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DEPOIMENTOS


De: Prof. Marcos Antonio da Silva

Escrito por: Maria do Socorro de Souza Torres.


Confissões de um cego

Nasci como uma criança qualquer, cercada de expectativas. Meu pai estava feliz e minha mãe cheia de sonhos. Assim como planejaram meu pequeno enxoval, planejaram também meu futuro. Sem dúvida eu seria um grande homem. Daria a eles prazer e alegria e eles me cercariam de amor.

Eu passava de colo em colo, de mão em mão e, de beijo em beijo eu conseguia arrancar exclamações de orgulho e risadas de prazer. Até que a verdade veio a tona.

Inesperadamente os meus olhos começaram a ficar azulados e as minhas córneas tornaram-se maiores. A claridade me incomodava. Eu sentia dores e chorava. A minha mãe também chorava e o meu pai ficava horas em silencio, pensativo. Ele já não sorria e não me mostrava mais aos seus amigos. Eles fizeram tudo o que podiam, tudo o que sabiam, recolheram em seus corações todas as esperanças do mundo, mas o diagnóstico final e imutável era o mesmo e caiu como um raio sobre suas cabeças: eu era uma criança cega! Eu seria um rapaz cego, um homem cego, uma pessoa cega.

E foi como uma pessoa cega que me fizeram crescer. Todos tinham medo que eu tropeçasse, caísse, me machucasse. Me ajudavam em tudo. Nada me deixavam fazer sozinho. Me tratavam com piedade, ignoravam minha sexualidade e faziam todas as minha vontades.

Acabaram-se os projetos, os planos, os sonhos. Rompeu-se aquela torrente gostosa de orgulho e satisfação por eu ter nascido. Os meus olhos foram removidos numa cirurgia e não havia dinheiro para uma prótese, de forma que a minha aparência não era muito boa e os beijos diminuíram ainda mais.

Os nossos amigos não sabiam como ajudar porque qualquer palavra de consolo parecia banal. Meu pai começou a beber e a minha mãe chorava pelos cantos, até que nasceu outra criança, e mais outra, e eu fui mais ou menos esquecido.

Todos me tratavam com complacência. Dispensavam minha peraltices, me deixavam fora das brincadeiras e jogos. Não havia disciplina, não havia represálias, não havia perspectivas, não havia passeios, não havia escolas, não havia futuro.

Com o tempo eu fui me encaixando no lugar de pessoa deficiente. Me via como uma pessoa anormal, até que, um dia, eu cheguei a conclusão de que, nem uma pessoa eu tinha conseguido ser.

Os complexos tomavam conta de mim. Era isolado, fechado em minha tristeza e inutilidade. Tinha medo de fazer amigos, medo de namorar, de amar, medo de viver...

Pensava em como seria o mar, as flores, as árvores, as estrelas, mas eu tinha medo de sair de casa, de ser visto.

Eu sentia que havia alguma coisa dentro de mim que não me deixava desistir; que me lembrava a todo instante que nem tudo estava perdido, que tinha uma saída. Foi essa força intima que Deus colocou no ser humano que deu olhos a minha alma. Foi a necessidade de ser alguém, que me deu a direção.

Tudo aconteceu muito rápido. Começou com uma pequena escola especial para cegos. Lá eu aprendi o sistema Braille e, em seis meses eu já lia e escrevia bastante. Aprendi tanta coisa! Trabalhei duro na minha reabilitação e descobri que os olhos podem até ser a janela da alma, mas eu tinha à frente muitas portas abertas! Percebi que as flores eram belas ao sentir seu perfume e maciez. Me abraçava ao tronco das árvores e sentia sua força e grandeza. E o mar? Ah, o mar! Que imenso e ilimitado que era! E as estrelas tão distantes e resplandecentes!

Havia muita coisa no mundo que eu não entendia, mas sabia que o Deus infinito e maravilhoso havia criado tudo com perfeição – Ate eu! Sim, por que eu era uma pessoa saudável! Eu não era um erro da natureza! Eu tinha uma missão a cumprir! Tinha uma vida inteira pela frente e era grato aos céus por ter descoberto isso. O mundo era lindo. A vida era boa. Eu tinha os outros sentidos perfeitos. Eu podia trabalhar, sorrir, amar...

Finalmente eu estava feliz porque sabia que era parte da sociedade, do mundo. Eu sabia que era uma pessoa completa!

Professora Maria do Socorro de Souza Torres.
Escreve Crônicas, Poesias, Cordel, Peças Teatrais e Programas em Geral para Escolas e Igrejas Evangélicas
cesar.funes@digi.com.br
Rua Humberto Monte, 1062, Capim Macio
Tel. 6421660 – 94517993.

Cordel: Recomeço

Escrito por Maria do Socorro de S. Torres.

Hoje vou contar a história
De um velho amigo meu
Cabra bom e otimista
A ninguém nunca ofendeu
Mas um dia a tragédia
Somente prá fazer media
Sobre ele se abateu

Era bom pai de família
Trabalhou a vida inteira
Era pobre mas honesto
E nunca lhe faltou a feira
Mas um dia foi vencido
Pela sina abatido
Duma terrível cegueira

Ficou triste e cabisbaixco
Não podia trabalhar
Ficou sem sair de casa
E deixou de conversar
Isolou-se igual a ilha
E nem a sua família
Ele podia sustentar

Se tornou um dependente
Com alguém sempre a lhe guiar
Os amigos tinham pena
Mas nada de ajudar
Ele, sem sua visão
Ninguém para lhe dar a mão
Só quis se suicidar

O sorriso da esposa
Ele não podia ver
A beleza da paisagem
Prá sempre iria perder
O seu mundo tão risonho
Ficou escuro, tristonho
Não queria mais viver

Mas um dia a luz do sol
A su’alma fez brilhar
E através de um amigo
Ele escutou falar
De uma escola que ensinava
E ao cego ajudava
A se reabilitar

Entrou logo nessa escola
E começou a estudar
A ler com a ponta dos dedos
A escrever e a contar
Trabalhar, tomar transporte
Brincar, praticar esporte
E com a bengala, a caminhar

Ate mesmo o seu porte
Começou a melhorar
Levantou sua cabeça
E prometo recuparar
Todo o seu tempo perdido
Apurou o seu ouvido
E o mundo foi enfrentar

Aprendeu a ouvir musica
E a prestar muita atenção
Ouvia a voz dos seus filhos
De tudo tinha noção
Apreciava a beleza
E os sons da natureza
Pra ele era canção

No Instituto aprendeu
Que o cego pode ver
Seja com o tato, o ouvido
A vontade e o querer
Pois o cego, o dependente
É o homem de pouca mente
Que enxerga e não quer ver

Por isso meu camarada
Eu venho aqui lhe falar
Quando a tragédia acontece
Não precisa se alarmar
Deus se importa é com a alma
Ele dá consolo e calma
E ajuda a recomeçar

O Instituto está ai
Pra'quele que precisar
De ajuda, de conforto
De se reabilitar
Você tem tudo de graça
Cegueira não é desgraça
Se tem alguém prá ajudar

Peço a comunidade
Prá olhar com muito amor
O Instituto de cegos
E seja lá como for
Colabore e dê ajuda
Ao cego que estuda
Prá sair do dissabor.

Se você quiser saber
Como é que pode ajudar
Telefone ao Instituto
Ou pode a página acessar
Oferta grande ou pequena
E importante, vale a pena
E é Deus quem vai recompensar

Venha depressa você
Que perdeu sua visão
Prá reencontrar a luz
Ressuscitar a razão
Trabalhar, se sentir vivo
Encontrar um bom motivo
Prá cumprir sua missão

E agora camarada
Minha história chega ao fim
Meu amigo está feliz
E até disse prá mim
O endereço do futuro
Daquele que está no escuro
Fica lá no Alecrim.

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