissões de um cego Nasci como uma criança qualquer, cercada de expectativas. Meu pai estava feliz e minha mãe cheia de sonhos. Assim como planejaram meu pequeno enxoval, planejaram também meu futuro. Sem dúvida eu seria um grande homem. Daria a eles prazer e alegria e eles me cercariam de amor. Eu passava de colo em colo, de mão em mão e, de beijo em beijo eu conseguia arrancar exclamações de orgulho e risadas de prazer. Até que a verdade veio a tona. Inesperadamente os meus olhos começaram a ficar azulados e as minhas córneas tornaram-se maiores. A claridade me incomodava. Eu sentia dores e chorava. A minha mãe também chorava e o meu pai ficava horas em silencio, pensativo. Ele já não sorria e não me mostrava mais aos seus amigos. Eles fizeram tudo o que podiam, tudo o que sabiam, recolheram em seus corações todas as esperanças do mundo, mas o diagnóstico final e imutável era o mesmo e caiu como um raio sobre suas cabeças: eu era uma criança cega! Eu seria um rapaz cego, um homem cego, uma pessoa cega. E foi como uma pessoa cega que me fizeram crescer. Todos tinham medo que eu tropeçasse, caísse, me machucasse. Me ajudavam em tudo. Nada me deixavam fazer sozinho. Me tratavam com piedade, ignoravam minha sexualidade e faziam todas as minha vontades. Acabaram-se os projetos, os planos, os sonhos. Rompeu-se aquela torrente gostosa de orgulho e satisfação por eu ter nascido. Os meus olhos foram removidos numa cirurgia e não havia dinheiro para uma prótese, de forma que a minha aparência não era muito boa e os beijos diminuíram ainda mais. Os nossos amigos não sabiam como ajudar porque qualquer palavra de consolo parecia banal. Meu pai começou a beber e a minha mãe chorava pelos cantos, até que nasceu outra criança, e mais outra, e eu fui mais ou menos esquecido. Todos me tratavam com complacência. Dispensavam minha peraltices, me deixavam fora das brincadeiras e jogos. Não havia disciplina, não havia represálias, não havia perspectivas, não havia passeios, não havia escolas, não havia futuro. Com o tempo eu fui me encaixando no lugar de pessoa deficiente. Me via como uma pessoa anormal, até que, um dia, eu cheguei a conclusão de que, nem uma pessoa eu tinha conseguido ser. Os complexos tomavam conta de mim. Era isolado, fechado em minha tristeza e inutilidade. Tinha medo de fazer amigos, medo de namorar, de amar, medo de viver... Pensava em como seria o mar, as flores, as árvores, as estrelas, mas eu tinha medo de sair de casa, de ser visto. Eu sentia que havia alguma coisa dentro de mim que não me deixava desistir; que me lembrava a todo instante que nem tudo estava perdido, que tinha uma saída. Foi essa força intima que Deus colocou no ser humano que deu olhos a minha alma. Foi a necessidade de ser alguém, que me deu a direção. Tudo aconteceu muito rápido. Começou com uma pequena escola especial para cegos. Lá eu aprendi o sistema Braille e, em seis meses eu já lia e escrevia bastante. Aprendi tanta coisa! Trabalhei duro na minha reabilitação e descobri que os olhos podem até ser a janela da alma, mas eu tinha à frente muitas portas abertas! Percebi que as flores eram belas ao sentir seu perfume e maciez. Me abraçava ao tronco das árvores e sentia sua força e grandeza. E o mar? Ah, o mar! Que imenso e ilimitado que era! E as estrelas tão distantes e resplandecentes! Havia muita coisa no mundo que eu não entendia, mas sabia que o Deus infinito e maravilhoso havia criado tudo com perfeição Ate eu! Sim, por que eu era uma pessoa saudável! Eu não era um erro da natureza! Eu tinha uma missão a cumprir! Tinha uma vida inteira pela frente e era grato aos céus por ter descoberto isso. O mundo era lindo. A vida era boa. Eu tinha os outros sentidos perfeitos. Eu podia trabalhar, sorrir, amar... Finalmente eu estava feliz porque sabia que era parte da sociedade, do mundo. Eu sabia que era uma pessoa completa! Professora Maria
do Socorro de Souza Torres. Tel. 6421660 94517993.
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